Exportações brasileiras para Argentina caem 19,4% no 1º semestre de 2026

A China voltou a ultrapassar o Brasil como principal fornecedor
Após políticas de abertura econômica do governo Milei, importações chinesas superaram as brasileiras no primeiro semestre de 2026.
Mark

Por que a Argentina, que havia se tornado refúgio para as exportações brasileiras, virou um mercado em queda tão rápida?

Mimi

Porque o governo Milei mudou as regras do jogo. Quando Lula enfrentava tarifas americanas em 2025, a Argentina comprava mais do Brasil. Mas Milei chegou ao poder com uma agenda ultraliberal — abrir a economia, reduzir preços, combater inflação. Isso significava remover barreiras para importações chinesas.

Mark

Mas por que especificamente veículos e autopeças? Por que não outros setores?

Mimi

Porque o setor automotivo era a espinha dorsal do comércio Brasil-Argentina. Carros, caminhões, peças — isso representava a maior parte do que o Brasil vendia lá. Quando Milei criou cotas zero para veículos elétricos chineses e facilitou a entrada de autopeças sem validação extra, atingiu direto o coração das exportações brasileiras.

Mark

A BYD vendeu 8 mil carros em seis meses. Isso é muito ou pouco?

Mimi

É extraordinário. Em seis meses, a BYD já estava entre as dez marcas mais vendidas, superando Honda e Nissan. Mostra como o mercado argentino estava sedento por alternativas baratas e que a abertura criou oportunidade perfeita para a China entrar com força.

Mark

As tensões entre Lula e Milei influenciaram a queda comercial?

Mimi

Provavelmente não causaram, mas certamente não ajudaram. As ofensas de Milei a Lula e a sugestão de que o Brasil financiava campanha contra ele criaram ruído diplomático. Mas a queda comercial é principalmente estrutural — resultado das políticas econômicas de Milei, não da briga política.

Mark

O governo argentino diz que está reduzindo inflação. Isso é verdade?

Mimi

Parcialmente. Abrir importações reduz preços no curto prazo. Mas há custo: a indústria de autopeças argentina está sofrendo, importações chinesas saltaram 80,9% em 2025. É a terapia de choque de Milei — dor agora, esperança de ganho depois.

Mark

O Brasil pode recuperar esse mercado?

Mimi

Difícil. A menos que o Brasil também reduza preços drasticamente ou que a política de Milei mude, a China tem vantagem estrutural agora. A Argentina abriu as portas e a China entrou. Não é questão de diplomacia, é economia.

  • Exportações brasileiras para Argentina caíram 19,4% no primeiro semestre de 2026, de US$ 9,1 bilhões para US$ 7,4 bilhões
  • Vendas de veículos de passageiros caíram 28,2% e autopeças recuaram 28,7% no período
  • BYD vendeu mais de 8 mil veículos em seis meses e já figura entre as dez marcas mais vendidas da Argentina
  • China ultrapassou Brasil como principal fornecedor argentino com US$ 7,98 bilhões contra US$ 7,35 bilhões do Brasil

Vendas de veículos e autopeças brasileiras caíram 28% em valor, revertendo crescimento do ano anterior quando Argentina buscava alternativas às tarifas dos EUA. Governo Milei flexibilizou importações com cotas zero para veículos elétricos chineses e facilitou entrada de autopeças, favorecendo concorrência asiática no mercado local.

As exportações brasileiras para a Argentina despencaram 19,4% no primeiro semestre de 2026, caindo de US$ 9,1 bilhões para US$ 7,4 bilhões, enquanto a China retoma posição como principal fornecedor do país vizinho.

No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para a Argentina sofreram uma reversão abrupta. Depois de um ano anterior marcado por compras crescentes de carnes e outros produtos brasileiros — quando Buenos Aires buscava alternativas às tarifas americanas que pressionavam o Brasil — o comércio entre os dois países entrou em queda livre. De janeiro a junho, o Brasil vendeu US$ 7,4 bilhões à Argentina, uma redução de 19,4% comparada aos US$ 9,1 bilhões do mesmo período de 2025. A participação argentina nas exportações brasileiras encolheu de 5,5% para 4%, ainda que o país permaneça como terceiro maior destino das vendas brasileiras, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.

A queda foi especialmente severa no setor automotivo, que historicamente sustentava o comércio bilateral. Veículos de passageiros, autopeças e caminhões respondiam pela maior parte das vendas brasileiras em junho. Mas entre janeiro e junho, as exportações de carros de passageiros caíram 28,2% em valor, enquanto as de autopeças recuaram 28,7%. Essa deterioração não foi abrupta — ocorreu de forma gradual ao longo de 2026, após alguns meses de crescimento no final de 2025 que criaram esperança de recuperação.

O cenário mudou quando o governo argentino, sob Javier Milei, adotou uma estratégia deliberada de abertura econômica. A Casa Rosada criou uma cota de 50 mil unidades anuais para importação de veículos elétricos e híbridos com tarifa zero, permitindo que metade viesse de fabricantes chineses. Simultaneamente, facilitou a entrada de autopeças sem exigir validações extras de segurança e meio ambiente. Essas medidas, justificadas como forma de reduzir preços e combater a inflação que ainda assola os argentinos, abriram as portas para a concorrência asiática.

O resultado foi dramático. A China voltou a ultrapassar o Brasil como principal fornecedor da Argentina no primeiro semestre de 2026, com importações de US$ 7,98 bilhões contra US$ 7,35 bilhões do Brasil. Marcas chinesas consolidaram presença acelerada no mercado. A BYD, que começou a ser vendida na Argentina apenas seis meses antes, já figurava entre as dez marcas mais vendidas do país, com mais de 8 mil veículos comercializados no período — desempenho superior ao de fabricantes tradicionais como Honda e Nissan. A Baic, outra montadora chinesa, também havia alcançado o top 10 no final de 2025.

André Baglio, vendedor em uma concessionária de Buenos Aires, observa uma mudança clara no comportamento do consumidor argentino. Há curiosidade crescente sobre veículos elétricos e híbridos, e quem consegue comprar um carro hoje acaba se interessando pelas outras opções disponíveis no mercado — muitas delas chinesas. Para o governo Milei, essa abertura representa sucesso: redução de preços, mais opções para consumidores e alívio inflacionário. Para a indústria de autopeças argentina, porém, representa dor. As importações chinesas de peças saltaram 80,9% em 2025.

Tensões diplomáticas entre Brasil e Argentina coincidiram com essa queda comercial, embora seja difícil separar causa e efeito. Milei proferiu ofensas ao presidente Lula durante um evento do PL que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro, e sugeriu que o governo brasileiro financiava campanha contra sua administração. O Itamaraty convocou o embaixador argentino para explicações. Dias depois, Buenos Aires afirmou acreditar que a crise política não impactaria relações diplomáticas ou comerciais. Mas o timing é revelador: a publicação dos dados de queda nas vendas brasileiras coincidiu precisamente com essa crise.

A volatilidade no comércio bilateral não é novidade. Oscilações são comuns devido à instabilidade econômica argentina, às flutuações da demanda automotiva e às variações cambiais. O comércio já apresentou períodos de queda e recuperação, com crescimentos superiores a 30% em alguns meses. Mas desta vez, a mudança parece estrutural. A política econômica de Milei — flexibilização de importações, abertura a produtos chineses, redução de barreiras — criou um novo ambiente competitivo onde o Brasil perde espaço. A Argentina, que um ano atrás era porto seguro para as exportações brasileiras, agora é mercado disputado onde a China avança com força.

Sinto o consumidor argentino mais aberto às marcas chinesas, há uma curiosidade sobre os veículos elétricos e híbridos
— Andrés Baglio, vendedor em concessionária de Buenos Aires
A queda no custo das peças de reposição acabará com a prática de preços combinados e aumentará a segurança dos veículos
— Manuel Adorni, porta-voz da Casa Rosada
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