A poucos dias de uma delegação turca visitar a base aérea síria de Abu al-Duhur para ajudar na sua reativação, Israel bombardeou-a em oito ataques noturnos — e os EUA responderam com uma condenação rara e direta ao seu aliado. O episódio revela uma fissura crescente entre Washington e Jerusalém sobre como interpretar a nova Síria: ameaça a neutralizar ou parceiro a cultivar. No fundo, o que está em jogo não é apenas uma pista de aviação danificada, mas a visão de quem tem o direito de definir a estabilidade no Médio Oriente.
EUA condenam ataques israelitas na Síria como "escalada desnecessária"
Escalada desnecessária que não contribui para a estabilidade regional
Por que é que os EUA se importam tanto com esta base aérea específica, se estava desativada há mais de uma década?
Porque não é realmente sobre a base. É sobre quem a está a reativar e o que isso significa para o equilíbrio de poder na região. A Turquia está a tentar expandir a sua influência na Síria, e Israel vê isso como uma ameaça. Os EUA veem-no como uma oportunidade de estabilização.
Mas Israel diz que o novo governo sírio é perigoso. Por que é que Washington discorda?
Porque o novo governo, até agora, não fez nada que justifique essa preocupação. Não mantém forças por procuração, não adotou uma postura agressiva. Barrack está a dizer: vejam os factos, não as suposições.
A fonte israelita sugeriu que o presidente sírio talvez não soubesse o que estava a acontecer. Isso muda alguma coisa?
Muda a narrativa, mas não a realidade. Se o governo sírio não sabia, isso é um problema de comunicação. Se sabia, é uma escolha deliberada. De qualquer forma, os EUA estão a dizer que não deveria haver bombardeamentos sem diálogo primeiro.
E os Montes Golã? Isso não é uma questão não resolvida?
Completamente. Israel ocupa-os desde 1967 e anexou-os. A maioria do mundo não reconhece essa anexação. É uma ferida aberta, e agora Israel está também a ocupar a zona desmilitarizada da ONU. Tudo isto alimenta a tensão.
Então isto é sobre Israel tentar manter o controlo antes que a Síria se reorganize?
Exatamente. Israel quer garantir que a Síria não se torna forte o suficiente para ser uma ameaça, e que a Turquia não ganha demasiada influência. Os EUA querem que todos se sentem à mesa e falem.
Il Polso
- Israel bombardeou uma base aérea síria desativada há mais de uma década, dias após a chegada de militares turcos para a reativar — um sinal de que Ancara e Damasco se aproximam.
- Os EUA romperam com o silêncio habitual e classificaram os ataques como uma 'escalada desnecessária', colocando Washington em rota de colisão diplomática com Jerusalém.
- Israel não assumiu oficialmente a responsabilidade, mas confirmou ter alertado os americanos com antecedência — o que torna a condenação norte-americana ainda mais significativa.
- O novo governo sírio de Ahmed al-Sharaa rejeita a narrativa israelita, e o embaixador Barrack corrobora: Damasco não adota postura agressiva nem mantém milícias por procuração.
- A Jordânia e a Síria apelam à comunidade internacional para travar os ataques e questionar a ocupação israelita dos Montes Golã, reacendendo um debate jurídico e territorial de décadas.
- A tensão instala-se numa região já em reconfiguração, com Israel a ocupar a zona tampão da ONU desde a queda de Assad e a resistir à influência turca crescente na Síria.
A poucos dias de uma delegação turca visitar a base aérea síria de Abu al-Duhur para ajudar na sua reativação, Israel bombardeou-a em oito ataques noturnos — e os EUA responderam com uma condenação rara e direta ao seu aliado. O episódio revela uma fissura crescente entre Washington e Jerusalém sobre como interpretar a nova Síria: ameaça a neutralizar ou parceiro a cultivar. No fundo, o que está em jogo não é apenas uma pista de aviação danificada, mas a visão de quem tem o direito de definir a estabilidade no Médio Oriente.
A base aérea de Abu al-Duhur, na província síria de Idlib, estava desativada desde 2012. Quando uma delegação militar turca chegou para ajudar na sua reativação, Israel respondeu com oito ataques aéreos na madrugada de 18 de agosto, danificando a pista sem causar vítimas.
A reação americana foi imediata e invulgar. Tom Barrack, embaixador dos EUA na Turquia e enviado especial de Trump para a Síria e o Iraque, classificou os bombardeamentos como uma 'escalada desnecessária que não contribui para a estabilidade regional'. Para Washington, o novo governo sírio liderado por Ahmed al-Sharaa é um parceiro potencial — não uma ameaça.
Israel não reivindicou os ataques, mas confirmou ter avisado os EUA com antecedência. Uma fonte israelita sugeriu que Damasco talvez não compreendesse as implicações da reativação da base. Barrack rejeitou essa leitura: o governo de Al-Sharaa não mantém forças por procuração e tem sinalizado repetidamente preferência pela desescalada. Os EUA, sublinhou, continuarão a promover diplomacia em vez de confrontação.
A Síria respondeu com um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, descrevendo os ataques como um 'ato de agressão injustificado' e uma violação da sua soberania. A Jordânia apelou à comunidade internacional para que obrigue Israel a cessar os ataques e a terminar a ocupação dos Montes Golã — território sírio sob controlo israelita desde 1967 e anexado unilateralmente, sem reconhecimento da maioria dos países.
O episódio insere-se numa reconfiguração mais ampla: após a queda de Assad, as forças israelitas entraram na zona tampão desmilitarizada da ONU e Israel tem procurado travar a influência turca na Síria. Mas a resposta americana revela uma divergência de fundo — entre quem vê a nova Síria como ameaça e quem a vê como oportunidade. Barrack encerrou o seu comunicado com um apelo ao diálogo. Essa frase resume tudo.
A base aérea de Abu al-Duhur fica a apenas 70 quilómetros da fronteira turca, na província síria de Idlib. Estava desativada desde 2012, transformada num centro de treino do exército sírio. Dias depois de uma delegação militar turca chegar para ajudar na sua reativação, Israel bombardeou-a. Oito ataques aéreos na madrugada de 18 de agosto danificaram a pista, mas não deixaram vítimas.
Os EUA condenaram imediatamente a ação. Tom Barrack, embaixador norte-americano na Turquia e enviado especial do presidente Donald Trump para a Síria e o Iraque, escreveu na rede social X que os bombardeamentos constituem uma "escalada desnecessária que não contribui para a estabilidade regional". A mensagem era clara: Washington vê o novo governo sírio, liderado pelo ex-rebelde Ahmed al-Sharaa, como um parceiro potencial, não como uma ameaça.
Israel não reivindicou oficialmente os ataques, mas uma fonte israelita confirmou à Fox News que os EUA foram alertados com antecedência, em "escalões altamente sensíveis" das várias agências. A mesma fonte sugeriu que o presidente sírio talvez não compreendesse as implicações da reativação da base ou desconhecesse o que estava a acontecer. Mas Barrack rejeitou essa narrativa. O governo de Al-Sharaa, escreveu, não adotou uma "postura predatória" nem mantém forças por procuração. Pelo contrário, tem indicado repetidamente preferência pela desescalada com Israel. Os EUA, acrescentou, continuarão a promover diplomacia em vez de confrontação militar entre as duas nações.
A Síria respondeu com um comunicado oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros, descrevendo os ataques como um "ato de agressão injustificado" e uma "violação flagrante da soberania e integridade territorial". A Jordânia fez eco da mesma linguagem, apelando à comunidade internacional para que obrigue Israel a cessar os ataques e termine a ocupação de parte do território sírio. Esse apelo refere-se aos Montes Golã, ocupados por Israel desde 1967 e anexados unilateralmente — uma anexação que a maioria da comunidade internacional não reconhece.
O contexto mais amplo é o de uma região em reconfiguração. Após a queda do regime de Assad, as forças israelitas entraram na zona tampão desmilitarizada da ONU que separava sírios e israelitas desde o cessar-fogo de 1974, estabelecendo posições militares nessa área. Israel tem procurado impedir o fortalecimento da influência turca na Síria, e os bombardeamentos de Abu al-Duhur parecem fazer parte dessa estratégia. Mas a resposta americana sugere que Washington vê as coisas de forma diferente: não como uma ameaça existencial, mas como uma oportunidade de estabilização através do diálogo. O embaixador Barrack terminou o seu comunicado com um apelo: que todas as partes privilegiem o diálogo em detrimento de novos incidentes militares. Essa frase resume a divergência entre Washington e Jerusalém sobre como gerir a nova realidade síria.
Citazioni salienti
O governo de Al-Sharaa não adotou uma postura predatória nem mantém forças por procuração. Na verdade, tem indicado repetidamente uma preferência pela desescalada com Israel.— Tom Barrack, embaixador dos EUA na Turquia
Ato de agressão injustificado, violação flagrante da soberania e integridade territorial da Síria e escalada perigosa que ameaça a segurança e a estabilidade na região.— Ministério dos Negócios Estrangeiros da Síria