Em uma década, o Brasil registrou um aumento de 441% nos diagnósticos de HIV entre pessoas com 60 anos ou mais — um crescimento que não reflete falha da medicina, mas uma lacuna cultural profunda: a ideia de que a velhice protege contra o risco. Enquanto o país celebra a eliminação da transmissão vertical do HIV e expande ferramentas como a PrEP, a epidemia encontrou um novo território onde a prevenção ainda não chegou — não por falta de recursos, mas por falta de imaginação sobre quem pode ser vulnerável.
HIV em idosos cresce 441% em dez anos e expõe lacuna em prevenção na terceira idade
Idosos não se veem na condição de risco porque não existe uma cultura do preservativo
Por que exatamente idosos não se veem em risco? Não é óbvio que qualquer pessoa sexualmente ativa pode contrair HIV?
Não é óbvio para eles, e aí está o problema. Durante toda a vida, a mensagem de prevenção foi sobre gravidez. Quando você chega aos 60, 70 anos, aquela preocupação desaparece. Ninguém nunca disse: "você precisa de preservativo para evitar infecções". A cultura simplesmente não existe.
E as medicações para disfunção erétil — como isso muda o cenário?
Elas abrem possibilidades que não existiam antes. De repente, um homem de 70 anos pode ter uma vida sexual ativa de novo. Aplicativos de relacionamento fazem o resto. Mas ninguém parou para pensar em prevenção nesse novo contexto.
O Brasil eliminou a transmissão de mãe para filho. Como isso foi possível?
Acesso universal. O SUS oferece tratamento gratuito para toda gestante com HIV, o que reduz a carga viral a níveis indetectáveis. Quando a carga viral é indetectável, o vírus não se transmite. Simples, mas só funciona se o sistema de saúde garante acesso para todos.
E a PrEP injetável — por que começar com homens que fazem sexo com homens?
Porque é onde a demanda é maior e onde os dados mostram maior vulnerabilidade. Mas também porque o preço é alto. Antes de expandir para toda a população, precisam garantir que o programa seja sustentável financeiramente.
Se a PrEP não protege contra outras ISTs, qual é o ponto?
O ponto é que HIV é a infecção mais grave. Mas você tem razão — é proteção incompleta. Por isso preservativo ainda é essencial. O problema é que ninguém está falando sobre isso com idosos.
Então o que muda agora?
Tudo depende de conseguir fazer idosos entenderem que estão em risco. Sem isso, todos esses avanços em tratamento e prevenção não chegam até eles.
El Pulso
- Entre 2012 e 2022, mais de 12 mil idosos foram diagnosticados com HIV no Brasil, revelando uma curva de crescimento que especialistas descrevem como alarmante e subestimada.
- Medicamentos para disfunção erétil, aplicativos de relacionamento e o aumento do divórcio na terceira idade ampliaram as oportunidades sexuais de idosos sem que a cultura de prevenção os acompanhasse.
- O Brasil eliminou a transmissão vertical do HIV e foi reconhecido pela OMS, provando que políticas públicas universais podem dobrar tendências históricas — mas esse sucesso contrasta com o avanço silencioso entre os mais velhos.
- O número de usuários de PrEP saltou 41% em um ano, e o país inicia testes da versão injetável, aplicada a cada dois meses, com potencial de ampliar adesão entre populações de difícil alcance.
- A PrEP protege apenas contra o HIV, não contra sífilis ou gonorreia — e sem o preservativo, idosos que não se enxergam em risco seguem expostos a um espectro mais amplo de infecções.
Em uma década, o Brasil registrou um aumento de 441% nos diagnósticos de HIV entre pessoas com 60 anos ou mais — um crescimento que não reflete falha da medicina, mas uma lacuna cultural profunda: a ideia de que a velhice protege contra o risco. Enquanto o país celebra a eliminação da transmissão vertical do HIV e expande ferramentas como a PrEP, a epidemia encontrou um novo território onde a prevenção ainda não chegou — não por falta de recursos, mas por falta de imaginação sobre quem pode ser vulnerável.
Quando os epidemiologistas identificaram o padrão, ele já estava consolidado: entre 2012 e 2022, o Brasil registrou 12.686 diagnósticos de HIV em pessoas com 60 anos ou mais, um crescimento de 441% em uma década. A infecção, que por muito tempo foi associada a outros perfis populacionais, encontrou na terceira idade um terreno onde a prevenção nunca se enraizou.
A infectologista Gisele Cristina Gosuen, da Universidade Federal de São Paulo, aponta a raiz do problema: idosos simplesmente não se enxergam em risco. Medicamentos para disfunção erétil, redes sociais e aplicativos de relacionamento criaram novas oportunidades de encontros ocasionais para essa geração — mas sem a cultura do preservativo, que historicamente esteve ligada à contracepção, não à prevenção de infecções. Para quem se considera velho, a ideia de contrair HIV raramente ocorre.
Ao mesmo tempo, o Brasil tem conquistas reais a celebrar. O país eliminou a transmissão vertical do HIV — de mãe para filho durante gestação, parto ou amamentação — e foi reconhecido pela OMS em dezembro de 2025. O SUS, ao garantir acesso universal e gratuito a exames, medicamentos e métodos preventivos, foi o instrumento dessa vitória. Mulheres que vivem com HIV podem hoje engravidar sem o medo que as desencorajava décadas atrás.
A prevenção também avança em novas direções. O Brasil começa a testar a PrEP injetável, aplicada a cada dois meses em vez de diariamente, o que pode melhorar a adesão. O número de usuários de PrEP cresceu de 165 mil para 233 mil entre 2024 e 2025 — alta de 41% em um ano. Mas a PrEP não substitui o preservativo: ela protege contra o HIV, não contra sífilis, clamídia ou gonorreia. Para idosos sem cultura de prevenção, essa lacuna é significativa, e os números da última década podem ser apenas o início de uma curva que ainda não encontrou seu teto.
Quando os epidemiologistas começaram a notar o padrão, a tendência já estava bem estabelecida. Entre 2012 e 2022, o Brasil registrou um aumento de 441% nos diagnósticos de HIV entre pessoas com 60 anos ou mais — um total de 12.686 casos em uma década. O número transformou a infecção em uma das principais preocupações da saúde pública para a população idosa, tanto aqui quanto no resto do mundo.
O crescimento não é acidental. Segundo Gisele Cristina Gosuen, infectologista da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal do Estado de São Paulo, a raiz do problema está em uma lacuna profunda de percepção de risco. Medicações para disfunção erétil, o aumento do divórcio entre idosos, as redes sociais e aplicativos de relacionamento criaram um cenário onde pessoas mais velhas têm mais oportunidades de relacionamentos ocasionais do que tinham antes. Mas essa mesma população não se enxerga como vulnerável. A cultura do preservativo nunca se enraizou entre eles porque, historicamente, a preocupação com contracepção era sobre gravidez indesejada, não sobre infecções sexualmente transmissíveis. Quando alguém se considera idoso, a ideia de estar em risco de HIV simplesmente não ocorre.
O Brasil, porém, tem razões legítimas para comemorar avanços em outras frentes da epidemia. O país eliminou a transmissão vertical do HIV — aquela que ocorre de mãe para filho durante a gestação, parto ou amamentação — e foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde em dezembro de 2025 por essa conquista. O feito representa mais do que um número em um relatório: significa que mulheres que vivem com HIV podem engravidar e ter filhos sem medo de transmitir o vírus. Décadas atrás, elas eram desencorajadas a ter filhos justamente por causa desse risco. O Sistema Único de Saúde, ao garantir acesso universal a exames, medicamentos e métodos preventivos de forma gratuita, foi o instrumento que tornou isso possível. A comunidade científica internacional reconheceu que esse modelo funcionou.
A prevenção segue evoluindo. O Brasil está começando a testar a PrEP injetável — uma profilaxia pré-exposição que pessoas em risco podem tomar antes de se expor sexualmente para reduzir drasticamente a chance de infecção. Diferentemente da PrEP oral, que é diária, a versão injetável é aplicada a cada dois meses, o que pode melhorar significativamente a adesão. Por enquanto, a estratégia será oferecida prioritariamente a homens que fazem sexo com homens e mulheres trans, enquanto questões de custo e sustentabilidade do programa nacional são discutidas. O número de pessoas usando PrEP cresceu de 165 mil em 2024 para 233 mil em 2025 — um aumento de 41% em apenas um ano, sinalizando que a demanda por prevenção existe e é forte.
Mas há um limite importante naquilo que a PrEP pode fazer. Ela protege especificamente contra o HIV, não contra outras infecções sexualmente transmissíveis como sífilis, clamídia ou gonorreia. Para idosos que não usam preservativo — e cuja cultura de prevenção é praticamente inexistente — essa proteção incompleta deixa brechas. O desafio agora é duplo: expandir o acesso a ferramentas como a PrEP injetável enquanto constrói uma mudança cultural profunda sobre risco sexual na terceira idade. Sem isso, os números de 2012 a 2022 podem ser apenas o começo de uma curva que continua subindo.
Citas Notables
Uma vez se considerando idosos, eles não se veem na condição de risco, porque não existe uma cultura do uso do preservativo— Gisele Cristina Gosuen, infectologista da Unifesp
Nós chegamos a esse ponto justamente pela existência do Sistema Único de Saúde, que promove acesso universal ao tratamento para todo cidadão brasileiro— Gisele Cristina Gosuen