Em um país onde mais de um quarto da renda disponível das famílias já está comprometida com dívidas, o governo Lula anunciou o Desenrola Brasil 3.0 — um programa que pretende comprar e reestruturar R$ 150 bilhões em débitos atrasados, devolvendo a quem deve o mesmo desconto de 90% obtido na compra das carteiras. O anúncio, feito nove dias antes das eleições, revela que o endividamento deixou de ser apenas uma questão financeira para se tornar uma questão de dignidade e de escolha política. A pergunta que permanece aberta é se a mecânica dos leilões, ao longo de três anos, conseguirá transforma
Governo lança Desenrola Brasil 3.0 para quitar R$ 150 bi em dívidas de famílias
Mais de um quarto da renda disponível vai para pagar dívidas antigas
Por que o governo escolheu especificamente dívidas com atraso de dois a quatro anos e meio? Por que não as mais recentes ou as mais antigas?
Provavelmente porque esse é o ponto de equilíbrio. Dívidas muito recentes ainda estão em negociação com os credores originais. As muito antigas podem estar em cobrança judicial ou já terem sido baixadas. Esse meio termo é onde há carteiras consolidadas que os bancos estão dispostos a vender.
Mas o texto não explica isso. Sabemos que é o foco, mas não sabemos por quê. Pode ser uma decisão técnica ou política — e a diferença importa.
Quinze milhões de pessoas é um número grande. Como o governo sabe que exatamente esse número será beneficiado?
É uma estimativa baseada no tamanho do mercado de crédito nessas modalidades e na renda das famílias. Mas é só uma estimativa. O número real dependerá dos critérios que o Ministério da Fazenda ainda vai definir.
Exato. Quinze milhões é o teto teórico se todos os critérios forem abertos. Pode ser muito menos. E a gente não sabe ainda quem vai ser priorizado — se vai ser os mais pobres, os que devem mais, ou outra coisa qualquer.
O deságio de noventa por cento parece generoso demais. Como os bancos aceitam vender dívidas por dez centavos no real?
Porque essas dívidas estão velhas e difíceis de cobrar. Um banco prefere receber dez por cento agora do que ficar perseguindo uma dívida de quatro anos que talvez nunca receba. É melhor para o fluxo de caixa deles.
Verdade, mas isso também significa que o governo está usando dinheiro público para resolver um problema que é, em parte, do setor financeiro. Os bancos estão se livrando de carteiras ruins com a ajuda do Tesouro.
E o custo para o governo? Quinze bilhões é muito?
Para um orçamento federal, não é astronômico. Mas o texto diz que é o custo máximo de aquisição. Se o governo conseguir comprar as carteiras por menos, melhor para as contas públicas.
Mas aqui está o ponto: o texto não diz qual é o custo esperado, só o máximo. E não diz qual é o impacto nas contas públicas além disso. O governo vai ter que cobrar essas dívidas depois? Vai perdoar? Vai vender para terceiros? Essas respostas não estão aqui.
The Pulse
- O endividamento das famílias brasileiras atingiu recordes históricos: 28,85% da renda disponível já vai para o pagamento de dívidas antigas, renovando máximas que nunca haviam sido vistas.
- O programa mira um segmento preciso — cartões de crédito e empréstimos pessoais de até R$ 10 mil com atraso entre dois e quatro anos e meio —, reconhecendo que esse é o bolsão de dívidas mais difícil de resolver pelo mercado sozinho.
- A União pagará apenas 10% do valor nominal das dívidas aos credores e repassará o desconto integral ao devedor, seja para quitação à vista ou parcelamento com juros a definir pelo CMN.
- Os leilões das carteiras ocorrerão ao longo de 2026, 2027 e 2028, com operações previstas para começar em novembro, mas os critérios de renda que definirão quem pode participar ainda não foram estabelecidos.
- O anúncio, feito nove dias antes do primeiro turno das eleições, transforma uma crise econômica em disputa política — e coloca o governo na posição de árbitro ativo do mercado de crédito.
Em um país onde mais de um quarto da renda disponível das famílias já está comprometida com dívidas, o governo Lula anunciou o Desenrola Brasil 3.0 — um programa que pretende comprar e reestruturar R$ 150 bilhões em débitos atrasados, devolvendo a quem deve o mesmo desconto de 90% obtido na compra das carteiras. O anúncio, feito nove dias antes das eleições, revela que o endividamento deixou de ser apenas uma questão financeira para se tornar uma questão de dignidade e de escolha política. A pergunta que permanece aberta é se a mecânica dos leilões, ao longo de três anos, conseguirá transformar uma promessa de alívio em realidade concreta para até 15 milhões de brasileiros.
Na sexta-feira 25 de setembro, o governo Lula apresentou o Desenrola Brasil 3.0, sua resposta a uma crise de endividamento que atingiu níveis sem precedente. O programa tem um alvo definido: dívidas de cartão de crédito e empréstimos pessoais de até R$ 10 mil, com atraso entre dois e quatro anos e meio. O governo estima que esse universo some R$ 300 bilhões e pretende capturar metade — R$ 150 bilhões — beneficiando até 15 milhões de pessoas.
A lógica financeira é direta. A União comprará as carteiras de dívidas com deságio de 90%, pagando aos credores apenas 10% do valor nominal. Esse desconto será integralmente repassado ao devedor: quem quiser quitar à vista paga apenas essa fração; quem preferir parcelar terá juros definidos pelo Conselho Monetário Nacional. O custo máximo para os cofres públicos está limitado a R$ 15 bilhões. As compras ocorrerão por leilões segmentados ao longo de 2026, 2027 e 2028, operados pelo Tesouro Nacional ou por uma instituição financeira federal como Caixa ou Banco do Brasil.
O pano de fundo é sombrio. Em junho, o comprometimento de renda das famílias — a fatia da renda disponível destinada ao pagamento de dívidas — renovou máxima histórica em 28,85%. Mais de um quarto do que as famílias têm para gastar já está comprometido antes mesmo de chegarem ao mercado.
O timing do anúncio, a nove dias do primeiro turno das eleições, não é coincidência. O endividamento é uma ferida política tanto quanto econômica, e o programa sinaliza que o governo está disposto a intervir diretamente no mercado de crédito. O que ainda falta definir — os critérios de renda que determinarão quem acessa o programa — será decisivo para saber se a promessa de alívio se converte em impacto real para milhões de brasileiros.
Na sexta-feira 25 de setembro, o governo Lula anunciou o Desenrola Brasil 3.0, um programa desenhado para enfrentar uma crise de endividamento que atingiu patamares nunca antes vistos entre as famílias brasileiras. O programa vai comprar e reestruturar dívidas que estão atrasadas há pelo menos dois anos e no máximo quatro anos e meio — um segmento específico do mercado de crédito que o governo acredita poder alcançar com precisão.
O foco é estreito: cartões de crédito nas modalidades parcelada e rotativa, além de empréstimos pessoais sem desconto em folha de até dez mil reais. O governo estima que essas dívidas somem trezentos bilhões de reais no total. A meta é capturar metade disso — cento e cinquenta bilhões — com um deságio de noventa por cento. Isso significa que a União pagará aos credores apenas dez por cento do valor nominal das dívidas, repassando o desconto inteiro ao devedor. Até quinze milhões de pessoas poderiam ser beneficiadas, dependendo dos critérios de renda que o Ministério da Fazenda ainda vai definir.
O custo máximo para a União adquirir essas carteiras é limitado a quinze bilhões de reais. A compra acontecerá por meio de leilões realizados ao longo de 2026, 2027 e 2028, segmentados por tipo de dívida. O Tesouro Nacional ou uma instituição financeira federal — potencialmente Caixa ou Banco do Brasil — executará a operação, possivelmente usando fundos de investimento em direitos creditórios, nos quais a União entrará como cotista. A operação está prevista para começar em novembro.
Para o devedor, a mecânica é simples: ele recebe o mesmo desconto de noventa por cento que a União conseguiu. Se quiser pagar à vista, liquida a dívida com esse desconto. Se preferir parcelar, incidirão juros cujas condições serão definidas pelo Conselho Monetário Nacional. É uma transferência direta do ganho que o governo obtém na compra das carteiras para quem deve.
O anúncio chega em um momento de pressão econômica aguda. Em junho, o indicador do Banco Central que mede a relação entre o saldo total das dívidas das famílias e sua renda acumulada em doze meses ficou em 49,75%, após atingir 49,92% em janeiro — um recorde histórico. Mais preocupante ainda é o comprometimento de renda, que mede quanto da renda disponível vai para pagar dívidas. Esse indicador renoveu máxima histórica em 28,85%, significando que mais de um quarto da renda que as famílias têm para gastar está comprometida com pagamentos de dívidas antigas.
O timing do anúncio — nove dias antes do primeiro turno das eleições — não é acidental. O endividamento das famílias em níveis recordes é uma questão política tanto quanto econômica. O programa tenta oferecer alívio concreto a um eleitorado que sente o aperto do crédito caro e das dívidas acumuladas. Ao mesmo tempo, o governo sinaliza que tem ferramentas para intervir no mercado de crédito e que está disposto a usá-las.
O sucesso do Desenrola 3.0 dependerá de como os leilões se desenrolam nos próximos três anos e de quantas famílias realmente conseguem acessar o programa. Os critérios de renda ainda não foram definidos, o que deixa em aberto quem exatamente será priorizado. Mas a escala é clara: se o governo conseguir atingir sua meta de cento e cinquenta bilhões em dívidas reestruturadas, o impacto na vida de milhões de brasileiros será tangível.
Notable Quotes
O objetivo é atingir 50% do montante total de dívidas nessas modalidades, ou seja, R$ 150 bilhões, com deságio de 90%— Governo federal