Há momentos em que um homem ouve todos os conselhos sensatos do mundo e, ainda assim, escolhe o caminho que ninguém compreende. Foi o que fez Daniel Lamarre em 2001, ao trocar a presidência de uma das maiores redes de televisão do Canadá pela incerteza de um circo sem precedentes. Ao longo de quase duas décadas, transformou o Cirque du Soleil em fenômeno global com mais de 400 milhões de espectadores, enfrentou a maior crise de sua vida ao dispensar 95% dos funcionários durante a pandemia e, ainda assim, encontrou na criatividade o argumento mais poderoso para a sobrevivência.
Executivo trocou presidência de TV canadense pelo Cirque du Soleil e levou circo a patamar internacional
No Cirque não existia benchmark. Você é forçado a inventar.
Por que você acha que sua família e amigos estavam tão contra essa mudança?
Porque não fazia sentido racional. Você não deixa a presidência de uma grande emissora de televisão para entrar em um circo. Não havia precedente, não havia garantia. Era um salto no escuro.
Mas você viu algo que eles não viram?
Eu vi potencial de crescimento internacional. Na televisão, você está preso a um mercado nacional. No Cirque, havia a possibilidade de levar aquilo para o mundo inteiro. Era uma oportunidade extraordinária se você quisesse uma carreira internacional.
Qual foi o momento em que você soube que tinha tomado a decisão certa?
"The Beatles LOVE". Quando conseguimos fazer aquela parceria e o espetáculo foi transmitido para o mundo inteiro, o Cirque passou para outro nível. Aquilo validou a aposta que eu tinha feito quinze anos antes.
E a pandemia? Dispensar 95% da força de trabalho deve ter sido devastador.
Foi a pior experiência da minha vida. Mas o que aprendemos foi que criatividade não para. Enquanto tínhamos apenas três pessoas na sede, produzimos conteúdo digital que alcançou 70 milhões de pessoas. Isso nos salvou.
Você acha que teria conseguido fazer isso se tivesse permanecido na televisão?
Talvez. Mas na televisão você está sempre olhando para trás, comparando com outras emissoras. No Cirque, você é forçado a inventar. Não há benchmark. Você tem de ser mais criativo do que seus concorrentes ou desaparece.
Der Puls
- Lamarre abandonou estabilidade e prestígio na televisão canadense em 2001 para entrar num negócio que não tinha parâmetro de comparação com nada que ele conhecia.
- A parceria com os Beatles em 2006 quase não aconteceu — os detentores dos direitos musicais exigiam condições que o Cirque considerava inaceitáveis, e só o apelo dos próprios músicos desbloqueou o acordo.
- Em março de 2020, a pandemia forçou a demissão de 4.700 pessoas em questão de dias, numa decisão que Lamarre descreve como a pior experiência de sua vida.
- Com apenas três funcionários na sede, Lamarre apostou os recursos restantes em conteúdo digital semanal — e chegou a 70 milhões de pessoas engajadas antes mesmo de reabrir um único espetáculo.
- Esses 70 milhões viraram argumento de sobrevivência nas negociações com bancos e credores, e cerca de 90% dos artistas dispensados retornaram quando as cortinas voltaram a se abrir.
Há momentos em que um homem ouve todos os conselhos sensatos do mundo e, ainda assim, escolhe o caminho que ninguém compreende. Foi o que fez Daniel Lamarre em 2001, ao trocar a presidência de uma das maiores redes de televisão do Canadá pela incerteza de um circo sem precedentes. Ao longo de quase duas décadas, transformou o Cirque du Soleil em fenômeno global com mais de 400 milhões de espectadores, enfrentou a maior crise de sua vida ao dispensar 95% dos funcionários durante a pandemia e, ainda assim, encontrou na criatividade o argumento mais poderoso para a sobrevivência.
Daniel Lamarre presidia a TVA, uma das redes de televisão mais respeitadas do Canadá, quando decidiu ignorar família, amigos e colegas para aceitar um convite inesperado de Guy Laliberté, fundador do Cirque du Soleil. Em janeiro de 2001, entrou na companhia como aprendiz. Três anos depois, era presidente e CEO.
O maior choque não foi deixar a televisão — foi descobrir que havia entrado num negócio sem benchmark. Na TV, ele podia estudar concorrentes e olhar o mercado americano. No Cirque, passou quase um ano apenas acompanhando Laliberté para entender como a empresa funcionava.
O ponto de inflexão veio em 2006 com 'The Beatles LOVE', criado em parceria com Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison. A negociação quase naufragou por exigências financeiras dos detentores dos direitos musicais — foi a pressão dos próprios músicos que salvou o projeto. A estreia foi transmitida para o mundo inteiro e elevou o Cirque a outro patamar de visibilidade internacional.
Nem tudo correu bem. Em 2009, uma tentativa de reinventar o vaudeville sob a marca Cirque du Soleil durou dois meses em cartaz: os fãs rejeitaram o espetáculo por considerá-lo incompatível com a identidade da companhia. A produção foi encerrada antes que o dano à marca se tornasse irreversível.
A crise maior chegou em março de 2020. Com a pandemia paralisando todos os espetáculos simultaneamente, Lamarre primeiro correu contra o relógio para repatriar artistas espalhados pelo planeta antes que voos e fronteiras fechassem. Em seguida, tomou a decisão mais dura de sua carreira: dispensar aproximadamente 4.700 funcionários, 95% da força de trabalho.
Com apenas três pessoas na sede, escolheu gastar parte dos recursos restantes produzindo conteúdo digital semanal — bastidores, trechos de espetáculos, registros inéditos. Ao fim de um ano, cerca de 70 milhões de pessoas haviam acompanhado esse material. Nas negociações com bancos e credores, Lamarre usou esse número como argumento central: havia uma audiência real esperando o retorno. Cerca de 90% dos artistas dispensados voltaram quando as apresentações foram retomadas.
Hoje vice-presidente executivo do conselho, Lamarre estará em São Paulo em agosto para falar sobre criatividade e negócios — a mesma aposta que, em cada virada de sua trajetória, se mostrou o único recurso verdadeiramente indispensável.
Daniel Lamarre estava na presidência da TVA, uma das redes de televisão mais respeitadas do Canadá, quando decidiu abandonar tudo. Sua família o alertou. Seus amigos o desaconselharam. Seus colegas achavam que ele tinha perdido a cabeça. "Você tem um ótimo emprego, estabilidade, trabalha em uma grande emissora e quer largar tudo para entrar num circo?", perguntavam. Ele ouviu tudo isso e seguiu em frente mesmo assim.
Em janeiro de 2001, Lamarre entrou no Cirque du Soleil como um aprendiz em um negócio que ninguém sabia como comparar com nada. Três anos depois, tornou-se presidente e CEO. Durante quase duas décadas no comando, transformou uma companhia circense em um fenômeno de entretenimento global, multiplicando espetáculos, consolidando Las Vegas como sua principal vitrine internacional e assinando parcerias com nomes como Beatles, Michael Jackson, Disney e Avatar. Hoje ele é vice-presidente executivo do conselho e estará em São Paulo em agosto para falar sobre criatividade e negócios.
O Cirque du Soleil nasceu em 1984 em Quebec como uma resposta radical a uma indústria em declínio. Eliminou animais, substituiu números isolados por narrativas coerentes, incorporou teatro, dança e música ao vivo em cenários sofisticados. Transformou o circo em entretenimento para adultos dispostos a pagar preços de Broadway. Ao longo de quatro décadas, a companhia estima ter levado mais de 400 milhões de espectadores a apresentações em mais de 80 países.
Antes de tudo isso, Lamarre trabalhou como jornalista na Radio-Canada e em um jornal canadense, pagando sua própria universidade. Aquela experiência o colocou em contato com empresários e lhe ensinou muito sobre como o mundo funcionava. Mais tarde migrou para a comunicação corporativa e, em 1986, conheceu Guy Laliberté, o fundador do Cirque, durante um trabalho. Os dois mantiveram contato até que, quinze anos depois, Laliberté lhe fez um convite inesperado.
O maior choque não foi abandonar a televisão. Foi descobrir que havia entrado em um negócio sem parâmetros de comparação. Na televisão, ele podia estudar outras emissoras, olhar o mercado americano, fazer comparações. No Cirque não existia benchmark. Durante praticamente um ano, limitou-se a acompanhar Laliberté em viagens para entender como a empresa funcionava. Era como se tudo o que ele tivesse feito antes tivesse deixado de ser relevante.
O ponto de inflexão veio com "The Beatles LOVE", criado em parceria com Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison. Estreou em 2006 e rendeu também um ótimo álbum. Até então, o Cirque era conhecido principalmente por seus espetáculos originais. A associação com o catálogo da banda mais famosa do mundo levou a companhia a um novo patamar de visibilidade internacional. A negociação foi difícil, porém. Os responsáveis pelos direitos musicais dos Beatles fizeram exigências financeiras que o Cirque considerava excessivas. Durante alguns dias, Lamarre achou que o projeto não aconteceria. O acordo só avançou porque os próprios músicos pressionaram os detentores dos direitos a serem mais razoáveis. "Eles queriam muito fazer o espetáculo e os convenceram a serem mais razoáveis", recorda. A estreia de "LOVE" transformou definitivamente a empresa. "Foi transmitida para o mundo inteiro. Ali o Cirque passou para outro nível."
Sob sua gestão, a companhia expandiu continuamente o número de produções. Quando chegou ao Cirque, havia sete espetáculos em circulação. Hoje são cerca de 23 montagens apresentadas simultaneamente entre shows residentes e turnês internacionais. Cerca de 4.000 funcionários trabalham na empresa, dos quais aproximadamente metade são artistas. Cada produção permanece exclusiva de uma cidade ou circuito. "Nós nunca duplicamos um espetáculo. Se você quiser assistir a 'Alegría' em agosto, terá de ir a São Paulo. É o único lugar onde ele estará."
Nem todos os projetos deram certo. Em 2009, após uma sequência de sucessos, Lamarre e Laliberté decidiram "reinventar o vaudeville". O erro foi vender aquela produção como um espetáculo do Cirque du Soleil. "Quem nunca tinha visto o Cirque gostou. Mas nossos fãs odiaram. Diziam: 'Isso não é Cirque du Soleil'." Dois meses depois, o espetáculo foi retirado de cartaz. "Estávamos prejudicando a marca e tivemos de encerrá-lo."
A crise seguinte seria incomparavelmente maior. Em março de 2020, com a chegada da pandemia, todos os espetáculos da companhia pararam. O primeiro desafio foi localizar artistas espalhados pelo planeta e conseguir levá-los de volta para casa antes que voos e fronteiras fossem fechados. "Era uma corrida contra o relógio. A cada hora uma companhia aérea suspendia operações." Logo depois veio a decisão mais dura: dispensar aproximadamente 4.700 funcionários, o equivalente a 95% da força de trabalho do Cirque. "Foi a pior experiência da minha vida."
Após as demissões, a empresa manteve contato permanente com os artistas. A estratégia tinha um objetivo prático: reconstruir rapidamente o elenco quando as apresentações voltassem. Segundo Lamarre, cerca de 90% dos profissionais dispensados retornaram ao Cirque. "Eles continuaram treinando durante toda a pandemia. Quando ligamos dizendo que estávamos prontos para voltar, eles também estavam."
Foi naquele período que Lamarre tomou a decisão mais criativa de sua carreira. Com apenas três pessoas trabalhando na sede da empresa, decidiu gastar parte dos recursos restantes para produzir semanalmente conteúdos digitais com bastidores e trechos de espetáculos. Ao fim de um ano, calcula, cerca de 70 milhões de pessoas haviam acompanhado esse material. Na renegociação com bancos e credores, usou esses números para defender a sobrevivência da companhia. "Eu dizia: existem 70 milhões de pessoas esperando a volta do Cirque. Apoiem financeiramente a empresa porque elas estarão lá quando reabrirmos." É essa experiência que Lamarre pretende levar ao palco do SP2B, no parque do Ibirapuera, em uma palestra intitulada "Sem Criatividade, Não Há Negócio".
Bemerkenswerte Zitate
Minha mulher, meus pais, todo mundo era contra. Você tem um ótimo emprego, estabilidade, trabalha em uma grande emissora e quer largar tudo para entrar num circo?— Daniel Lamarre, recordando as reações de sua família e amigos
Se você quer desenvolver sua empresa e liderar seu setor, precisa ser mais criativo do que seus concorrentes— Daniel Lamarre, sobre sua convicção reforçada durante a pandemia