Gana lidera movimento global por reparações da escravidão aos EUA e Europa

Entre 10% e 15% dos aproximadamente 12 milhões de africanos forçadamente removidos de suas casas originaram-se do que é hoje Gana, com impactos sociais e econômicos persistentes até hoje.
Remover o curativo e olhar para a ferida aberta que está ali
Reflexão sobre o que verdadeira justiça restaurativa deveria significar além de transações financeiras.
Mark

Por que Gana, especificamente, tornou-se a voz mais forte neste momento?

Mimi

Porque Gana carrega o peso da história de forma visceral. Entre 10% e 15% dos 12 milhões de africanos escravizados vieram de lá. Mas também porque Gana conquistou a independência primeiro na África subsaariana e provou que era possível vencer o poder imperial. Há uma credibilidade moral nisso.

Mark

A Igreja Anglicana criou um fundo de US$ 135 milhões. Isso não resolve o problema?

Mimi

Resolve muito pouco. Esse fundo é uma gota num oceano de danos. E há algo mais profundo: a Igreja lucrou enormemente com o tráfico. Seus missionários possuíam plantações com centenas de escravizados. Um fundo de impacto social, por maior que seja, não é o mesmo que reconhecer a magnitude do crime e pagar reparações reais.

Mark

Mas alguns africanos também venderam outros africanos. Como Gana responde a isso?

Mimi

Gana reconhece isso — o rei Ga Mantse pediu desculpas publicamente. Mas há uma diferença crucial: os africanos que participaram foram usados pelas potências ocidentais para executar um plano que não foi deles. Quando as estruturas financeiras e legais do comércio foram elaboradas, não havia um único africano à mesa.

Mark

A campanha de turismo para a diáspora parece bem-intencionada. O que deu errado?

Mimi

A intenção era cura e reconexão. Mas virou negócio. A Autoridade de Turismo transformou um movimento sobre reparação em cotas de turismo. Pessoas da diáspora pagam as mesmas taxas que turistas europeus para visitar os castelos onde seus ancestrais foram traficados. É uma oportunidade perdida de lidar com trauma profundo.

Mark

Qual seria a verdadeira reparação, então?

Mimi

Segundo quem trabalha nisso, não é apenas dinheiro. É remover o curativo e olhar para a ferida aberta. É cura. É reconhecimento. É estruturas que financiem educação e pesquisa. É admitir que o trauma está gravado na própria geografia de Gana — em como as pessoas ainda constroem suas casas amontoadas por medo ancestral de serem sequestradas.

Mark

E o Reino Unido? Vai pagar?

Mimi

Não está claro. Rejeitou consistentemente a ideia. As estimativas do que a Grã-Bretanha "deve" chegam a muitos trilhões de libras. É um número que assusta. Mas Gana não está pedindo permissão. Está exigindo responsabilização.

  • ONU aprovou resolução em março reconhecendo escravidão como crime contra humanidade; EUA votou contra, nações europeias se abstiveram
  • Gana realizou cúpula sobre reparações em junho com delegados de cerca de 80 países
  • Entre 10% e 15% dos 12 milhões de africanos escravizados originaram-se do que é hoje Gana
  • Igreja Anglicana criou fundo de US$ 135 milhões para comunidades afetadas pelo tráfico de escravizados
  • Rei Ga Mantse pediu desculpas publicamente pelo envolvimento de seus ancestrais no comércio de escravizados

A ONU aprovou resolução reconhecendo escravidão como crime contra humanidade, mas EUA e nações europeias rejeitaram ou se abstiveram de apoiar. Reino Unido e Portugal, principais potências no tráfico transatlântico, rejeitam reparações; Igreja Anglicana criou fundo de US$ 135 milhões para comunidades afetadas.

Gana tornou-se a principal voz africana exigindo que nações ocidentais que lucraram com a escravidão paguem reparações, apresentando resolução na ONU e realizando cúpula internacional sobre o tema.

Gana transformou-se este ano na voz mais insistente do continente africano na exigência de que o Ocidente pague pelo que lucrou com a escravidão. Não se trata apenas de pedidos de desculpas formais — embora esses também façam parte do movimento. O que Gana está pedindo é perdão de dívidas, compensação financeira e um sistema de justiça restaurativa que financie bolsas de estudo, capital de risco para jovens empreendedores africanos e pesquisas sobre problemas de saúde que alguns acreditam serem consequência direta das condições desumanas do tráfico transatlântico.

Em março, as Nações Unidas aprovaram uma resolução reconhecendo a escravidão como o maior crime contra a humanidade. Mas o voto revelou as fraturas que ainda existem: os Estados Unidos e a Argentina votaram contra; todas as nações europeias se abstiveram. O Reino Unido e Portugal, que dominaram o tráfico transatlântico de escravizados, rejeitam consistentemente a ideia de pagar reparações — uma posição que faz sentido quando se considera que as estimativas do que a Grã-Bretanha "deve" chegam a muitos trilhões de libras esterlinas.

Foi Gana que apresentou a resolução à ONU. Em junho, o país realizou uma cúpula sobre reparações em sua capital, Accra, reunindo delegados de cerca de 80 países que concluíram que a compensação era uma dívida de longa data. Samuel Okuzeto Ablakwa, ministro dos Negócios Estrangeiros ganês, explicou à BBC que Gana sempre foi um líder pan-africano — o primeiro país a conquistar a independência na África subsaariana e a demonstrar que era possível lutar contra o poder imperial e vencer. A União Africana confiou a Gana a responsabilidade especial de ser um país "campeão da justiça restaurativa".

Essa liderança não é acidental. Entre 10% e 15% dos aproximadamente 12 milhões de africanos que foram removidos à força de suas casas, arrancados de suas aldeias e desumanizados numa escala sem precedentes originaram-se do que é hoje Gana. Um número ainda maior foi deportado de suas costas marítimas. "Gana foi palco dessas atrocidades, portanto, Gana não pode se dar ao luxo de permanecer em silêncio quando se trata de garantir que os perpetradores sejam responsabilizados", afirmou Ablakwa.

A Igreja Anglicana tornou-se um foco específico dessa pressão. No século XVIII, o braço missionário da Igreja administrava plantações e possuía centenas de escravizados, financiando seu trabalho nas Américas e em outros continentes. Muitos membros do clero possuíam escravizados de forma independente. Um relatório recente do fundo patrimonial da Igreja revelou que a instituição fez grandes investimentos no tráfico de escravizados, lucrando enormes somas. Em julho, a Arcebispa de Canterbury, Sarah Mullally, visitou Gana em uma de suas primeiras viagens internacionais no cargo. Ela percorreu o Castelo de Cape Corso, uma das muitas fortalezas costeiras onde pessoas escravizadas eram mantidas antes da brutal viagem para as Américas. Ao passar pelas masmorras e pela "porta sem retorno" pela qual eram forçados a passar antes de embarcarem nos navios, Mullally ficou visivelmente comovida. A Igreja criou um fundo de impacto social de US$ 135 milhões para beneficiar comunidades que ainda sofrem as consequências do comércio de escravizados, embora essa decisão tenha encontrado resistência dentro da própria instituição.

Mas o debate é mais complexo do que parece. Um dos principais contra-argumentos centra-se no fato de que alguns africanos foram cúmplices na captura e venda de seus compatriotas. Ablakwa rejeita categoricamente essa versão, chamando-a de "estratégia de dividir para conquistar". Ele enfatiza que toda a estrutura da escravidão foi concebida pelas potências ocidentais, que simplesmente usaram os habitantes locais para executar seus planos. Quando as leis, as apólices de seguro e as estruturas financeiras do comércio foram elaboradas, "não havia um único africano à mesa de negociações", argumenta.

Contudo, mesmo em Gana, o debate é muito mais nuançado. O rei Tackie Teiko Tsuru II, líder Ga Mantse do povo de Ga, recentemente deu um passo importante ao pedir desculpas publicamente pelo envolvimento de seus ancestrais no comércio de escravizados. O povo Ga tornou-se intermediário na negociação com os europeus, vendendo ouro, marfim e, por fim, africanos escravizados — muitas vezes capturados em conflitos locais — em troca de produtos manufaturados. Mas o rei sentiu a necessidade de se desculpar não apenas pela cumplicidade de seu próprio povo, como também pela de outros africanos. Para ele, admitir a culpa não diminui a responsabilidade dos impérios europeus. Pelo contrário, fortalece a posição moral da África e estabelece um precedente para o futuro.

Gana também lançou uma campanha convidando a diáspora africana, em especial os afro-americanos, a visitar o continente — uma iniciativa promovida como forma de unir as pessoas através da história compartilhada de seu passado traumático. Mas Yaw Asare, um doutorando ganês que trabalhou no Gabinete da Presidência da Diáspora de Gana, questiona se a campanha perdeu seu caminho. Inicialmente, o encontro de pessoas negras de todo o mundo foi "uma experiência bela e profunda, desprovida de motivações capitalistas", segundo ele. Mas a Autoridade de Turismo de Gana aderiu à iniciativa, mudando seu foco da "reparação" para uma abordagem mais voltada ao cumprimento de cotas de turismo. Asare acredita que a campanha muitas vezes encarou o retorno da diáspora simplesmente como um meio de obter dinheiro do exterior, elevando os preços e impactando negativamente as economias locais. Para ele, a verdadeira justiça restaurativa deve priorizar a conexão humana e a cura em vez de transações financeiras — remover o curativo e olhar para a ferida aberta que está ali.

Gana foi palco dessas atrocidades, portanto, Gana não pode se dar ao luxo de permanecer em silêncio quando se trata de garantir que os perpetradores sejam responsabilizados
— Samuel Okuzeto Ablakwa, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Gana
Acredito que o comércio transatlântico de escravizados foi o maior crime contra a humanidade, e nossos ancestrais também participaram como agentes desse comércio
— Rei Tackie Teiko Tsuru II, líder Ga Mantse
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