Euforia eleitoral na América Latina cede à realidade de governar

O capital político se deteriora rapidamente, lançando sombra sobre o Brasil
Investidores observam que a euforia inicial em outros países latino-americanos desapareceu quando líderes de direita enfrentaram realidades fiscais e políticas.
Mark

Por que os mercados subiram tanto se esses líderes tinham tão pouco tempo para provar que conseguiam governar?

Mimi

Os investidores estavam apostando em uma mudança de direção política, não em resultados concretos. Depois de anos com governos de esquerda, havia uma expectativa de que a direita implementaria reformas fiscais e políticas pró-mercado. Isso foi suficiente para impulsionar os preços.

Luke

Mas isso é especulação pura, certo? Ninguém realmente sabia se esses presidentes conseguiriam fazer o que prometeram.

Mimi

Exatamente. E agora, alguns meses depois, a realidade está batendo. Crises fiscais, queda de aprovação, pressões políticas que dificultam as reformas.

Mark

Então o que mudou? Por que a Colômbia, por exemplo, foi tão bem recebida e depois caiu?

Mimi

O presidente Abelardo de la Espriella enfrentou o que seus assessores chamaram de a pior crise fiscal do país desde o século XIX. Não é fácil implementar austeridade quando você enfrenta uma crise dessa magnitude.

Luke

Mas espera — se havia uma crise fiscal tão grave, por que os investidores não viram isso vindo? Ou viram, mas apostaram que ele conseguiria resolver?

Mimi

Provavelmente viram, mas acreditavam que um presidente de direita teria mais credibilidade e capital político para fazer reformas impopulares. O problema é que o capital político se esgota rápido.

Mark

E o Brasil? Por que os investidores estão tão otimistas lá se estão reduzindo exposição em outros lugares?

Mimi

Porque o Brasil é maior, mais importante. E há esperança de que um Congresso inclinado à direita facilite as reformas. Mas o padrão que vemos no Peru, Equador e Argentina sugere que esse otimismo pode ser prematuro.

Luke

Qual é a diferença entre o Brasil e esses outros países? Por que o Brasil seria diferente?

Mimi

Não há garantia de que seja. Alguns gestores ainda acreditam, mas outros já estão reduzindo exposição. A verdade é que ninguém sabe ainda.

  • Mercados que subiram mais de 70% em um ano começam a recuar à medida que a euforia eleitoral cede lugar às dificuldades concretas de governar.
  • Colômbia enfrenta sua pior crise fiscal desde o século XIX, o Equador reintroduziu subsídios que pressionam seus títulos, e o Peru viu a popularidade presidencial desabar em poucos meses.
  • Gestores de fundos como Frontier Road e Fidelity International já reduziram sua exposição à América Latina, sinalizando uma retirada cautelosa do capital que apostou na virada conservadora.
  • O Brasil concentra as esperanças restantes, com ações subindo 20% desde agosto na expectativa eleitoral, mas analistas alertam que ganhos futuros dependem de disciplina fiscal real, não apenas de retórica.
  • A Argentina de Milei serve de laboratório e alerta: a austeridade que encantou mercados agora corrói popularidade, com rendimentos soberanos voltando a dois dígitos antes mesmo da próxima eleição.

Após uma onda de otimismo que elevou mercados latino-americanos em mais de 70%, a realidade da governança começa a pesar sobre o entusiasmo dos investidores. Em países como Colômbia, Chile, Peru e Equador, líderes eleitos com promessas de austeridade e reformas pró-mercado enfrentam crises fiscais, queda de popularidade e a resistência silenciosa das instituições. O Brasil, às vésperas de suas próprias eleições, observa esse espelho regional com atenção — pois a história sugere que a rejeição ao passado raramente é, por si só, um projeto de futuro.

Os mercados financeiros da América Latina viveram meses de euforia. Apostando que o descontentamento com governos de esquerda abriria caminho para uma virada conservadora, investidores empurraram ações, moedas e títulos a ganhos expressivos — mais de 70% em alguns índices regionais. Mas, à medida que esses novos líderes assumem o poder, a realidade da governança começa a minar o otimismo que sustentou esses números.

Na Colômbia, o presidente Abelardo de la Espriella chegou ao cargo em maio com promessas de mudança e mercados em alta. Dois meses depois, seus próprios assessores descreviam a situação fiscal como a pior crise do país desde o século XIX. No Chile, o ímpeto das ações que havia atingido recordes históricos sob José Antonio Kast perdeu força. No Equador, Daniel Noboa conquistou capital político com políticas duras contra o crime, mas sua aprovação despencou — e quando um choque energético o forçou a reintroduzir subsídios aos combustíveis, os títulos do país sentiram o impacto.

Esse padrão lança uma sombra sobre o Brasil, onde as ações subiram mais de 20% desde agosto na expectativa de que Flávio Bolsonaro derrote Lula nas eleições deste mês. Matthew Graves, da PPM America, alertou que essas eleições foram, em grande parte, votos de rejeição ao status quo — não necessariamente um mandato para austeridade fiscal. A desilusão, disse ele, é um risco real.

Alguns gestores já agiram. Martin Bercetche, da Frontier Road, reduziu quase toda a sua exposição à região após 18 meses de otimismo. A Fidelity International também recuou. Outros, como Eric Fine da VanEck, mantêm posições em títulos brasileiros, mas reconhecem que os ganhos podem ser limitados pelos desafios fiscais do país.

O potencial ainda existe. Polina Kurdyavko, da RBC BlueBay, estima retornos de dois dígitos para ativos brasileiros nos próximos 12 meses — mas apenas se o próximo governo priorizar o Congresso e um orçamento disciplinado. Na Argentina, a trajetória de Milei ilustra o risco oposto: a austeridade que encantou mercados agora corrói sua base política, com rendimentos soberanos voltando a dois dígitos.

Como resumiu Eamon Aghdasi, da Grantham Mayo Van Otterloo: ainda é cedo demais para concluir que os eleitores da região estejam exigindo ortodoxia econômica. Os próximos meses — com dados fiscais e decisões políticas concretas — dirão se a euforia tinha fundamento ou se foi apenas o eco de uma esperança ainda sem resposta.

Os mercados financeiros da América Latina viveram um momento de euforia. Desde o ano passado, investidores apostaram que o descontentamento com governos de esquerda levaria a uma virada política à direita em toda a região. As ações subiram mais de 70%, moedas dispararam, e títulos de dívida se tornaram alguns dos papéis de melhor desempenho nos mercados emergentes. Mas agora, poucos meses depois que esses líderes conservadores assumiram o poder, a realidade da governança está minando o otimismo que alimentou esses ganhos.

Na Colômbia, o presidente Abelardo de la Espriella venceu as eleições em maio com promessas de mudança. A moeda subiu, os rendimentos dos títulos caíram, e as ações subiram mais de 20% em relação às mínimas. Dois meses após sua posse, porém, o líder conservador se viu diante do que seus assessores chamaram de a pior crise fiscal do país desde o século XIX. No Chile, o presidente José Antonio Kast, eleito há 11 meses com uma agenda pró-mercado, viu o ímpeto das ações que havia atingido recordes históricos perder força. No Equador, o presidente Daniel Noboa conquistou capital político inicial com políticas duras contra o crime, o que lhe permitiu implementar reformas fiscais. Mas sua aprovação desabou, e quando a guerra com o Irã criou um choque energético, ele reintroduziu subsídios aos combustíveis, uma decisão que pressionou os títulos do país nos últimos meses.

Essas dificuldades servem como aviso para os investidores que concentraram suas apostas no Brasil. Desde meados de agosto, as ações brasileiras subiram mais de 20%, impulsionadas pela expectativa de que Flávio Bolsonaro derrote o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições deste mês. Mas o padrão que se repete em toda a região sugere que o entusiasmo inicial pode não se sustentar. Matthew Graves, gestor de portfólio da PPM America em Los Angeles, alertou que "existem riscos reais de que essa euforia inicial dê lugar à desilusão". Ele observou que essas eleições foram principalmente sobre rejeição ao status quo, não necessariamente um voto forte a favor de austeridade fiscal.

Alguns gestores de fundos já estão se movimentando. Martin Bercetche, gestor de carteiras com foco em crédito na Frontier Road, um fundo de hedge londrino, reduziu quase toda a sua exposição à América Latina depois de manter-se "muito otimista" pela região por mais de 18 meses. A Fidelity International também reduziu sua exposição. Outros, como Eric Fine da VanEck, que mantém uma posição de "sobreponderação máxima" em títulos da dívida brasileira em moeda local, ainda veem espaço para ganhos, mas temem que eles possam ser limitados pelos desafios fiscais do país.

Os números refletem essa mudança de sentimento. Os títulos em dólar do Equador e do Peru, ambos com presidentes favoráveis ao mercado eleitos nos últimos anos, caíram mais de 3% nos últimos três meses. O declínio da euforia mostra a rapidez com que o capital político pode se deteriorar, lançando uma sombra sobre o Brasil. Se o próximo líder do país se concentrar em trabalhar com o Congresso e aprovar um orçamento muito mais enxuto, os ativos de risco brasileiros poderiam gerar retornos de dois dígitos nos próximos 12 meses, segundo Polina Kurdyavko, chefe de mercados emergentes da RBC BlueBay Asset Management. Mas se houver mais foco em outras prioridades políticas, o protesto pode ter uma duração relativamente curta.

Há alguns sinais de que o ímpeto político pode se traduzir em conquistas. Autoridades colombianas expressaram confiança de que sua proposta de reduzir o déficit fiscal em mais de quatro pontos percentuais até 2030 obterá apoio dos legisladores. Bolsonaro, se eleito, também se beneficiaria de um Congresso inclinado à direita, com seus aliados controlando mais de um terço do Senado a partir de 2027. Mas as dúvidas são consideráveis. No Peru, a popularidade da presidente Keiko Fujimori desabou poucos meses após o início de seu mandato, em meio a preocupações com a economia e a criminalidade. Na Argentina, a queda de popularidade de Javier Milei já está deixando os investidores apreensivos quase um ano antes da eleição presidencial, com os rendimentos dos títulos soberanos voltando a atingir dois dígitos em meio a preocupações com crescimento econômico desigual, um mercado de trabalho fraco e as consequências de suas medidas de austeridade.

Eamon Aghdasi, analista de dívida soberana da Grantham Mayo Van Otterloo & Co., resumiu a incerteza: "É muito cedo para concluir que os eleitores de toda a região estejam exigindo ortodoxia econômica ou reformas baseadas no mercado". Os investidores, disse ele, buscam uma combinação de melhor desempenho fiscal e estabilidade política, "e não acho que tenhamos evidências de nenhuma das duas ainda". O teste real virá nos próximos meses, quando os dados econômicos e as decisões políticas revelarão se esses líderes conservadores conseguem entregar as reformas que alimentaram a euforia inicial.

Existem riscos reais de que essa euforia inicial dê lugar à desilusão. Essas eleições foram 'eleições de mudança', mais sobre uma rejeição do status quo do que necessariamente um voto forte a favor de algo como austeridade fiscal.
— Matthew Graves, gestor de portfólio da PPM America
É muito cedo para concluir que os eleitores de toda a região estejam exigindo ortodoxia econômica ou reformas baseadas no mercado. Os investidores buscam uma combinação de melhor desempenho fiscal e estabilidade política, e não acho que tenhamos evidências de nenhuma das duas ainda.
— Eamon Aghdasi, analista de dívida soberana da Grantham Mayo Van Otterloo & Co.
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