Na cidade histórica de Paraty, durante a Flip, dois criadores confrontaram uma das tensões mais antigas da civilização: a arquitetura como abrigo ou como arma. O escritor José Godoy trouxe a memória da ilha Dawson — onde o Estado chileno aprisionou indígenas no século 19 e opositores políticos nos anos 1970 — enquanto o arquiteto paraguaio Solano Benítez respondeu com a visão de que os mesmos princípios espaciais podem dignificar a existência humana. O encontro não ofereceu resolução, mas algo mais honesto: a exposição de uma contradição que habita toda construção humana.
Godoy e Benítez debatem dualidade da arquitetura entre libertação e opressão na Flip
O primeiro momento de tortura era na chegada
Por que Godoy escolheu justamente a história da ilha Dawson para seu livro? Parece uma escolha muito específica.
Porque a ilha não é apenas um lugar. É um arquivo de como o Estado usa o espaço para controlar corpos. Godoy vê nela um padrão que se repete em toda a América Latina — a violência não é acidental, está inscrita na própria arquitetura.
E essa escada que ele menciona, a que os prisioneiros caíam — por que Lawner decidiu mantê-la quando reformou o centro de tortura?
Porque apagar não é lembrar. Manter a escada é dizer: aqui aconteceu algo. O corpo sentia isso ao descer. A memória precisa de testemunhas físicas.
Benítez parece discordar dessa visão sombria. Ele fala de aspirações, de melhoramento.
Não discorda exatamente. Reconhece que a arquitetura pode ser arma ou ferramenta de dignidade. O que ele insiste é que o impulso humano é sempre pelo bem — a terra sem mal dos guarani. A questão é quem controla o desenho.
Então o debate não resolve nada?
Resolve ao expor a escolha. Toda construção é um ato político. Você pode desenhar uma escada para ferir ou para acolher. O mesmo conhecimento, intenções diferentes.
O Pulso
- A ilha Dawson funcionou duas vezes como instrumento de Estado: primeiro para confinar e exterminar indígenas selk'nam e kawésqar, depois para torturar membros do governo Allende — o mesmo espaço, a mesma lógica de controle.
- Uma escada com degraus irregulares e vedada deliberadamente fazia os prisioneiros caírem na chegada ao campo: o design arquitetônico era o primeiro ato de tortura, antes de qualquer interrogatório.
- Godoy argumenta que esse trauma não é apenas chileno — é uma ferida colonial que percorre toda a América Latina e continua a se repetir como padrão de dominação territorial.
- Benítez, premiado com o Leão de Ouro em Veneza, oferece o contraponto: a arquitetura pode encarnar a aspiração guarani por uma 'terra sem mal', sendo instrumento de dignidade e não de destruição.
- O debate na Flip terminou sem síntese — e foi exatamente essa recusa à resolução fácil que revelou a profundidade da questão: o que separa a libertação da opressão é a intenção de quem detém o poder de construir.
Na cidade histórica de Paraty, durante a Flip, dois criadores confrontaram uma das tensões mais antigas da civilização: a arquitetura como abrigo ou como arma. O escritor José Godoy trouxe a memória da ilha Dawson — onde o Estado chileno aprisionou indígenas no século 19 e opositores políticos nos anos 1970 — enquanto o arquiteto paraguaio Solano Benítez respondeu com a visão de que os mesmos princípios espaciais podem dignificar a existência humana. O encontro não ofereceu resolução, mas algo mais honesto: a exposição de uma contradição que habita toda construção humana.
A arquitetura carrega uma contradição que raramente é nomeada: os mesmos princípios que erguem abrigo e dignidade podem ser torcidos para infligir sofrimento. Essa tensão foi o centro de um encontro na Flip, em Paraty, na sexta-feira, quando o escritor José Godoy e o arquiteto paraguaio Solano Benítez conversaram sobre como os espaços moldam — e às vezes destroem — a experiência humana.
Godoy chegou ao debate com uma história específica e perturbadora. Em junho, havia lançado um livro sobre a ilha Dawson, no estreito de Magalhães, que carrega dois crimes distintos: no final do século 19, o Estado chileno a transformou em prisão para indígenas selk'nam e kawésqar; nos anos 1970, o regime Pinochet a converteu em campo de concentração para membros do governo de Salvador Allende. Para Godoy, esse padrão não é apenas chileno — é um trauma colonial que atravessa toda a América Latina como ferida que não cessa.
Um dos personagens centrais do livro é Miguel Lawner, arquiteto e preso político que, após ser libertado, reformou um centro de tortura e o transformou em espaço de memória. Mas o detalhe mais revelador foi a preservação de uma escada com degraus irregulares e vedada, pela qual os detentos desciam aos porões e invariavelmente caíam. O design era deliberado: a arquitetura era o instrumento, e o sofrimento começava antes de qualquer interrogatório.
Benítez ofereceu o contraponto. Laureado com o Leão de Ouro na Bienal de Veneza em 2016, ele argumenta que a arquitetura é fundamentalmente um instrumento de melhoria — uma forma de amparar tudo aquilo que é bom para os seres humanos. Invocou a cosmogonia guarani, que buscava uma terra sem mal, para ilustrar que esse impulso de dignificar a existência é ancestral e continua vivo em qualquer projeto honesto.
O debate não resolveu a contradição — deixou-a exposta. A mesma disciplina que desenha escadas para fazer homens caírem pode imaginar espaços de liberdade. O que muda é a intenção, o poder que a empunha, e a memória que se escolhe preservar.
A arquitetura carrega em si uma contradição fundamental. Os mesmos princípios que constroem abrigo e dignidade podem ser torcidos para infligir sofrimento. Essa tensão ocupou o centro de um encontro na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, na sexta-feira 24 de julho, quando o escritor José Godoy e o arquiteto paraguaio Solano Benítez se sentaram para conversar sobre como os espaços moldam — e às vezes destroem — a experiência humana.
Godoy chegou ao debate com uma história específica e perturbadora. Meses antes, em junho, havia lançado "A Ilha do Silêncio: Terror e Genocídio na Terra do Fogo", um livro que mistura ensaio e reportagem para documentar os horrores ocorridos na ilha Dawson, um pedaço de terra no meio do estreito de Magalhães. O que torna esse lugar singular não é um único crime, mas dois: no final do século 19, o Estado chileno transformou a ilha numa prisão para indígenas selk'nam e kawésqar. Décadas depois, durante os anos 1970, o regime de Augusto Pinochet a converteu novamente em campo de concentração, desta vez para encarcerar membros do governo de Salvador Allende, derrubado por golpistas militares.
Para Godoy, a história da ilha Dawson não é meramente chilena. Ela pertence a um padrão de violência que atravessa toda a América Latina, um trauma colonial que se perpetua como ferida aberta. "O trauma colonial é um trauma que se espalha no continente inteiro. É um trauma que a gente repete muito como uma ferida que não cessa", disse ele durante o encontro, mediado pela jornalista e escritora Francesca Angiolillo. Quando fala sobre o Chile, Godoy insiste, está falando sobre si mesmo, sobre todos nós que compartilhamos esse passado de dominação.
Um dos personagens centrais do livro é Miguel Lawner, arquiteto e militante comunista que foi preso na ilha. Após sua libertação, Lawner fez algo notável: reformou um centro de tortura chileno, transformando-o num espaço de memória sobre as violências da ditadura. Mas o que Godoy considera mais revelador foi a decisão de preservar uma escada específica — aquela pela qual os detentos eram conduzidos aos porões. Os degraus tinham padrões irregulares e a escada era vedada, de modo que a maioria dos prisioneiros caía durante a descida. "O primeiro momento de tortura era na chegada", explicou Godoy. "A partir do momento que você descia aqueles degraus, você começava a entrar num outro regime, num regime que o próprio Estado, no qual você faz parte, vai te tratar de uma forma totalmente diferente de como ele te trataria normalmente." A arquitetura, nesse caso, era o instrumento — o próprio desenho do espaço era uma arma.
Se Godoy trouxe o lado sombrio dessa conversa, Benítez ofereceu o contraponto. Laureado com o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza em 2016, o paraguaio é uma das vozes mais influentes de seu campo — tanto que foi escolhido para projetar a sede brasileira do museu Centro Pompidou em Foz do Iguaçu. Para Benítez, a arquitetura é fundamentalmente um instrumento de melhoria. Os seres humanos, argumenta, buscam viver vidas extraordinárias apesar de saberem que são finitos, e a arquitetura é uma forma de amparar tudo aquilo que é bom para nós. Ele invocou a cosmogonia guarani para ilustrar esse impulso ancestral: os indígenas andavam pelo território buscando uma terra sem mal — uma aspiração que, para Benítez, continua viva em qualquer projeto que dignifique a existência.
O debate, portanto, não resolveu uma contradição. Deixou-a exposta. A mesma disciplina que desenha escadas para fazer homens caírem pode também imaginar espaços de liberdade e bem-estar. O que muda é a intenção, o poder que a wield, e a memória que se escolhe preservar.
Citações Notáveis
O trauma colonial é um trauma que se espalha no continente inteiro. É um trauma que a gente repete muito como uma ferida que não cessa.— José Godoy
Tudo que nós tentamos fazer é viver uma vida extraordinária, conscientes da finitude de nossa existência. Nós tentamos amparar tudo aquilo que seja bom para nós.— Solano Benítez