Por trás das câmeras de um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, o Intercept Brasil revela uma teia financeira que conecta o senador Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro — preso dias depois de trocar mensagens de urgência com o parlamentar. A negociação de 24 milhões de dólares para a produção 'Dark Horse', com ao menos R$ 61 milhões já transferidos, levanta questões que transcendem o cinema: quando o poder político e o capital financeiro se entrelaçam em estruturas opacas, a fronteira entre cultura e esquema torna-se difícil de discernir.
Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 mi com banqueiro para filme sobre Jair, diz Intercept
Tudo isso só está sendo possível por causa de vc
Por que um banqueiro envolvido em fraude estaria financiando um filme sobre Bolsonaro?
Porque o filme não era apenas um filme. Era um ativo político — uma narrativa internacional sobre Jair Bolsonaro, com atores de Hollywood, que circularia globalmente. Para alguém como Vorcaro, conectado à família, era uma forma de investir em influência e legitimidade.
Mas Flávio nega tudo. Como você responde a isso?
As mensagens falam por si. "Tudo isso só está sendo possível por causa de vc" — não é algo que você escreve para alguém com quem não tem acordo. E o áudio sobre o risco de "calote" em atores renomados mostra que Flávio estava gerenciando a produção, cobrando repasses, preocupado com o cronograma.
O que muda o fato de o dinheiro ter vindo de um esquema de fraude?
Muda tudo. Se os R$ 61 milhões que já foram transferidos vieram de operações fraudulentas, então você tem recursos desviados de um fundo de garantia sendo canalizados para um projeto político. Não é apenas um financiamento privado — é possível desvio de recursos públicos.
E por que Flávio não simplesmente admite que conhece Vorcaro?
Porque admitir isso o conecta diretamente a um esquema que deixou um rombo de R$ 47 bilhões. É mais fácil negar do que explicar por que o senador pré-candidato à Presidência estava recebendo dinheiro de um banqueiro fraudador.
O filme saiu? Alguém viu?
Não sabemos ainda. O que sabemos é que em setembro de 2025, Flávio estava cobrando repasses porque a produção corria risco de parar. Vorcaro foi preso em novembro. O filme pode estar congelado, ou pode ter sido concluído com o dinheiro que já havia sido transferido.
Il Polso
- O Intercept Brasil obteve mensagens, áudios e comprovantes bancários que documentam uma negociação de R$ 134 milhões entre Flávio Bolsonaro e o dono do Banco Master para financiar um filme sobre seu pai.
- Pelo menos R$ 61 milhões já foram transferidos em seis operações para um fundo sediado no Texas, conectado a aliados de Eduardo Bolsonaro — enquanto Vorcaro era investigado por um rombo de R$ 47 bilhões no FGC.
- Dias antes da prisão de Vorcaro, Flávio enviou áudios alarmados alertando para o risco de 'calote' em atores internacionais como Jim Caviezel, revelando a fragilidade e a urgência da operação.
- Confrontado pessoalmente pelo Intercept, Flávio negou tudo com um sorriso e deixou o local — repetindo o padrão de negação já adotado diante de perguntas anteriores sobre vínculos com o Banco Master.
- A investigação ameaça ampliar o escopo das apurações sobre fraude no FGC, sugerindo que recursos de esquemas financeiros podem ter sido canalizados para projetos políticos e culturais de alta visibilidade.
Por trás das câmeras de um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, o Intercept Brasil revela uma teia financeira que conecta o senador Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro — preso dias depois de trocar mensagens de urgência com o parlamentar. A negociação de 24 milhões de dólares para a produção 'Dark Horse', com ao menos R$ 61 milhões já transferidos, levanta questões que transcendem o cinema: quando o poder político e o capital financeiro se entrelaçam em estruturas opacas, a fronteira entre cultura e esquema torna-se difícil de discernir.
Em novembro de 2025, enquanto o banqueiro Daniel Vorcaro operava um esquema que deixaria um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, o senador Flávio Bolsonaro lhe enviava mensagens carregadas de urgência. Dez dias depois, Vorcaro seria preso. O que o Intercept Brasil revelou é que por trás dessa troca havia uma negociação de 24 milhões de dólares — cerca de R$ 134 milhões — para a produção de 'Dark Horse', filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
Os registros mostram que pelo menos R$ 61 milhões foram transferidos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025 para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e conectado a aliados de Eduardo Bolsonaro. A estrutura societária do fundo inclui Paulo Calixto, advogado de Eduardo, como agente legal. Além de Flávio e Vorcaro, participaram das tratativas Eduardo Bolsonaro, o deputado Mario Frias, o empresário Thiago Miranda e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Vorcaro.
Em setembro de 2025, com a produção em risco, Flávio enviou um áudio ao banqueiro cobrando repasses pendentes e alertando para o perigo de paralisação. Mencionou o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh. 'Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel... ia ser muito ruim', disse. Um dia antes da prisão de Vorcaro, o senador ainda escreveu: 'Irmão, estou e estarei contigo sempre'.
Quando confrontado pelo Intercept nas proximidades do STF, Flávio negou categoricamente qualquer vínculo. 'De onde você tirou essa informação? É mentira', disse, rindo e deixando o local. Não era a primeira vez: questionado anteriormente sobre doações de aliados de Vorcaro à campanha de seu pai, o senador garantiu que tudo ocorreu 'sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida'. A investigação, no entanto, sugere que a fronteira entre o projeto cultural e as operações financeiras investigadas pode ser muito mais tênue do que as negações permitem admitir.
No início de novembro de 2025, enquanto o banqueiro Daniel Vorcaro operava nos bastidores de um esquema que deixaria um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, o senador Flávio Bolsonaro lhe enviava mensagens carregadas de urgência. "Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc", escreveu em 7 de novembro, anexando um vídeo de visualização única. Dez dias depois, Vorcaro seria preso. O que o Intercept Brasil descobriu através de mensagens, áudios, documentos e comprovantes bancários é que por trás dessa troca de mensagens havia uma negociação de proporções significativas: Flávio havia acertado com Vorcaro um financiamento de 24 milhões de dólares — aproximadamente R$ 134 milhões à época — para a produção de Dark Horse, um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
Os registros indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares, o equivalente a cerca de R$ 61 milhões conforme as cotações dos períodos, foram efetivamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025 em seis operações distintas. O dinheiro seguiu para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e conectado a aliados de Eduardo Bolsonaro. Um comprovante de 14 de fevereiro documenta uma ordem de pagamento internacional de 2 milhões de dólares. As transferências teriam partido da Entre Investimentos e Participações, uma empresa ligada à operação. O fundo, segundo documentos societários, foi registrado no Texas com Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, como agente legal, e o corretor de imóveis Altieris Santana também aparece vinculado à estrutura.
As negociações envolveram mais do que apenas Flávio e Vorcaro. Eduardo Bolsonaro, o deputado federal Mario Frias, o empresário Thiago Miranda e Fabiano Zettel — apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Vorcaro — também participaram das tratativas. Em setembro de 2025, com a produção em risco, Flávio enviou um áudio ao banqueiro cobrando o saldo pendente e alertando para o perigo de paralisação. Mencionou especificamente o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh. "Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim", disse. Em outro trecho do mesmo áudio, completou: "Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo".
A proximidade entre Flávio e Vorcaro fica evidente em uma mensagem enviada em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro. "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", escreveu o senador. No dia seguinte, Vorcaro foi detido acusado de operar o esquema de fraude. Em 18 de novembro, o Banco Central liquidou o Banco Master.
Quando confrontado presencialmente pelo Intercept na quarta-feira, 13 de maio, sobre o financiamento de Vorcaro ao filme, Flávio respondeu com negação categórica. "De onde você tirou essa informação? É mentira", disse, rindo em seguida e deixando o local onde concedia entrevista à imprensa nas proximidades do Supremo Tribunal Federal. Não era a primeira vez que o senador negava vínculos da família com o Banco Master. Quando questionado anteriormente pela CNN sobre uma doação de R$ 3 milhões feita pelo cunhado de Vorcaro à campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio afirmou que a contribuição ocorreu "sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive". Também declarou: "Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita".
O Intercept procurou Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Thiago Miranda, Fabiano Zettel, Paulo Calixto, Altieris Santana, Jim Caviezel, Cyrus Nowrasteh e Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil. Até a publicação da reportagem, a maioria dos citados não respondeu. A investigação levanta questões sobre possíveis vínculos entre a família Bolsonaro e operações financeiras irregulares, com potencial impacto em investigações mais amplas sobre fraude no Fundo Garantidor de Crédito e sobre como recursos de esquemas financeiros podem ter sido canalizados para projetos políticos e culturais de grande visibilidade.
Citazioni salienti
Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!— Flávio Bolsonaro em mensagem a Vorcaro em 16 de novembro de 2025
Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim— Flávio Bolsonaro em áudio a Vorcaro em setembro de 2025