A educação é a arma mais poderosa contra o racismo
Numa segunda-feira de março, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, dirigiu-se à Assembleia-Geral para invocar uma ferida histórica que ainda molda o presente: o comércio transatlântico de escravos, que durante mais de 400 anos transformou seres humanos em mercadoria e devastou um continente inteiro. Guterres pediu aos Governos que introduzissem este capítulo nos currículos escolares, argumentando que compreender o passado é a única forma de desmantelar as desigualdades que dele herdámos. A educação, na sua visão, não é apenas instrução — é um ato de reparação e de defesa contra os impulsos mais sombrios da humanidade.
- O ódio racial ressurge nos noticiários do mundo enquanto o legado da escravatura continua a manifestar-se em disparidades persistentes de riqueza, saúde e oportunidade para comunidades afrodescendentes.
- Guterres alertou que ignorar esta história nas salas de aula equivale a deixar as sociedades desarmadas perante o racismo contemporâneo e o ressurgimento da supremacia branca.
- A proposta é concreta: introduzir nos currículos as causas, manifestações e consequências do tráfico transatlântico, incluindo as histórias de resistência e resiliência africana, como a da rainha Ana Nzinga.
- A ONU disponibiliza ferramentas práticas — o programa 'Relembrar a Escravidão' e a 'Rota do Escravo' da UNESCO — para que os Estados-membros possam agir sem demora.
- O desafio está agora do lado dos Governos: transformar um apelo moral numa mudança real dentro das salas de aula, onde o futuro ainda está a ser escrito.
António Guterres subiu ao pódio da Assembleia-Geral das Nações Unidas para marcar o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura e do Tráfico Transatlântico de Escravos. A sua mensagem foi direta: os Governos precisam de ensinar esta história aos seus filhos — não como um capítulo esquecido, mas como uma verdade viva que explica o mundo de hoje.
O secretário-geral recordou a escala do sofrimento: durante mais de 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados, traficados através do Atlântico e despojados da sua humanidade. Guterres chamou-lhe a maior migração forçada sancionada legalmente na história da Humanidade — uma era de crueldade e injustiça colossal que impediu o desenvolvimento de um continente inteiro durante séculos.
Mas o ponto central da sua intervenção foi outro: o passado não é passado. O legado da escravatura persiste nas desigualdades sociais e económicas de hoje, nas disparidades de riqueza, saúde e educação que os afrodescendentes continuam a enfrentar. Enquanto falava, o ódio da supremacia branca ressurgia nos noticiários do mundo.
Por isso a educação importava tanto. Guterres pediu que as escolas ensinassem não só o horror da escravatura, mas também a história de resistência e resiliência africana — invocando figuras como a rainha Ana Nzinga do Ndongo, cuja diplomacia e vitórias militares frustraram as ambições coloniais de Portugal e inspiraram movimentos de independência durante séculos.
A ONU colocou ferramentas concretas à disposição dos Estados-membros: o programa 'Relembrar a Escravidão' e o projeto 'Rota do Escravo' da UNESCO. Guterres concluiu com uma ideia que resumia tudo: ao ensinar esta história, protegemo-nos contra os impulsos mais perversos da humanidade. A educação não era apenas uma arma contra o racismo — era um ato de reparação.
António Guterres subiu ao pódio da Assembleia-Geral das Nações Unidas numa segunda-feira de março para falar de uma ferida que ainda sangra. O secretário-geral da organização tinha vindo marcar o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura e do Tráfico Transatlântico de Escravos, e a sua mensagem foi direta: os Governos precisam de ensinar isto aos seus filhos.
Não como um capítulo esquecido num manual de história. Como uma verdade viva que explica o mundo de hoje. Guterres pediu que as escolas de todo o mundo introduzissem nos currículos as causas, as manifestações e as consequências do comércio transatlântico de escravos. A educação, argumentou, é a arma mais poderosa contra o racismo.
O que estava em causa era a escala do sofrimento. Durante mais de 400 anos, milhões de crianças, mulheres e homens africanos foram sequestrados e traficados através do Atlântico. Foram arrancados das suas famílias e terras natais. As suas comunidades foram dilaceradas, os seus corpos transformados em mercadoria, a sua humanidade negada. Guterres chamou-lhe "a maior migração forçada sancionada legalmente na história da Humanidade". Uma era de "crueldade e barbárie", de "injustiça colossal" que devastou um continente inteiro e impediu o seu desenvolvimento durante séculos.
Mas o ponto crucial da sua intervenção foi este: o passado não é passado. O legado da escravatura persegue as sociedades atuais como uma sombra que não desaparece. Pode traçar-se uma linha reta desde a era da exploração colonial até às desigualdades sociais e económicas de hoje. As cicatrizes são visíveis nas disparidades persistentes de riqueza, rendimentos, saúde, educação e oportunidades. Os afrodescendentes carregam consigo o trauma transgeracional, continuam a enfrentar marginalização, exclusão e fanatismo. E enquanto Guterres falava, o ódio da supremacia branca ressurgia nos noticiários do mundo.
Por isso a educação importava tanto. Não era nostalgia. Era defesa. Guterres pediu aos Governos que ensinassem a história terrível da escravatura, mas também a história de África e da diáspora africana — o povo que enriqueceu as sociedades por onde passou e se destacou em todos os campos da atividade humana. E pediu que ensinassem as histórias de resistência e resiliência. Invocou a rainha Ana Nzinga do Ndongo, na atual Angola, cuja diplomacia e vitórias militares frustraram as ambições coloniais de Portugal e inspiraram movimentos de independência durante séculos.
A ONU colocou ferramentas à disposição dos Estados-membros para esta tarefa: o programa Relembrar a Escravidão e o projeto Rota do Escravo da UNESCO. Não era uma sugestão vaga. Era um convite concreto a mudar o que as crianças aprendem nas salas de aula.
Guterres terminou com uma reflexão que resumia tudo. Ao ensinar a história da escravatura, protegemo-nos contra os impulsos mais perversos da humanidade. Ao estudar as suposições e crenças que permitiram que a prática florescesse durante séculos, desvendamos o racismo do nosso tempo. E ao homenagear as vítimas, restauramos em alguma medida a dignidade para aqueles que foram impiedosamente despojados dela. A educação não era apenas uma arma contra o racismo. Era um ato de reparação.
Notable Quotes
Devemos aprender e ensinar a terrível história da escravatura. Devemos aprender e ensinar a história de África e da diáspora africana, cujo povo enriqueceu as sociedades por onde passou.— António Guterres, secretário-geral da ONU
Ao ensinar a história da escravatura, ajudamos a proteger-nos contra os impulsos mais perversos da Humanidade.— António Guterres
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que Guterres escolheu este momento, este evento, para fazer este apelo específico sobre currículos escolares?
Porque o legado da escravatura não é história — é presente. As desigualdades que vemos hoje têm raízes diretas naqueles 400 anos. Se as crianças não aprenderem isto, continuam a viver num mundo que não conseguem compreender.
Mas há muitos países que têm dificuldade em ensinar até o básico. Como é que se implementa isto na prática?
A ONU ofereceu programas prontos — Relembrar a Escravidão, Rota do Escravo da UNESCO. Não é começar do zero. É uma questão de prioridade política.
E se um país disser que isto é demasiado controverso, que divide as pessoas?
Guterres responderia que o silêncio também é uma escolha. E que estudar as crenças que permitiram a escravatura é estudar como o racismo funciona agora.
Ele mencionou a rainha Ana Nzinga. Porque é que essa figura importa nesta conversa?
Porque mostra que a resistência é também história africana. Não é apenas vitimização. É poder, diplomacia, vitória. As crianças precisam de saber que houve quem lutasse.
No fundo, isto é sobre restaurar dignidade?
Sim. Mas também sobre proteger o futuro. Se compreendermos como o racismo foi construído, conseguimos vê-lo quando ele reaparece.