Em meio ao intervalo eleitoral, o Ministério da Fazenda prepara uma emenda constitucional para preservar temporariamente o IPI sobre fumo, bebidas e veículos — um gesto que revela a tensão entre o calendário político e a arquitetura da maior reforma tributária do Brasil em décadas. O adiamento da regulamentação do Imposto Seletivo criou um vazio de R$ 3,82 bilhões na arrecadação prevista para janeiro de 2027, e o governo busca agora uma ponte legal para atravessar esse abismo sem abalar as fundações do novo sistema. A manobra é técnica em sua forma, mas carrega um peso simbólico: toda emenda c
Governo estuda PEC para prorrogar IPI e cobrir atraso do Imposto Seletivo
Uma perda de R$ 3,82 bilhões em janeiro de 2027
Por que o governo não simplesmente mantém o cronograma? Qual é a dificuldade real em implementar o Imposto Seletivo em janeiro?
A medida provisória que define as alíquotas e regras específicas deveria ter sido publicada até 2 de outubro para respeitar os 90 dias de antecedência. O governo adiou para depois das eleições, e agora não consegue cumprir o prazo.
Mas por que adiou? A reportagem diz que adiou, mas não explica a razão política ou administrativa. Isso importa.
É uma escolha política — evitar mudanças tributárias durante a campanha eleitoral. Mas o custo é R$ 3,82 bilhões em arrecadação perdida.
E o Imposto Seletivo é realmente um substituto direto do IPI, ou há diferenças importantes?
Não é exatamente igual. O Seletivo pode variar não apenas pelo tipo de produto, mas também pelo dano potencial — por exemplo, a quantidade de álcool em uma bebida. E alcança categorias que o IPI não atingia, como bets e fantasy sports.
A reportagem diz que o Seletivo vai arrecadar R$ 41,9 bilhões, mas o IPI arrecada mais. Quanto mais, exatamente?
A reportagem não dá o número exato do IPI atual. Ela diz que o Seletivo cobre "pouco mais de 40%" da receita atual com o IPI, mas não revela o total.
E se o Congresso usar essa PEC como pretexto para mexer em outros pontos da reforma?
Aí sim fica complicado. Tributaristas já especulam sobre isso. Flávio Bolsonaro já prometeu revisar a reforma se eleito.
Mas a reportagem não diz se há movimento concreto no Congresso para isso. É especulação de tributaristas, não confirmação de intenção legislativa.
O governo prometeu manter a carga tributária igual. Isso é vinculante?
É um compromisso político feito na reunião, não uma garantia legal. As alíquotas ainda serão definidas em regulamentação posterior.
E quanto à CBS? Ela entra em vigor sem problema em janeiro, ou também depende de adiamento?
A CBS não precisa de noventena segundo a Constituição, então tecnicamente pode entrar em janeiro. Mas o adiamento do Seletivo cria um vazio de arrecadação que afeta o orçamento como um todo.
O Pulso
- O governo federal criou um buraco de R$ 3,82 bilhões em sua própria arrecadação ao adiar, por razões eleitorais, a publicação das alíquotas do Imposto Seletivo.
- A regra dos 90 dias exigida por lei para novos tributos foi violada, empurrando o início da cobrança do Seletivo de janeiro para fevereiro de 2027.
- Fabricantes de cerveja, vinho, cigarros, refrigerantes e aeronaves foram convocados a Brasília para negociar uma transição que o governo prometeu ser neutra em carga tributária.
- A PEC que prorrogaria o IPI surge como a saída menos disruptiva, mas abre a Constituição para emendas que o governo não controla — e candidatos como Flávio Bolsonaro já sinalizaram intenção de revisar a reforma.
- Com um terço de toda a arrecadação federal em transição simultânea, qualquer atraso adicional representa risco real para as contas públicas e para a trava que exige manutenção da carga tributária histórica.
Em meio ao intervalo eleitoral, o Ministério da Fazenda prepara uma emenda constitucional para preservar temporariamente o IPI sobre fumo, bebidas e veículos — um gesto que revela a tensão entre o calendário político e a arquitetura da maior reforma tributária do Brasil em décadas. O adiamento da regulamentação do Imposto Seletivo criou um vazio de R$ 3,82 bilhões na arrecadação prevista para janeiro de 2027, e o governo busca agora uma ponte legal para atravessar esse abismo sem abalar as fundações do novo sistema. A manobra é técnica em sua forma, mas carrega um peso simbólico: toda emenda constitucional é também um convite ao debate — e nem todos os debatedores compartilham o mesmo destino para a reforma.
O Ministério da Fazenda prepara uma emenda constitucional para enviar ao Congresso após o segundo turno das eleições com um objetivo preciso: estender temporariamente o IPI sobre fumo, bebidas alcoólicas, refrigerantes e veículos — justamente nos meses em que esse imposto deveria ser extinto pela reforma tributária aprovada.
O problema é aritmético. O governo adiou a publicação da medida provisória que regulamentaria o Imposto Seletivo — o tributo que substituiria o IPI nesses setores — para depois das eleições. A decisão gerou uma perda de R$ 3,82 bilhões em janeiro de 2027, equivalente a 9% da receita anual prevista com o novo imposto. O atraso também violou a regra dos 90 dias de antecedência exigida por lei, empurrando o início da cobrança do Seletivo de janeiro para fevereiro.
Em reunião em Brasília com o ministro Dario Durigan, representantes da Receita Federal e empresas dos setores afetados — cerveja, vinho, destilados, cigarros, refrigerantes e aeronaves —, o governo prometeu calibrar as alíquotas do Seletivo para manter a mesma carga tributária atual. Para bens minerais como minério de ferro, petróleo e gás, comprometeu-se com alíquota zero no primeiro ano. O Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja foi o único a se pronunciar publicamente, reconhecendo o esforço do governo mas aguardando a proposta com alíquotas definidas.
O governo chegou a considerar aumentar o Seletivo nos meses seguintes para recuperar a arrecadação perdida, mas o risco de empresas anteciparem produção em janeiro para aproveitar tributação menor tornou essa opção inviável. A PEC surgiu como a solução menos disruptiva — mas não sem riscos próprios.
Tributaristas alertam que uma emenda constitucional focada no IPI pode se tornar pretexto para o Congresso alterar outros pontos da reforma. Flávio Bolsonaro já prometeu revisar aspectos do novo sistema caso eleito. Enquanto isso, a reforma segue seu cronograma em outras frentes: PIS, Cofins e IOF sobre seguros serão extintos em janeiro, substituídos pela CBS, cuja alíquota será conhecida no final de outubro e ratificada pelo Senado até dezembro. Com um terço de toda a arrecadação federal em transição simultânea, o adiamento representa um risco concreto para o equilíbrio das contas públicas.
O Ministério da Fazenda prepara uma emenda constitucional para enviar ao Congresso após o segundo turno das eleições, com um objetivo bem definido: ganhar tempo. A proposta visa estender a vida do IPI — o imposto sobre produtos industrializados — em categorias como fumo, bebidas alcoólicas, refrigerantes e veículos, justamente nos meses em que deveria desaparecer sob as regras da reforma tributária aprovada.
O problema que move essa manobra é aritmético e urgente. O governo adiou a publicação da medida provisória que regulamentaria o Imposto Seletivo, o tributo que substituiria o IPI nesses setores, para depois das eleições. Essa decisão custará caro: uma perda de arrecadação de R$ 3,82 bilhões em janeiro de 2027, equivalente a 9% da receita anual prevista com o novo imposto. O atraso empurrou o início da cobrança do Seletivo de janeiro para fevereiro, violando a regra dos 90 dias de antecedência que a lei exige para qualquer novo tributo entrar em vigor.
A estratégia foi debatida em reunião realizada em Brasília na terça-feira com o ministro Dario Durigan, representantes da Receita Federal, a Confederação Nacional da Indústria e empresas dos setores atingidos. Presentes estavam fabricantes de cerveja, vinho, destilados, refrigerantes, cigarros e aeronaves, além de entidades de mineração e petróleo. O governo prometeu, nessa conversa, que as alíquotas do Seletivo serão calibradas para manter a mesma carga tributária que essas indústrias pagam hoje com o IPI. Para bens minerais como minério de ferro, petróleo, carvão e gás, comprometeu-se com alíquota zero no primeiro ano.
O Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja foi o único setor a se pronunciar publicamente, reconhecendo o esforço do governo em construir um acordo e afirmando apoio aos princípios da reforma, mas deixando claro que aguarda a proposta com as alíquotas definidas conforme os compromissos negociados. Os demais setores ainda avaliam o impacto operacional da prorrogação antes de se posicionarem oficialmente.
O governo considerou uma alternativa: aumentar a alíquota do Seletivo nos meses seguintes para recuperar a arrecadação perdida em janeiro. Mas essa opção carrega um risco comportamental: empresas poderiam antecipar a produção em janeiro para aproveitar a tributação menor do período. A PEC surge, portanto, como a solução menos disruptiva.
O adiamento, porém, abre uma porta que preocupa tributaristas. Uma emenda constitucional focada apenas no IPI pode virar pretexto para o Congresso mexer em outros pontos da reforma, mesmo contra a vontade do governo. O candidato Flávio Bolsonaro já prometeu adiar ou revisar aspectos do novo sistema se eleito, embora sua assessoria econômica mantenha a questão em termos genéricos. O governo Lula, por sua vez, tem reafirmado o cronograma de substituição de tributos em janeiro, destacando benefícios como a devolução de tributos para famílias do Cadastro Único e a desoneração da cesta básica.
A reforma também extinguirá PIS, Cofins e IOF sobre seguros em janeiro, substituindo-os pela CBS, uma contribuição federal sobre bens e serviços. Um adiamento dessa mudança também exigiria emenda constitucional. A alíquota da CBS será conhecida no final de outubro, após cálculo do Tribunal de Contas da União, e o Senado deve ratificá-la até dezembro. A receita prevista com a CBS é de R$ 636,8 bilhões, enquanto o Imposto Seletivo deve arrecadar R$ 41,9 bilhões — pouco mais de 40% da receita atual com o IPI. Juntos, esses tributos precisam gerar o equivalente a cerca de 5% do PIB para manter a carga tributária do período 2012-2021, conforme exige a trava da reforma. O adiamento representa um risco real para as contas públicas, já que um terço de toda arrecadação administrada pela Receita Federal refere-se aos tributos sendo alterados.
Citações Notáveis
A intenção do governo é garantir previsibilidade e segurança jurídica para o ano de 2027— Ministério da Fazenda
Reconhece o esforço do Ministério da Fazenda em construir um acordo com os diferentes setores produtivos, visando assegurar previsibilidade e manutenção de carga tributária— Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv)