Gestores preferem petróleo e veem maior risco em minério de ferro após queda de commodities

O mercado vive um dilema ao olhar para a inflação e tentar entender a força da recessão
Rodrigo Jolig explica o impasse que move as decisões de investimento em commodities neste momento.
Mark

Por que os gestores estão tão divididos? Petróleo sobe, minério cai — qual é a lógica?

Mimi

A diferença está na demanda. Petróleo é consumo diário, essencial. Mesmo em recessão, as pessoas precisam se mover. Minério de ferro e aço dependem de construção civil na China, que está desabando.

Luke

Mas espera — a Petrobras teve queda de 5,1% na produção. Como isso é positivo?

Mimi

Porque o preço subiu mais do que a produção caiu. E os dividendos compensam. Mas Luke tem razão em questionar.

Mark

E a China? Ela não vai se recuperar?

Mimi

Talvez, mas ninguém sabe quando. As vendas de imóveis caíram 31,8%. Isso é estrutural, não passageiro.

Luke

Então por que o Bradesco ainda recomenda compra de Vale?

Mimi

Eles apostam em recuperação na segunda metade do ano. Mas reconhecem que o caminho não será linear — ou seja, eles também não têm certeza.

Mark

E se o governo chinês continuar bloqueando cidades por Covid?

Mimi

Aí piora tudo. Fábricas param, consumo cai mais.

Luke

Ninguém está dizendo que a China vai crescer 5,5% como planejado. Estão dizendo menos de 4%. Isso é uma revisão gigante.

Mimi

Exatamente. E é por isso que os gestores estão cautelosos. A incerteza é o maior risco agora.

  • O Brent despencou de US$ 139 para US$ 104, tingindo carteiras de vermelho e forçando gestores a repensar posições em matérias-primas.
  • A grande incerteza é quanto de recessão o Federal Reserve precisará impor para controlar a inflação — e essa dúvida está reprecificando todas as commodities para baixo.
  • Petróleo e agrícolas resistem melhor: gestores compram Petrobras e ações ligadas ao açúcar, apostando em demanda estável e valuations historicamente baratos.
  • Minério de ferro e aço vivem cenário oposto — a China cresce abaixo de 4%, vendas de imóveis caíram 31,8% no primeiro semestre e a política de Covid zero paralisa fábricas.
  • O mercado permanece em compasso de espera, com volatilidade elevada e sem consenso sobre quando o ajuste de preços das commodities chegará ao fim.

Em meio à turbulência provocada pela guerra na Ucrânia e pela incerteza sobre o ritmo de aperto monetário nos Estados Unidos, gestores de investimento buscam distinguir quais matérias-primas ainda guardam valor e quais carregam riscos crescentes. O petróleo e os agrícolas surgem como refúgio relativo, ancorados em demanda cotidiana resistente à desaceleração, enquanto o minério de ferro e o aço enfrentam a sombra da China em crise — com seu mercado imobiliário em colapso e o crescimento revisado para baixo. A escolha entre commodities revela, no fundo, uma aposta sobre o futuro da economia global e sobre até onde a recessão será necessária para domar a inflação.

O petróleo Brent chegou a ultrapassar US$ 139 no auge da crise russo-ucraniana, mas recuou para cerca de US$ 104, assustando investidores com posições em empresas de matérias-primas. Ainda assim, gestores ouvidos pelo mercado advertem que a correção pode não ter terminado — e que o verdadeiro dilema é outro: quanto de recessão o Federal Reserve precisará provocar para domar a inflação americana. Enquanto essa resposta não chega, as commodities, historicamente usadas como proteção contra a inflação, ficam à deriva.

Nem todas as matérias-primas, porém, estão igualmente expostas. Energéticos e agrícolas — petróleo, gás, açúcar — têm demanda mais estável e resistem melhor a cenários de desaceleração. Edoardo Biancheri, da Garde Asset, comprou ações ligadas ao açúcar, como a Raízen, argumentando que elas oferecem correlação com o petróleo sem a volatilidade extrema da commodity. Christian Faricelli, da Absolute Investimentos, mantém a maior posição do fundo em Petrobras, destacando a resiliência do consumo de petróleo e o valuation atrativo da empresa — que negocia a cerca de três vezes o preço sobre lucro. Apesar de polêmicas sobre reajustes de combustível, a companhia manteve governança e distribuiu dividendos expressivos. Empresas menores, como 3R Petroleum e PetroReconcavo, também atraem atenção pelo potencial de crescimento.

O quadro muda radicalmente no minério de ferro e no aço. A China, que responde por grande parte da demanda global dessas commodities, enfrenta uma crise imobiliária severa: as vendas de imóveis recuaram 31,8% no primeiro semestre de 2022, e o crescimento do PIB deve ficar abaixo de 4% — bem aquém da meta oficial de 5,5%. A política de Covid zero agrava o cenário, com bloqueios que paralisam fábricas e reduzem o consumo. A Vale, além de estar exposta a essa demanda fraca, revisou para baixo sua projeção de produção de minério para 2022. Gestores como Welliam Wang, da AZ Quest, evitam os papéis da companhia. No aço, há uma leve esperança de que restrições à produção chinesa possam sustentar preços, mas o consenso é de cautela — os incentivos do governo de Pequim devem favorecer infraestrutura, não construção civil, o que limita o impulso para ambos os setores. A volatilidade, conclui o mercado, deve persistir nos próximos meses.

O petróleo Brent disparou para além de US$ 139 no auge da crise entre Rússia e Ucrânia, mas desde então caiu para perto de US$ 104. A queda assustou investidores com posições em empresas de matérias-primas, tingindo de vermelho carteiras inteiras. Mas segundo gestores ouvidos por especialistas do mercado, a história não termina aí — e tampouco a correção chegou ao fim.

O dilema que move o mercado agora é mais profundo. Os investidores tentam decifrar quanto de recessão o Federal Reserve precisará provocar para dominar a inflação americana. Essa incerteza está reescrevendo as regras das commodities, que historicamente funcionavam como proteção contra a alta de preços. Rodrigo Jolig, diretor de investimentos da Alphatree, aconselha paciência: quem quer aumentar posições deve esperar, porque o ajuste de preços ainda não terminou. O mercado está reprecificando o crescimento global para baixo, e quando isso acontece, as matérias-primas sofrem porque a demanda cai.

Mas nem todas as commodities estão no mesmo barco. Especialistas veem perspectivas mais positivas para energéticos e agrícolas — petróleo, gás, açúcar — porque estão ligados a consumo mais diário e com demanda relativamente estável, mesmo em cenários de desaceleração. Edoardo Biancheri, gestor de renda variável da Garde Asset, comprou ações recentemente, focando em empresas ligadas ao açúcar como a Raízen. O argumento é que essas ações têm correlação com o petróleo mas sem a volatilidade extrema da commodity, além de oferecerem qualidade operacional e credenciais ambientais e de governança.

O petróleo segue no radar dos gestores. Christian Faricelli, sócio da Absolute Investimentos, explica que o consumo de petróleo é resiliente — a demanda cai pouco mesmo em desacelerações severas. Sua casa tem a maior posição do fundo Long Biased em Petrobras. A companhia enfrentou polêmicas recentes sobre reajustes de combustível, mas Faricelli vê isso como ruído passageiro. O que importa é que a empresa reajustou preços quando necessário e manteve a governança como prioridade, resistindo a pressões políticas. Na última quinta-feira, a Petrobras reportou produção de 2,65 milhões de barris de óleo equivalente por dia no segundo trimestre de 2022 — um recuo de 5,1% em relação ao mesmo período de 2021. Analistas do Bradesco BBI projetam um Ebitda de R$ 85 bilhões para o primeiro trimestre deste ano, melhora sólida ante os R$ 78 bilhões do trimestre anterior. O fluxo de caixa para acionistas pode chegar entre US$ 8,5 bilhões e US$ 11 bilhões em 2022, com muitos dividendos distribuídos. Welliam Wang, chefe de renda variável da AZ Quest, reconhece que o risco aumentou com a possibilidade de troca de governo, mas mantém posição porque as ações negociam a cerca de três vezes o preço sobre lucro — muito barato. Empresas menores do setor, como 3R Petroleum e PetroReconcavo, também atraem atenção por preço atrativo e potencial de crescimento, especialmente se o petróleo permanecer elevado por mais tempo.

O cenário muda radicalmente quando se fala de minério de ferro e aço. Esses setores estão intimamente ligados à demanda chinesa, e a China está em apuros. A meta oficial de crescimento do PIB chinês era 5,5% no início do ano, mas após sucessivas revisões, a maioria das casas agora espera crescimento abaixo de 4% em 2022. Quase um quarto do PIB chinês vem da construção civil, e essa demanda está fraca. Dados do Departamento Nacional de Estatísticas chinês mostram que as vendas de imóveis recuaram 31,8% no primeiro semestre de 2022 comparado ao mesmo período do ano anterior. A política de Covid-19 zero agrava o quadro — bloqueios temporários em várias cidades afetam fábricas e reduzem consumo. Wang está cauteloso com empresas posicionadas na China, como Vale, e não tem alocação em seus papéis. Além da desaceleração global, a Vale revisou para baixo sua projeção de produção de minério para 2022, anunciando que a produção deve ficar entre 310 e 320 milhões de toneladas, contra projeções anteriores de 320 a 335 milhões. Isso sinaliza desafios operacionais. Analistas do Bradesco BBI mantêm recomendação de compra, apostando em melhora da demanda na segunda metade do ano, mas reconhecem que o caminho não será linear.

No aço, a visão é ligeiramente menos pessimista. O governo chinês está liberando aumento de produção porque está preocupado com dados de atividade, mas Wang espera que maiores restrições voltem nos próximos meses, reduzindo oferta e aumentando preço. Christian Faricelli prefere ser cauteloso com ambos os setores. Para ele, os incentivos do governo chinês devem ir mais para infraestrutura do que para construção civil, o que significaria impacto ainda mais negativo para minério de ferro e aço. O mercado segue em dilema, e a volatilidade promete continuar nos próximos meses.

O fim da correção nos preços ainda não chegou e o investidor deve ter calma para aumentar as posições
— Rodrigo Jolig, CIO da Alphatree
Estamos vendo uma reprecificação de crescimento global. Quando há uma revisão de crescimento para baixo, é natural que as commodities sejam mais impactadas
— Edoardo Biancheri, gestor de renda variável da Garde Asset
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