Fact-check: as principais declarações de Otávio Fakhoury na CPI da Covid

Ele negou a relação quando há fotos, viagens e encontros documentados
Fakhoury afirmou não ter contato com Bolsonaro, mas registros mostram múltiplos encontros desde 2015.
Mark

Por que é importante verificar essas declarações específicas de Fakhoury?

Mimi

Porque ele estava prestando depoimento em uma comissão parlamentar de inquérito sobre a pandemia. Quando alguém nessa posição faz afirmações sobre vacinas ou máscaras, essas palavras têm peso. Se as pessoas acreditam que vacinas são experimentais ou que máscaras não funcionam, elas podem tomar decisões de saúde baseadas em informação falsa.

Mark

Mas Fakhoury não é cientista. Por que suas palavras sobre vacinas importariam tanto?

Mimi

Exatamente. Ele não é cientista, mas tem acesso a plataformas e influência. A CPI é transmitida, é pública. Quando alguém com visibilidade faz afirmações que contradizem o que agências regulatórias como a Anvisa e o FDA dizem, isso cria confusão.

Mark

E quanto ao email de Fauci sobre máscaras? Ele realmente disse aquilo?

Mimi

Disse, mas em fevereiro de 2020. O problema é que Fakhoury usou uma declaração de um momento específico da pandemia como se fosse verdade universal. Fauci mesmo admitiu depois que mudou de ideia conforme aprendemos mais sobre o vírus. Usar uma frase antiga para desacreditar máscaras agora é desonesto.

Mark

A parte sobre Bolsonaro parece mais pessoal. Por que isso importa para uma CPI da Covid?

Mimi

Porque levanta questões sobre credibilidade e conflito de interesse. Se Fakhoury tem uma relação próxima com o presidente e está trabalhando para filiá-lo ao seu partido, suas motivações ao depor podem não ser as mais puras. E se ele nega essa relação quando há evidência clara dela, por que acreditar no resto do que diz?

Mark

Então basicamente ele mentiu sobre coisas que podem ser verificadas.

Mimi

Sim. Sobre vacinas, sobre máscaras, sobre sua relação com Bolsonaro. Mas foi honesto sobre não ser réu em processos criminais. O padrão é preocupante.

  • Fakhoury afirmou perante senadores que as vacinas em uso no Brasil ainda são experimentais — uma alegação diretamente contradita pela Anvisa e pelo FDA, que aprovaram todos os imunizantes após a conclusão da fase 3.
  • O empresário usou um email privado de Anthony Fauci para sustentar que máscaras são ineficazes, ignorando que o próprio Fauci revisou sua posição à medida que a ciência evoluiu e que estudos posteriores confirmaram a proteção oferecida pelo uso de máscaras.
  • Ao negar qualquer relação pessoal com Bolsonaro, Fakhoury contradisse registros públicos que documentam encontros desde 2015, viagens conjuntas, um almoço organizado em sua própria casa e seu papel ativo na tentativa de filiar o clã Bolsonaro ao PTB.
  • A única declaração verificada como verdadeira foi a de que não é réu em processos criminais — embora Fakhoury seja investigado tanto no inquérito das Fake News no STF quanto em apuração da Polícia Federal sobre atos antidemocráticos.

Diante da CPI da Covid, o empresário Otávio Fakhoury apresentou ao país uma versão dos fatos sobre vacinas, máscaras e seus laços com o poder — versão que, submetida ao crivo da evidência, revela mais sobre a natureza da desinformação em tempos de crise do que sobre a realidade científica ou política. A verificação independente de suas declarações expõe não apenas imprecisões factuais, mas o padrão mais amplo pelo qual afirmações descontextualizadas circulam como verdade em espaços de grande visibilidade pública.

Otávio Fakhoury prestou depoimento à CPI da Covid em 30 de setembro, fazendo uma série de afirmações sobre vacinas, máscaras e sua relação com o presidente Jair Bolsonaro. A verificação dessas declarações revelou que a maioria não resiste ao confronto com os fatos.

Sobre as vacinas, Fakhoury sustentou que os imunizantes aplicados no Brasil ainda estão em fase experimental. A afirmação é falsa: a Anvisa confirmou que todos os dados de eficácia e segurança foram avaliados e aprovados, e nenhuma vacina foi dispensada de apresentar resultados da fase 3. A farmacêutica e pesquisadora Ana Paula Duarte Souza esclareceu que o uso emergencial não equivale a uso experimental, e destacou que Pfizer e AstraZeneca já possuem registro definitivo no país.

O empresário também citou um email do Dr. Anthony Fauci para argumentar que máscaras não protegem pessoas saudáveis. O problema é que o email data de fevereiro de 2020, quando o conhecimento sobre o vírus era ainda incipiente. O próprio Fauci reconheceu, meses depois, que a comunicação inicial foi confusa, e estudos publicados em revistas como Science e The Lancet demonstraram que o uso de máscaras reduz significativamente a transmissão.

A negação mais contundente de Fakhoury foi a de que não mantém contato pessoal com Bolsonaro. Os registros contam outra história: encontros documentados desde 2015, uma viagem conjunta a Nova York em 2017 — onde Fakhoury atuou como tradutor —, um almoço com ministras organizado em sua própria casa em abril de 2021, e sua posse como presidente estadual do PTB, partido que trabalha para abrigar o clã Bolsonaro nas eleições de 2022. Quatro dias após a posse, publicou fotos ao lado do presidente.

A única declaração confirmada como verdadeira foi a de que não é réu em processos criminais. Ainda assim, Fakhoury figura como investigado no inquérito das Fake News no STF e em apuração da Polícia Federal sobre atos antidemocráticos.

Otávio Fakhoury compareceu à CPI da Covid na quinta-feira, 30 de setembro, para prestar depoimento. O empresário fez várias afirmações sobre vacinas, máscaras e sua relação com o presidente Jair Bolsonaro. Uma verificação de fatos revelou que algumas de suas declarações não resistem ao escrutínio.

Fakhoury afirmou que as vacinas em uso no Brasil ainda se encontram em estágio experimental, citando informações do FDA americano e da Anvisa. Segundo ele, apesar de a Anvisa ter dispensado a fase 3, as vacinas continuariam em testes. Essa afirmação é falsa. A Anvisa confirmou que todas as vacinas aplicadas no país tiveram seus dados de eficácia e segurança avaliados e aprovados, e que nenhuma foi dispensada de apresentar dados da fase 3 de pesquisa clínica. O FDA também aprovou as vacinas, contrariamente ao que Fakhoury declarou. Ana Paula Duarte Souza, farmacêutica e pesquisadora da PUC-RS, esclareceu que as vacinas entraram em uso emergencial, não experimental, e foram testadas até a fase 3 antes de serem liberadas. Ela apontou ainda que duas vacinas — Pfizer e AstraZeneca — já possuem registro definitivo no Brasil e não estão mais em uso emergencial.

O empresário também citou um email do Dr. Anthony Fauci, epidemiologista-chefe do combate à Covid-19 nos Estados Unidos, para afirmar que máscaras não têm eficiência para proteger pessoas não infectadas. A declaração está fora de contexto. O email foi escrito por Fauci em fevereiro de 2020, no início da pandemia, quando o entendimento sobre a transmissão do vírus era diferente. Fauci posteriormente mudou suas recomendações conforme pesquisadores descobriram mais evidências sobre a doença. Em julho de 2020, ele reconheceu que a "mensagem confusa no início" foi prejudicial. Estudos posteriores comprovaram a eficácia das máscaras. Uma pesquisa publicada na revista Science mostrou que a máscara reduz a inalação do vírus quando uma pessoa está em contato com alguém infectado. Outro estudo da The Lancet constatou que um aumento de 10% no uso de máscaras pode estar associado a mais de três vezes as chances de manter a taxa de transmissão abaixo de 1.

Fakhoury negou ter aliança com o presidente da República, afirmando que nem tem contato pessoal com ele. Essa declaração é falsa. Registros mostram que Fakhoury se encontrou com Bolsonaro em várias oportunidades desde pelo menos 2015, quando o atual presidente ainda era deputado. Em julho deste ano, Fakhoury tomou posse como presidente estadual do Partido Trabalhista Brasileiro, partido que trabalha para que o clã bolsonarista se filie para as eleições de 2022. Quatro dias depois, postou fotos com Bolsonaro em um evento do partido. Em abril, Fakhoury confirmou que havia marcado um almoço para o presidente em sua casa, evento que contou com 40 pessoas, incluindo as ministras Damares Alves, Flávia Arruda e Tereza Cristina. A esposa de Fakhoury, Vivian Kherlakian, desenhou o vestido e os brincos que a vice-primeira dama Paula Mourão usou no baile de posse do governo. Em 2017, Fakhoury viajou com Bolsonaro para Nova York e atuou como seu tradutor em uma palestra de Olavo de Carvalho. Além disso, em 2019, tornou-se tesoureiro do Partido Social Liberal em São Paulo a pedido de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente.

Quanto à afirmação de que não é réu em nenhum processo criminal, Fakhoury disse a verdade. De fato, ele não responde criminalmente como réu em processos que tramitam na Justiça Federal ou estadual, apesar de haver 40 processos relacionados a ele em várias instâncias. Contudo, Fakhoury é investigado no inquérito das Fake News no Supremo Tribunal Federal, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, e também em um inquérito da Polícia Federal que investiga atos antidemocráticos realizados no ano anterior.

As vacinas iniciais entraram não em uso experimental, e sim emergencial, devido à urgência e à necessidade de serem aprovadas por causa da pandemia
— Ana Paula Duarte Souza, farmacêutica e pesquisadora da PUC-RS
A mensagem confusa no início foi prejudicial para transmitir a recomendação sobre as máscaras
— Anthony Fauci, em entrevista à NPR em julho de 2020
Quer a matéria completa? Leia o original em EXTRA ↗
Fale Conosco FAQ