No centenário de seu nascimento, a figura de Fidel Castro é revisitada por um historiador de Harvard que propõe uma leitura incômoda: o homem que o mundo conheceu como símbolo do comunismo caribenho pode ter sido, antes de tudo, um nacionalista liberal empurrado para Moscou pela própria hostilidade de Washington. A história, como tantas vezes, teria sido moldada menos por convicção do que por circunstância — e o legado que restou carrega, até hoje, a ambiguidade de quem resistiu ao império sem conseguir libertar o próprio povo da escassez.
Fidel não era comunista até EUA tentarem esmagar revolução, diz Harvard
Os EUA decidiram que uma Cuba livre estava fora de questão
Por que Hansen insiste tanto que Castro não era comunista no início? Parece uma distinção estranha.
Porque muda tudo sobre como entendemos aquele momento. Se Castro era comunista desde o começo, a história é sobre ideologia. Se virou comunista por necessidade, é sobre sobrevivência política.
Mas ele acabou sendo comunista de qualquer forma. Qual é a diferença prática?
A diferença é que ele tentou negociar com os americanos primeiro. Propôs um Plano Marshall. Queria integração econômica, não confronto. Os americanos disseram não.
Então Hansen está dizendo que os EUA criaram o inimigo que depois combateu?
Exatamente. Castro não tinha uma plataforma política forte o suficiente para resistir sozinho. Quando os americanos atacaram, ele precisava de alguém. A União Soviética era a única opção.
E isso o torna menos culpado pelos problemas econômicos que vieram depois?
Não. Hansen é claro: Castro fracassou em alimentar seu povo. Mas talvez explique por que ele fez as escolhas que fez. Não era inevitável. Foi uma série de decisões, cada uma respondendo à anterior.
El Pulso
- A tese de Jonathan Hansen desafia décadas de narrativa consolidada: Castro não chegou ao poder como comunista, mas como um nacionalista anti-imperialista que propôs um Plano Marshall para a América Latina em 1959.
- A tensão central está no que os Estados Unidos fizeram com essa abertura — ao recusarem qualquer Cuba soberana e independente, forçaram Castro a buscar abrigo na única potência capaz de resistir ao embargo: a União Soviética.
- A Crise dos Mísseis emerge como o ponto de ruptura definitivo, quando a lógica da Guerra Fria consumiu qualquer possibilidade de uma trajetória ideológica alternativa para a revolução cubana.
- O historiador recusa classificações simples: Castro foi simultaneamente o revolucionário corajoso que desafiou o imperialismo e o líder que falhou em construir uma economia capaz de alimentar seu próprio povo.
- O debate sobre seu legado permanece vivo e irresolvível — dependendo da pergunta que se faz, emergem dois Castros distintos, cada um real, cada um incompleto sem o outro.
No centenário de seu nascimento, a figura de Fidel Castro é revisitada por um historiador de Harvard que propõe uma leitura incômoda: o homem que o mundo conheceu como símbolo do comunismo caribenho pode ter sido, antes de tudo, um nacionalista liberal empurrado para Moscou pela própria hostilidade de Washington. A história, como tantas vezes, teria sido moldada menos por convicção do que por circunstância — e o legado que restou carrega, até hoje, a ambiguidade de quem resistiu ao império sem conseguir libertar o próprio povo da escassez.
No centenário de seu nascimento, Jonathan Hansen, professor do centro de estudos latino-americanos de Harvard, dedica-se a desfazer equívocos sobre Fidel Castro. O menor deles é que Castro era bom jogador de beisebol — na verdade, preferia basquete. O maior, e mais consequente, é que ele era comunista quando tomou o poder em 1959. Hansen argumenta que não: Castro era um nacionalista liberal.
Seu livro "Young Castro", publicado em 2020 e baseado em mais de cem cartas do revolucionário, traça a formação política de um homem nascido em família abastada, cercado por plantações de açúcar controladas por americanos. A luta inicial de Castro não era contra o capitalismo, mas contra o imperialismo que sufocava a soberania cubana. Em 1959, ele viajou a Buenos Aires e propôs, numa conferência da OEA, um Plano Marshall de 36 bilhões de dólares para a América Latina — não como ideólogo marxista, mas como desenvolvimentista que pedia empréstimos para construir mercados.
A transformação ideológica veio por necessidade, não por convicção. Quando os Estados Unidos decidiram que uma Cuba independente era inaceitável e apoiaram a invasão da Baía dos Porcos, Castro não tinha estrutura política para resistir — exceto os comunistas, o único grupo organizado na ilha. A União Soviética tornou-se a única potência capaz de fazer frente a Washington. A história se moveu por lógica estratégica, e o mundo ganhou o Castro que conheceu.
Dez anos após sua morte, Hansen ainda hesita entre os rótulos de revolucionário e ditador. Provavelmente ambos, conclui. Castro tem muito a ensinar sobre coragem diante do imperialismo, e muito pouco a oferecer sobre desenvolvimento econômico. Seu legado permanece dividido entre essas duas imagens — e a distância entre elas, irreconciliável.
Nesta quinta-feira, quando Fidel Castro completaria 100 anos de nascimento, Jonathan Hansen, professor do centro de estudos latino-americanos de Harvard, segue dedicado a desfazer dois equívocos sobre o líder cubano. O primeiro é menor: Castro não era bom jogador de beisebol, como muitos imaginam da paixão nacional cubana. Ele preferia basquete. O segundo exige mais nuance e ocupa boa parte da carreira de Hansen. Castro, argumenta o historiador, não era comunista quando assumiu o poder em 1959. Era um nacionalista liberal.
Hansen passou anos pesquisando a formação política do homem que derrubou Fulgencio Batista. Seu livro, "Young Castro: The Making of a Revolutionary", publicado em 2020 pela Simon & Schuster, repousa sobre mais de cem cartas do revolucionário que o pesquisador desenterrou. O título brinca com um detalhe: Hansen parou de estudar o jovem Castro porque seus discursos duravam apenas duas horas naquela época. O Castro mais velho, aquele que falaria por quatro horas e 29 minutos na Assembleia-Geral da ONU em 1960, é outro personagem. Mas o ponto central de Hansen é que o ideólogo inflamado que conhecemos não era quem Castro era no início.
O revolucionário nasceu em família abastada, cercado por enormes plantações de açúcar controladas pelos americanos. Seus pais haviam sido camponeses, o que talvez explique por que, apesar da riqueza, Castro nunca viu a prosperidade como garantida. Cresceu em um ambiente onde os americanos eram bem-vindos, onde a dependência de Washington era estrutural. Sua luta inicial não era contra o capitalismo em si, mas contra o imperialismo que sufocava Cuba. Era uma questão de soberania e autodeterminação, não de ideologia comunista.
A transformação veio depois, e Hansen aponta para um momento específico: a Crise dos Mísseis. Um ano após exilados cubanos apoiados pelos Estados Unidos tentarem invadir a Baía dos Porcos para derrubar seu governo, Castro aceitou que a União Soviética instalasse mísseis nucleares na ilha. Moscou via isso como resposta à expansão das capacidades nucleares americanas na Turquia. O mundo inteiro ficou à beira de uma guerra nuclear. Mas antes disso, em 1959, Castro havia viajado a Buenos Aires para uma conferência da Organização dos Estados Americanos. Ali, o "grande comunista" propôs algo surpreendente: um Plano Marshall para a América Latina, no valor de 36 bilhões de dólares. Não era um presente. Era um empréstimo que ele pedia aos Estados Unidos e aos ministros da Economia para construir mercados, promover desenvolvimento econômico em Cuba, na América Latina, nos EUA e no Canadá.
Esse tipo de iniciativa desapareceu engolida pela Guerra Fria e, em seguida, pelo embargo americano. Hansen é claro: os Estados Unidos decidiram que uma Cuba livre, independente e autodeterminada estava fora de questão em 1959. Quando os americanos atacaram, Castro não tinha uma plataforma política capaz de resistir. Tinha apenas uma: os comunistas, o único grupo em Cuba que era bem organizado e podia reagir. A União Soviética era a única potência capaz de fazer frente aos americanos. A história se moveu por necessidade estratégica, não por convicção ideológica prévia.
Dez anos após a morte de Castro e cem após seu nascimento, Hansen ainda hesita em classificá-lo como revolucionário ou ditador. Provavelmente ambos, diz. Quando o imperialismo americano avançava, as pessoas lembravam da coragem e da capacidade de Castro de enfrentar os Estados Unidos. Quando a conversa muda para problemas econômicos, surge um Castro diferente: aquele que não conseguiu alimentar seu próprio povo. Se a discussão é sobre desenvolvimento econômico na América Latina, Castro tem poucas respostas. Se for sobre a coragem de enfrentar o imperialismo, tem muito a ensinar. Seu legado permanece dividido entre essas duas imagens, irreconciliáveis.
Citas Notables
Fidel não era comunista até os Estados Unidos esmagarem a revolução— Jonathan Hansen, professor de Harvard
Se a conversa é sobre desenvolvimento econômico na América Latina, Fidel não tem muitas respostas. Se for sobre a coragem de enfrentar o imperialismo, tem muito a nos ensinar— Jonathan Hansen