Homem em situação de rua sofreu queimaduras graves após ser atacado com coquetéis molotov enquanto dormia, em crime transmitido ao vivo pela internet. Investigação apontou que o ataque fazia parte de desafio em grupo de internet que fomentava crimes de ódio e apologia ao nazismo.
Réu ofereceu R$ 2,5 mil para executar ataque com fogo contra morador de rua
Acordei em chamas. Não tinha ninguém na rua.
Por que esse crime específico gerou tanta repercussão? Parece haver muitos crimes graves no Rio.
A transmissão ao vivo foi decisiva. Não foi um crime cometido nas sombras — foi exibido em tempo real pela internet, para um grupo que celebrava violência. Isso mudou a escala do dano.
Mas precisamos ser claros: sabemos que Gabriel ofereceu o dinheiro porque o MPRJ afirma isso na denúncia. Não sabemos ainda se ele será condenado. A investigação inicial apontava R$ 2 mil oferecidos por alguém não identificado — depois identificaram Gabriel. Isso é importante porque mostra como a investigação evoluiu.
E o adolescente? Ele será julgado como adulto?
Não. Ele foi apreendido e responde por ato infracional, não por crime. Mas as acusações são graves — tentativa de homicídio triplamente qualificado e também armazenamento de imagens de abuso sexual infantil encontradas no celular dele.
Isso é um detalhe que merece atenção. O crime de incêndio é o que chamou atenção pública, mas a investigação descobriu outras coisas no dispositivo dele. Não sabemos ainda como isso vai impactar o julgamento.
Ludierley sobreviveu. Como ele está agora?
Sobreviveu, mas com sequelas graves. Queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo. Passou por procedimentos muito dolorosos de limpeza e remoção de tecido queimado. Quando falou com a imprensa, ainda estava internado e em recuperação.
O que não sabemos é como ele está hoje. A reportagem é de 2025, quando ele estava no hospital. Não temos informações sobre sua recuperação completa, se conseguiu voltar a trabalhar como pretendia, se ainda está vivo. Isso é uma lacuna importante.
O que a Justiça temia ao manter os acusados presos?
Que a soltura gerasse sensação de impunidade e inspirasse novos ataques. A juíza escreveu explicitamente sobre o risco de que outras pessoas em situação de rua fossem atacadas da mesma forma, transmitido ao vivo nas redes.
Isso é uma preocupação legítima, mas também é especulativa. A decisão se baseia em um cenário possível, não em evidência de que novos ataques estavam sendo planejados. É importante distinguir entre o que é fato confirmado e o que é risco antecipado.
The Pulse
- Ludierley Satyro José, 46 anos, atacado com coquetéis molotov em fevereiro de 2025 em Jacarepaguá
- Gabriel Utrini da Veiga Carvalho Silva ofereceu R$ 2,5 mil para executar o crime
- Ataque transmitido ao vivo pelo Discord; vítima sofreu queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo
- Crime fazia parte de desafio em grupo de internet que fomentava crimes de ódio e apologia ao nazismo
Homem em situação de rua sofreu queimaduras graves após ser atacado com coquetéis molotov enquanto dormia, em crime transmitido ao vivo pela internet. Investigação apontou que o ataque fazia parte de desafio em grupo de internet que fomentava crimes de ódio e apologia ao nazismo.
Gabriel Utrini da Veiga Carvalho Silva ofereceu R$ 2,5 mil para que dois indivíduos incendiassem Ludierley Satyro José enquanto dormia em Jacarepaguá. O ataque foi transmitido ao vivo pelo Discord e deixou a vítima com queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo.
Na madrugada de fevereiro de 2025, Ludierley Satyro José acordou em chamas. Dormia em uma calçada em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio, quando ouviu um barulho e sentiu o corpo queimando. Coquetéis molotov foram lançados contra ele enquanto dormia — um ataque que seria transmitido ao vivo pelo Discord para uma audiência invisível na internet. Ludierley, então com 46 anos, sofreu queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo. Correu pela rua tentando apagar as chamas, tirando a roupa para se livrar do fogo. Não havia ninguém para ajudar.
O crime não foi espontâneo. Segundo denúncia do Ministério Público do Rio, Gabriel Utrini da Veiga Carvalho Silva planejou o ataque e ofereceu R$ 2,5 mil para que Miguel Felipe dos Santos Guimarães da Silva e um adolescente de 17 anos o executassem. Miguel aparece nas imagens filmando a ação enquanto o adolescente, vestido de preto, acende os artefatos incendiários e os lança contra a vítima. Depois fogem. Ludierley corre pela rua em chamas.
A investigação policial revelou que o ataque fazia parte de um desafio em um grupo de internet onde eram fomentados crimes de ódio e conteúdos de apologia ao nazismo. Os envolvidos buscavam se vangloriar diante dos demais participantes. Horas depois do crime, as imagens começaram a circular. Familiares do adolescente o reconheceram nas imagens e procuraram a polícia. O Discord, plataforma onde a transmissão ocorreu, afirmou ter política de tolerância zero para discurso de ódio e violência — as contas foram banidas, o servidor encerrado, o caso comunicado às autoridades.
Ludierley foi internado no Hospital do Andaraí com dificuldades para falar, respirar e se movimentar. Durante o tratamento, passou diariamente por balneoterapia, procedimento em que é sedado para que os ferimentos sejam limpos e o tecido queimado seja retirado. "Eu não desejo isso nem para o meu pior inimigo. É muita dor", disse ao G1 na época. Mineiro de Juiz de Fora, havia se mudado para o Rio mais de dez anos antes. Trabalhou como auxiliar de serviços gerais, mas enfrentou problemas com drogas e passou a viver nas ruas. Durante uma tentativa de recuperação, conheceu a mulher com quem se casou e teve um filho. Depois voltou a usar drogas e retornou às ruas.
A Justiça manteve a prisão preventiva de Gabriel e Miguel. A juíza Lucia Mothe Glioche destacou a extrema gravidade do caso e a repercussão provocada pela transmissão pela internet. "A transmissão, em tempo real, do crime fez com que ele chegasse ao conhecimento de muitos", escreveu. A decisão também considerou que a soltura poderia gerar sensação de impunidade e estimular ataques semelhantes contra pessoas em situação de rua e vulnerabilidade.
Gabriel e Miguel serão julgados por tentativa de homicídio qualificado por promessa de recompensa, motivo fútil, emprego de fogo e recurso que dificultou a defesa da vítima, além de associação criminosa e corrupção de menor. O adolescente foi apreendido e responde por ato infracional análogo à tentativa de homicídio triplamente qualificado e por armazenamento de imagens de abuso sexual infantil encontradas em seu celular.
No hospital, Ludierley disse ao G1 que pretendia reconstruir a vida. "Quero ter uma vida digna, largar essa maldita droga que só come dinheiro. Quero voltar a trabalhar", afirmou. Quando questionado sobre o que pensava dos responsáveis pelo ataque, respondeu com uma reflexão sobre consequências: "A vida nos ensina muita coisa. O que se planta, se colhe. É o círculo da vida. Se planta o bem, colhe o bem. Se planta o mal, colhe o mal."
Notable Quotes
Eu não desejo isso nem para o meu pior inimigo. É muita dor.— Ludierley Satyro José, durante tratamento no hospital
A transmissão, em tempo real, do crime fez com que ele chegasse ao conhecimento de muitos.— Juíza Lucia Mothe Glioche, na decisão de manutenção da prisão preventiva