Vinte anos separam dois momentos em que o Brasil olhou para seus reservatórios e viu o fundo. José Jorge, que esteve no centro da crise elétrica de 2001 como ministro de Minas e Energia, reconhece hoje os mesmos sinais de então: a pior seca em nove décadas castiga o Sudeste e o Centro-Oeste, região que concentra 70% da capacidade hídrica geradora do país. Enquanto o governo federal nega o risco de racionamento, o ex-ministro lembra que crises estruturais não se resolvem com apelos — e que a história já mostrou o que é preciso fazer.
Ex-ministro vê risco de racionamento similar ao de 2001
Apelos por economia têm pouco efeito prático quando a crise é estrutural
Por que o ex-ministro acha que estamos à beira de um racionamento quando o governo nega isso?
Porque ele viu isso antes. Em 2001, os sinais eram iguais: reservatórios críticos, estação chuvosa terminando, demanda se aproximando da oferta. Ele foi ao presidente e mobilizou o governo inteiro. Agora vê os mesmos sinais e ouve o mesmo discurso — apelos por economia — que sabe não funcionar sozinho.
Mas a matriz energética mudou muito desde então. Temos eólica, temos mais transmissão. Isso não muda o cenário?
Muda, mas não o suficiente. A eólica é 14%, as hidrelétricas ainda são 63%. E o Sudeste, que armazena 70% da água geradora de energia, está na pior seca em 90 anos. Mais linhas de transmissão ajudam, mas não resolvem se não há água para gerar.
O que fez diferença em 2001?
Coordenação total. O governo inteiro tratou como prioridade número um. Havia um comitê de crise, conversas setoriais com a indústria, metas de redução negociadas. Não era só pedir para economizar na TV. Era estrutura, sacrifício compartilhado, horas de reunião.
E agora? O governo criou a Creg, que é parecida com aquele comitê.
Criou, sim. Mas estrutura institucional não é tudo. Precisa de vontade política, de o governo inteiro estar alinhado, de negociações reais com a indústria. Jorge está dizendo que apelos públicos não bastam quando a crise é real.
Qual é o risco se não fizerem nada?
O mesmo de 2001. Racionamento. Grandes clientes, indústrias e consumidores residenciais tendo que reduzir consumo conforme o governo determina. Mas dessa vez, com uma matriz mais complexa e uma população maior dependendo de energia.
Der Puls
- Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste atingem o nível mais crítico em 90 anos, pressionando um sistema que abastece a maior parte da demanda elétrica nacional.
- O governo federal nega publicamente qualquer risco de racionamento, mas o ex-ministro José Jorge afirma que a negação não apaga a fragilidade do equilíbrio entre oferta e demanda.
- Apelos públicos por economia de energia — repetidos hoje pelo ministro Bento Albuquerque exatamente como foram feitos em 2001 — têm, segundo Jorge, impacto prático quase nulo diante de uma crise de natureza estrutural.
- A criação da Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (Creg) sinaliza reconhecimento do problema, mas Jorge adverte que estrutura institucional sem vontade política coordenada não resolve.
- A matriz energética evoluiu desde 2001 — eólicas respondem por 14% e hidrelétricas por 63% — mas a infraestrutura de transmissão pode ainda ser insuficiente para redistribuir energia entre regiões em caso de colapso hídrico.
Vinte anos separam dois momentos em que o Brasil olhou para seus reservatórios e viu o fundo. José Jorge, que esteve no centro da crise elétrica de 2001 como ministro de Minas e Energia, reconhece hoje os mesmos sinais de então: a pior seca em nove décadas castiga o Sudeste e o Centro-Oeste, região que concentra 70% da capacidade hídrica geradora do país. Enquanto o governo federal nega o risco de racionamento, o ex-ministro lembra que crises estruturais não se resolvem com apelos — e que a história já mostrou o que é preciso fazer.
José Jorge olha para o Brasil de 2021 e reconhece um espelho incômodo. Como ministro de Minas e Energia em 2001, ele viveu de perto a maior crise elétrica da história recente do país. Hoje, os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste — responsáveis por cerca de 70% da capacidade hídrica geradora nacional — enfrentam a pior seca em 90 anos. Para ele, os sinais são os mesmos de duas décadas atrás.
Em entrevista à Rádio Jornal, o ex-ministro traçou um paralelo direto entre os dois momentos. Quando assumiu o cargo em março de 2001, os reservatórios já estavam em estado crítico. A partir de uma audiência com o presidente Fernando Henrique Cardoso, o governo se mobilizou integralmente: Pedro Parente, então chefe da Casa Civil, integrou um comitê de crise, e toda a estrutura federal passou a tratar o racionamento como prioridade absoluta. Havia negociações setoriais com a indústria, metas de redução de consumo e reuniões que se estendiam por horas.
Hoje, o ministro Bento Albuquerque fez um apelo público para que empresas e cidadãos economizem energia — o mesmo discurso de 2001. Jorge é cético: apelos têm pouco efeito quando a crise é estrutural. O governo Bolsonaro criou a Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (Creg) com propósito semelhante ao comitê de então, mas o ex-ministro sugere que a estrutura, por si só, não basta sem coordenação política real.
Desde 2001, a matriz energética brasileira mudou. As hidrelétricas, que respondiam por mais de 90% da geração, hoje representam 63%. A energia eólica cresceu e já alcança 14%. A rede de transmissão também se expandiu — em 2001, o Sul gerava energia com água, mas não havia linhas para levá-la ao Sudeste ou ao Nordeste. Hoje a infraestrutura é melhor, mas Jorge questiona se é suficiente.
O que o ex-ministro vê é um cenário que exige mais do que comunicados. Em 2001, grandes clientes, indústrias e consumidores residenciais foram obrigados a reduzir o consumo por determinação federal. Não foi simples, mas funcionou. A pergunta que fica é se o governo atual está disposto — e preparado — a agir com a mesma coordenação antes que a situação se torne irreversível.
José Jorge, que comandou o Ministério de Minas e Energia em 2001, olha para o Brasil de 2021 e vê um espelho perturbador. Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste enfrentam a pior seca em 90 anos. Essa região guarda cerca de 70% de toda a água capaz de gerar eletricidade no país. E para Jorge, os sinais de alerta são os mesmos que viu duas décadas atrás, pouco antes de o Brasil entrar em racionamento.
Em entrevista à Rádio Jornal, o ex-ministro traçou um paralelo incômodo entre então e agora. Quando assumiu o cargo em março de 2001, encontrou os reservatórios em estado crítico, no final da estação chuvosa. Pediu audiência com o presidente Fernando Henrique Cardoso e, a partir daí, o governo mobilizou-se. Hoje, o ministro Bento Albuquerque fez um apelo público para que empresas e pessoas economizem energia — exatamente o mesmo discurso que Jorge usou há vinte anos. Mas o ex-ministro é cético quanto à eficácia dessa abordagem. Apelos por economia de energia, ele sabe, têm pouco impacto prático quando a crise é estrutural.
O governo federal atual nega que haja risco de racionamento. Jorge não concorda. Ele explica que quando a demanda se aproxima perigosamente da oferta, o equilíbrio fica frágil — especialmente porque a produção de energia obedece a regras técnicas rígidas. Em 2001, a resposta foi mobilização total. Pedro Parente, então chefe da Casa Civil, integrou-se a um comitê de crise. O governo inteiro passou a tratar o racionamento como prioridade número um. Havia conversas setoriais com a indústria para estabelecer metas de redução de consumo. Os membros do comitê passavam horas em reunião.
O governo Bolsonaro criou a Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (Creg) com propósito semelhante — estabelecer medidas emergenciais. Mas Jorge sugere que a estrutura institucional, por si só, não resolve o problema se a vontade política não estiver ali.
Desde 2001, a matriz energética brasileira diversificou. As hidrelétricas respondiam por mais de 90% da geração então; hoje representam 63%. A energia eólica cresceu e agora responde por cerca de 14% da produção. Também há mais linhas de transmissão do que havia vinte anos. Mas Jorge é claro: essa diversificação, embora significativa, não foi suficiente para evitar a vulnerabilidade atual. Em 2001, o Sul do país não entrou em racionamento porque tinha água e gerava energia — mas não havia infraestrutura para transportar essa eletricidade para o Sudeste ou Nordeste. Faltavam linhas de transmissão. Hoje a rede é melhor, mas a pergunta permanece: é suficiente?
O que Jorge vê é um cenário que exige mais do que comunicados à imprensa. Exige coordenação governamental, negociação com a indústria, sacrifícios compartilhados. Em 2001, isso aconteceu. Grandes clientes, indústrias e consumidores residenciais tiveram que reduzir o consumo conforme determinado pelo governo federal. Não foi fácil, mas funcionou. A questão agora é se o governo está disposto a fazer o mesmo — e se conseguirá fazê-lo antes que a situação se torne inevitável.
Bemerkenswerte Zitate
O discurso do ministro foi igualzinho ao que eu fiz em 2001. Fui à TV e pedi para as pessoas economizarem energia— José Jorge, ex-ministro de Minas e Energia
Quando a demanda se aproxima da oferta, o governo tem que atuar como um todo— José Jorge