Ex-comandante da FAB relata risco iminente de golpe em 2022 sob Bolsonaro

Potencial risco de derramamento de sangue em confrontos entre forças de segurança e manifestantes golpistas em frente aos quartéis foi evitado pela postura legalista dos comandantes.
Tínhamos informações de que iria ter um mar de sangue
Baptista Júnior explica por que os comandantes não dispersaram protestos golpistas em frente aos quartéis.
Mark

O senhor diz que havia risco iminente de golpe, mas também que votou em Bolsonaro em 2022. Como essas duas coisas convivem?

Mimi

Não é contraditório. Eu votei porque achava que a anulação das condenações de Lula foi uma quebra do Estado democrático de Direito. Mas isso não significa que eu soubesse com certeza o que Bolsonaro faria se eleito.

Mark

Mas o senhor estava dentro das reuniões. Conhecia as pressões. Por que não viu isso vindo?

Mimi

As Forças Armadas são muito grandes. Eu sabia a posição de alguns, mas não de todos. E havia esperança de que a legalidade prevalecesse. O general Freire Gomes tinha uma postura clara.

Mark

A nota dos comandantes de 11 de novembro foi criticada por ser morna. O senhor não acha que uma posição mais firme teria evitado tudo isso?

Mimi

Tínhamos informações de que se dispersássemos aqueles protestos à força, haveria um mar de sangue. Nós já sabíamos que a mobilização estava decrescente. A nota foi no tom adequado para aquele momento.

Mark

O senhor curtia mensagens de apoio a Bolsonaro nas redes. Isso não enviava um sinal errado?

Mimi

Essas interpretações vêm de uma ferramenta do Twitter que foi tão danosa que o próprio Twitter cancelou. Eu poderia estar curtindo por várias razões. Tomava muito cuidado como comandante.

Mark

E agora, vendo Flávio Bolsonaro repetir o discurso do pai sobre fraude eleitoral, o senhor se arrepende de algo?

Mimi

Não tenho arrependimento do que fiz. O populismo exige mobilização dos eleitores. É um erro do Flávio levantar esse aspecto. Mas também acho que o presidente Lula usa ferramentas perigosas com essa bandeira de soberania.

Mark

Como romper com essa tradição de os militares interferirem na política?

Mimi

Acho que minha geração não está disposta a ser o ator principal no desenvolvimento do Brasil. Primeiro é preciso conhecer a história, estudar. Mas nem todos parecem dispostos a cooperar com isso.

  • Carlos Baptista Júnior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira, relata reuniões em que Bolsonaro tentava convencer militares a embarcar em golpe após derrota eleitoral de 2022
  • Baptista Júnior temia ruptura entre tropas, especialmente no Exército, e desalinhamento com a postura legalista do general Freire Gomes
  • Comandantes das Forças Armadas publicaram nota em 11 de novembro condenando excessos de manifestantes golpistas, evitando derramamento de sangue
  • STF condenou mais de 10 militares da ativa e outros da reserva por envolvimento na tentativa de golpe

Baptista Júnior relata reuniões a portas fechadas em que Bolsonaro tentava convencer comandantes das Forças Armadas a embarcar em golpe após derrota eleitoral. Ex-comandante temia ruptura entre tropas e desalinhamento com postura legalista do general Freire Gomes, especialmente no Exército com grande capilaridade.

Ex-comandante da Força Aérea Brasileira Carlos Baptista Júnior afirma que houve risco iminente de golpe ao fim de 2022, quando Bolsonaro buscava convencer militares a reverter eleição de Lula.

No final de 2022, enquanto brasileiros seguiam suas rotinas ordinárias, Brasília vivia um drama que poucos conheciam. Atrás de portas fechadas, o ex-presidente Jair Bolsonaro reunia-se com os comandantes das Forças Armadas, tentando convencê-los a participar de um golpe que revertesse a vitória eleitoral de Lula. Agora, Carlos Baptista Júnior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira, abre os bastidores desses encontros em seu livro "Eu disse não - Uma trincheira antigolpista", a ser lançado em setembro. O brigadeiro, já na reserva, relata uma série de momentos desconfortáveis durante a gestão Bolsonaro, quando sentia as Forças Armadas sendo instrumentalizadas para ganhos políticos. Em um dos encontros após a derrota eleitoral, segundo Baptista Júnior, Bolsonaro lhe disse: "BJ, eu já te dei dois cartões amarelos".

O risco de golpe foi iminente, afirma o ex-comandante. Ele temia uma ruptura entre as tropas, particularmente uma iniciativa no Exército que não estivesse alinhada à postura legalista do general Freire Gomes. Baptista Júnior não sabia qual era a posição completa do almirantado, embora conhecesse a do almirante Garnier, comandante da Marinha e, segundo ele, favorável ao golpe. As pressões sobre todos os comandantes militares foram muito grandes. O Exército, com sua grande capilaridade territorial, representava um risco particular de desalinhamento.

Quando protestos golpistas se espalharam em frente aos quartéis, o Exército não os dispersou. Os comandantes das Forças publicaram uma nota condenando excessos dos manifestantes, mas fazendo críticas indiretas ao Judiciário. Baptista Júnior explica que não foram mais firmes naquele momento porque temia um derramamento de sangue. Havia informações de que poderiam remover os manifestantes à força, o que resultaria em uma tragédia. O objetivo foi evitar essa violência, especialmente porque a mobilização já apresentava sinais de declínio. A nota de 11 de novembro, no auge do estresse, representava o tom adequado para dizer que manifestações pacíficas eram permitidas, mas não quebra-quebra ou arruaça. Os comandantes tentaram, em diversas reuniões cansativas, estudar maneiras de um estado de exceção que não desse posse ao presidente eleito, sem os pressupostos básicos para uma Garantia da Lei e da Ordem, estado de defesa ou estado de sítio.

Baptista Júnior votou em Bolsonaro em 2022, apesar de tudo. Ele considerava a anulação das condenações de Lula uma quebra do Estado democrático de Direito. Também achava que não havia um candidato ponderado e que o país vinha de uma necessidade antissistema, com Lava Jato e petrolão. Quando questionado se já era claro em 2022 que Bolsonaro queria subverter a democracia, ele responde que não tinha essa certeza. Não sabia se, se eleito, Bolsonaro se tornaria um ditador. Diz estar em um círculo vicioso de escolher candidatos com menos rejeição, que não apresentam planos claros.

Sobre suas curtidas em redes sociais apoiando Bolsonaro ou criticando a esquerda, Baptista Júnior argumenta que essas interpretações vinham de uma ferramenta do Twitter que identificava quem curtia mensagens. Ele poderia estar curtindo porque a pessoa responderia ou se comprometeria a discutir um assunto. Se fosse hoje, talvez não curtisse, mas diz ter liberdade para fazer isso e que tomava muito cuidado como comandante. Nega ter dado qualquer semente ao presidente de que embarcaria em um golpe. Tinha uma relação institucional com Bolsonaro, nunca o chamava de "você". Churrascos e eventos públicos em Brasília não significam apoio a quebras da lei.

Quanto à condenação de Bolsonaro, Baptista Júnior diz que dos cinco crimes pelos quais foi julgado e condenado, dois são muito próximos. Isso vale tanto para o núcleo quanto para os condenados do 8 de janeiro. Vê uma possibilidade de revisão dessas penas à frente. Quando perguntado se acha a condenação necessária, recusa-se a responder, dizendo que é um problema do Judiciário e do mundo político. Sobre romper com a tradição de interferência das Forças Armadas na política, acredita que isso vem sendo feito. Sua geração, nascida nos anos 1960, não parece disposta a ter para si a responsabilidade de ser o ator principal no desenvolvimento do Brasil. Primeiro é preciso conhecer a história, estudar e levar todos a saber que não há atalho para quebra da democracia. Logicamente, todos têm que estar dispostos a cooperar para isso.

BJ, eu já te dei dois cartões amarelos
— Bolsonaro a Baptista Júnior em reunião após derrota eleitoral
Houve risco iminente de golpe. As Forças Armadas são muito grandes. Eu temia por uma ruptura entre tropas
— Carlos Baptista Júnior
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