A China vai precisar subir a escada por conta própria
No horizonte do século XXI, a inteligência artificial emergiu como o campo de batalha mais silencioso e mais decisivo entre as duas maiores potências do mundo. Os Estados Unidos avançam com o peso do capital privado e da inovação aberta, enquanto a China responde com a paciência de um Estado que planeja em décadas, não em trimestres. O que está em jogo não é apenas tecnologia — é a arquitetura do poder global nas próximas gerações.
- A corrida pela IA entre EUA e China se intensifica: americanos lideram em investimento privado com US$ 31 bilhões em 2023, quinze vezes mais do que a China recebeu no mesmo período.
- Pequim enfrenta um gargalo crítico: os bloqueios americanos à exportação de chips avançados ameaçam diretamente sua capacidade de desenvolver sistemas de IA de ponta.
- A China responde com força estatal — um fundo de US$ 27 bilhões para chips e um plano decenal em execução desde 2017 que já formou metade da elite global de pesquisadores em IA.
- A regulação chinesa sobre IA generativa, ao exigir alinhamento com 'valores socialistas', cria um paradoxo: o Estado que mais investe na tecnologia também é o que mais restringe sua inovação.
- O Brasil e países emergentes assistem à disputa de fora, ocupando posições periféricas no ranking global de prontidão para IA, sem investimentos capazes de mudar esse cenário.
A inteligência artificial tornou-se o novo palco de uma disputa antiga entre Estados Unidos e China. Do lado americano, Microsoft, Nvidia e OpenAI consolidaram uma liderança alimentada por capital privado abundante e pela explosão global do ChatGPT. Do lado chinês, Pequim traçou um plano de Estado que antecedeu o entusiasmo ocidental: desde 2017, a IA figura entre os sete domínios tecnológicos estratégicos do Partido Comunista Chinês, com metas de crescimento orçamentário em pesquisa de 7% ao ano e ambição declarada de liderar a tecnologia até 2030.
A China construiu vantagens reais. Em 2022, metade dos pesquisadores de elite global em IA eram chineses — um salto expressivo em relação aos 29% registrados em 2019. O mercado de 1,5 bilhão de consumidores e um ambiente regulatório permissivo para testes em larga escala — de reconhecimento facial a carros autônomos — transformaram o país em um laboratório vivo para novas tecnologias.
Mas os obstáculos são igualmente concretos. A dependência de semicondutores avançados, controlados pelos EUA e aliados, representa o principal gargalo. As restrições à exportação de chips, endurecidas pelo governo Biden em 2023, forçaram Pequim a reagir com seu maior fundo de financiamento para chips de ponta: US$ 27 bilhões previstos para 2024. Internamente, a regulação rígida sobre IA generativa — que exige alinhamento com valores socialistas — acabou desestimulando a inovação que o país tanto busca estimular.
A disparidade no investimento privado é reveladora: startups americanas receberam US$ 31 bilhões em 2023, contra uma fração disso na China. Mas Pequim compensa com recursos públicos e aposta em seu próprio ecossistema tecnológico — o grupo BATX e startups como 01.AI — que lançaram concorrentes diretos ao ChatGPT nos últimos dezoito meses. Para países como o Brasil, posicionado em 36º lugar no ranking de prontidão governamental para IA da Universidade de Oxford, a mensagem é clara: quem não entra nessa disputa agora, corre o risco de nunca mais alcançar quem entrou.
A corrida pela inteligência artificial está se tornando o novo teatro de uma velha disputa. Os americanos saíram na frente — Microsoft, Nvidia e OpenAI controlam o fluxo de investimento privado, e o sucesso explosivo do ChatGPT consolidou essa vantagem. Mas do outro lado do Pacífico, a China não aceitou ficar para trás. Pequim traçou um objetivo ambicioso: liderar a tecnologia de IA até 2030. E diferentemente de muitos planos governamentais que desaparecem em gavetas, este está sendo executado há quase uma década.
A estratégia chinesa repousa em alicerces sólidos. O país definiu metas públicas para IA em 2017, muito antes do mundo inteiro acordar para a importância da tecnologia. O Plano Quinquenal aprovado pelo Partido Comunista Chinês coloca a inteligência artificial entre os sete domínios tecnológicos estratégicos para o crescimento econômico. O orçamento nacional em pesquisa e desenvolvimento deve crescer 7% ao ano até 2025, com a meta de que a economia digital chegue a representar 10% do PIB chinês. Não é retórica — é planejamento de Estado com recursos alocados.
Uma das maiores vantagens competitivas da China está na formação de pesquisadores. Em 2019, 29% dos cientistas de alto nível trabalhando em IA no mundo eram chineses. Três anos depois, esse número saltou para metade da elite global que desenvolve a tecnologia, segundo dados do think tank MacroPolo. Com um mercado consumidor de 1,5 bilhão de pessoas e um ambiente regulatório que permite testes em larga escala — desde sistemas de reconhecimento facial até carros autônomos nas grandes cidades — a China criou um laboratório vivo para implementar novas tecnologias.
Mas a ambição esbarra em obstáculos concretos. O principal deles é a dependência de semicondutores avançados, que os Estados Unidos e seus aliados controlam e restringem. Em outubro do ano passado, o presidente Joe Biden apertou ainda mais as regras que bloqueiam a venda de chips para a China, com limitações específicas para aqueles usados em sistemas de IA. Os bloqueios começaram em 2022 e só se intensificaram. Em resposta, Pequim ampliou drasticamente seus investimentos em desenvolvimento de chips. Para 2024, o país prepara o lançamento de seu maior fundo de financiamento para chips de ponta: US$ 27 bilhões, segundo revelou a Bloomberg.
Outro obstáculo é menos tangível, mas igualmente decisivo: a regulação. A China aprovou no ano passado regras rígidas para inteligência artificial generativa — aquela que cria textos e imagens a partir de comandos. O texto prevê multas para empresas que criem serviços não alinhados aos "valores fundamentais do socialismo". O objetivo é controlar o tipo de conteúdo gerado, mas o efeito colateral foi desestimular a inovação. Enquanto isso, os Estados Unidos deixaram florescer um mercado de IA praticamente sem regulação, permitindo que empresas como OpenAI dominassem o segmento de grandes modelos de linguagem.
Essa diferença de abordagem explica a disparidade nos números de investimento privado. Em 2023, startups americanas de inteligência artificial receberam US$ 31 bilhões em aportes — 15 vezes o que foi investido na China. Mas a China compensa essa desvantagem com investimento governamental pesado. O país aposta em seu próprio clube de gigantes tecnológicas, o BATX (Baidu, Alibaba, Tencent e Xiaomi), além de startups como 4Paradigm e 01.AI. Todas lançaram, nos últimos 18 meses, concorrentes diretos ao ChatGPT.
O Brasil, enquanto isso, permanece como consumidor. Um estudo da Universidade de Oxford que avalia a disposição de governos para implementar IA posiciona o país em 36º lugar entre 193 nações. Os Estados Unidos lideram; a China aparece em 16º. Sem investimento consistente em pesquisa e desenvolvimento — bilhões de dólares, não milhões — países emergentes não conseguem sair da posição de espectadores. A disputa entre Washington e Pequim pela hegemonia em IA é também um aviso para o resto do mundo: quem não entra no jogo agora, fica de fora.
Notable Quotes
A China há muitos anos é tratada como a principal ameaça para a hegemonia americana. A inteligência artificial se torna uma das facetas dessa disputa— Luiza Nonato, pesquisadora doutora em Relações Internacionais pela USP
Foi aí, com a IA generativa, que a China perdeu o bonde. O rígido controle e regulamentação do partido comunista chinês desencorajaram a inovação e a experimentação— Dora Kaufman, professora da PUC-SP e autora de 'Desmistificando a Inteligência Artificial'
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a China espera até 2030 para liderar em IA? Não seria mais rápido?
Porque eles estão construindo alicerces. Não é só sobre ter o melhor modelo de linguagem amanhã — é sobre ter pesquisadores, infraestrutura, dados, independência em chips. Isso leva tempo.
Mas os americanos já estão anos à frente com o ChatGPT e tudo mais.
Verdade. Mas a China não está tentando copiar o que os EUA fizeram. Está tentando criar um caminho próprio, com vantagens que os americanos não têm — um mercado gigantesco, controle estatal, capacidade de testar em escala.
Então o bloqueio de chips pelos EUA é realmente um problema para eles?
É o maior. Sem chips avançados, você não treina modelos de IA sofisticados. Por isso a China está investindo US$ 27 bilhões em desenvolvimento de chips próprios. É uma corrida contra o tempo.
E por que a regulação chinesa sobre conteúdo está atrapalhando?
Porque inovação precisa de liberdade para experimentar, errar, tentar coisas malucas. Quando você diz que o conteúdo precisa estar alinhado aos "valores do socialismo", você mata a criatividade. As startups americanas não têm esse problema.
O Brasil tem alguma chance nessa disputa?
Não como produtor de tecnologia. Mas pode aproveitar a IA como consumidor, como ferramenta. O problema é que sem investimento em pesquisa e desenvolvimento, o Brasil fica dependente de quem controla a tecnologia.
Então é um jogo de tudo ou nada?
Mais ou menos. Você pode ser um jogador importante sem ser o dono do jogo. Mas para ser dono, sim, é tudo ou nada.