Cônsoli é sócio de empresa que oferece manutenção, abastecimento e serviços auxiliares de transporte aéreo, mas não opera voos comerciais. Polícia Federal esclareceu que investigação foi restrita ao sinistro aeronáutico e que indiciados estão impedidos de deixar o Brasil por determinação judicial.
Ex-diretor indiciado no caso Voepass abre empresa de serviços aéreos em SP
Uma cultura de não reporte, onde falhas críticas eram omitidas para evitar retenção de aeronaves
Como alguém indiciado por um desastre que matou 62 pessoas consegue abrir uma empresa no mesmo setor tão rapidamente?
Porque a lei não o proíbe. Ele está impedido de sair do Brasil e responde criminalmente, mas não há restrição legal que o impeça de constituir uma empresa de serviços aeronáuticos enquanto aguarda julgamento.
A Polícia Federal não vê isso como problemático?
Ela respondeu que a investigação foi restrita ao sinistro em si. Mas há um processo paralelo: a PF pediu à Anac que suspenda o CANAC dele, que é a credencial profissional na aviação. Se isso for concedido, ele não poderá mais trabalhar no setor.
E se a suspensão não for concedida antes do julgamento?
Então ele continua operando legalmente, mesmo indiciado. É uma lacuna entre o processo criminal e o administrativo.
Outros investigados também continuaram no setor?
Sim. Pelo menos dois outros: um agora gerencia planejamento em outra companhia aérea, outro trabalha como despachante em uma empresa de cargas. Todos estão respondendo criminalmente.
Qual é o crime específico?
Atentado contra a segurança do transporte aéreo. Se condenados, podem pegar até 24 anos de prisão porque houve morte. A acusação é que eles sabiam dos problemas—especialmente no sistema de degelo—e não reportaram, deixando a aeronave voar em condições perigosas.
E a Anac? Ela sabia também?
Sabia. Inspetores da agência tinham conhecimento dos problemas crônicos meses antes da queda e não suspenderam as operações. Por isso a PF pediu investigação sobre possível prevaricação de servidores da Anac.
O Pulso
- Eric Cônsoli, ex-diretor de manutenção da Voepass, abriu empresa de serviços aeronáuticos em julho de 2025
- Voo 2283 caiu em agosto de 2024, matando 62 pessoas (58 passageiros e 4 tripulantes)
- 16 profissionais foram indiciados pela Polícia Federal por atentado contra a segurança do transporte aéreo
- Indiciados estão impedidos de sair do Brasil por determinação judicial
- Voepass teve seu Certificado de Operador Aéreo cassado em junho de 2025
Cônsoli é sócio de empresa que oferece manutenção, abastecimento e serviços auxiliares de transporte aéreo, mas não opera voos comerciais. Polícia Federal esclareceu que investigação foi restrita ao sinistro aeronáutico e que indiciados estão impedidos de deixar o Brasil por determinação judicial.
Eric Cônsoli, ex-diretor de manutenção da Voepass indiciado pela queda que matou 62 pessoas, abriu empresa de serviços aeronáuticos em julho de 2025, um ano após o acidente.
Eric Cônsoli, ex-diretor de manutenção da Voepass, abriu uma empresa de serviços aeronáuticos em Ribeirão Preto pouco mais de um ano após a queda do voo 2283 que matou 62 pessoas. Segundo registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo, a empresa foi constituída em julho de 2025. Cônsoli é um dos 16 profissionais indiciados pela Polícia Federal pelo desastre ocorrido em agosto de 2024, quando um ATR 72-500 caiu sobre um condomínio em Vinhedo, vitimando todos os 58 passageiros e 4 tripulantes a bordo.
A nova companhia oferece atividades de suporte ao transporte aéreo executivo: estacionamento e abastecimento de aeronaves, importação de peças, manutenção e seguros aeronáuticos. Importante notar que a empresa não opera voos comerciais. Quando questionada sobre a relevância dessa abertura para as investigações em curso, a Polícia Federal respondeu que o inquérito concentrou-se especificamente no sinistro aeronáutico e não se estendeu a atividades posteriores dos indiciados.
Cônsoli não é o único investigado que permaneceu no setor. Tiago Passucci Morani, engenheiro mecânico aeronáutico que atuava como inspetor-chefe da Voepass e era responsável por assinar liberações técnicas, trabalha agora como gerente de planejamento e aeronavegabilidade em uma empresa prestadora de serviços para outras companhias aéreas. Oderlino de Campos Figueiredo, que era despachante operacional de voo na Voepass até abril de 2025, atua hoje na mesma função em uma empresa de transporte aéreo de cargas com sede em Campinas.
Os 16 indiciados compareceram a todos os depoimentos e não são considerados foragidos. Contudo, decisão judicial os proíbe de sair do Brasil. Seus nomes foram inseridos nos sistemas de controle de imigração para impedir saídas não autorizadas. Segundo apuração, ao menos um dos investigados está temporariamente no exterior, mas se comprometeu a retornar para prestar esclarecimentos. André Ribeiro, chefe da Polícia Federal em Campinas, afirmou que as medidas cautelares estão sendo cumpridas e que prisões preventivas não foram necessárias no momento porque o sistema de imigração está bloqueado.
As investigações concluíram que o acidente resultou de uma combinação de fatores meteorológicos, falhas técnicas e conduta operacional insuficiente. A Polícia Federal identificou uma "cultura de não reporte" na empresa, onde falhas críticas no sistema de degelo eram omitidas dos registros oficiais para evitar a retenção de aeronaves em solo. Os 16 indiciados respondem pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, com penas agravadas pelo resultado morte, podendo receber até 24 anos de prisão.
Com dívidas superiores a 400 milhões de reais, a Voepass teve seu Certificado de Operador Aéreo cassado definitivamente pela Anac em junho de 2025. O caso agora está sob análise do Ministério Público Federal, que decidirá sobre o oferecimento de denúncia à Justiça. A Polícia Federal apresentou representações administrativas solicitando a suspensão do CANAC—a identificação profissional junto à Anac—dos 16 indiciados até o desfecho da ação penal, medida que visa impedir que continuem exercendo atividades na aviação civil.
Além disso, a PF solicitou que o Ministério Público Federal apure a responsabilidade de integrantes da própria Anac por possível atuação insuficiente ou omissiva. Conforme a investigação, inspetores da agência tinham conhecimento de problemas crônicos no sistema de degelo da aeronave acidentada meses antes da queda e não suspenderam as operações. Uma cópia integral dos autos foi encaminhada à Procuradoria da República no Distrito Federal para investigar eventuais crimes de prevaricação ou improbidade administrativa.
Citações Notáveis
Sempre que eu intimei apareceram aqui— André Ribeiro, chefe da Polícia Federal em Campinas
O sistema de imigração está bloqueado, eles não conseguem sair— André Ribeiro, chefe da Polícia Federal em Campinas