EUA aprovam Leqembi, primeiro remédio que desacelera Alzheimer, mas com ressalvas

Aproximadamente 6 milhões de pessoas nos EUA têm Alzheimer, uma doença que gradualmente compromete memória, raciocínio, comunicação e capacidade de realizar tarefas diárias.
Retarda consideravelmente, mas cinco meses é tudo que temos
O medicamento oferece um atraso modesto na progressão do Alzheimer, deixando médicos e pacientes a questionar se o benefício justifica os riscos.
Mark

Então a FDA aprovou um medicamento que retarda o Alzheimer em cinco meses. Isso é realmente uma vitória?

Mimi

Depende de como você mede vitória. Para uma doença que não tem cura e que progressivamente rouba a memória e a independência das pessoas, qualquer retardo é significativo. Mas o número sozinho não conta a história completa.

Luke

Certo — porque em uma escala de 18 pontos, a diferença foi de menos de meio ponto. Alguns pesquisadores dizem que isso está abaixo do que seria clinicamente significativo.

Mimi

Exatamente. E há o custo: US$ 26,5 mil por ano, infusões duas vezes por mês, e efeitos colaterais graves em uma parcela considerável dos pacientes.

Mark

Que tipo de efeitos colaterais estamos falando?

Mimi

Inchaço cerebral em 13% dos pacientes, pequenos sangramentos em 17%. Na maioria dos casos não causaram sintomas, mas alguns pacientes morreram enquanto tomavam a droga.

Luke

A Eisai disse que as mortes não podem ser atribuídas ao medicamento. Isso é importante notar — não há confirmação de causalidade direta.

Mark

Mas por que a FDA aprovou se os benefícios são tão modestos?

Mimi

Usou um atalho burocrático que permite aprovação com base em resultados iniciais. É controverso, especialmente depois que a FDA aprovou um medicamento similar chamado Aduhelm em 2021, que depois foi marcado por irregularidades.

Luke

E o Aduhelm essencialmente fracassou no mercado porque o Medicare restringiu severamente a cobertura. Então o grande teste agora é se o Medicare cobrirá o Leqembi.

Mark

Isso pode fazer ou desfazer o medicamento?

Mimi

Completamente. Se o Medicare não cobrir, a maioria dos pacientes não terá acesso. Se cobrir, muda tudo.

Luke

E ainda há a questão fundamental: mesmo que tecnicamente retarde a doença, os pacientes realmente notarão a diferença? Um pesquisador da Vanderbilt disse que a maioria não notará.

  • O Leqembi é o primeiro medicamento a retardar comprovadamente o Alzheimer, mas sua eficácia é tão pequena que muitos especialistas questionam se os pacientes sequer perceberão a diferença.
  • Efeitos colaterais sérios — inchaço cerebral em 13% e sangramentos em 17% dos participantes do estudo — lançam sombra sobre o entusiasmo inicial, com mortes relatadas entre usuários.
  • O preço anual de US$ 26,5 mil e a ausência de cobertura confirmada pelo Medicare ameaçam repetir o fracasso comercial do Aduhelm, medicamento similar que teve seu mercado praticamente eliminado.
  • Pacientes como Betsy Groves, diagnosticada com Alzheimer aos 71 anos, declaram estar dispostos a assumir os riscos — para eles, mesmo cinco meses a mais de lucidez têm peso imenso.

Pela primeira vez na história do tratamento do Alzheimer, um medicamento demonstrou capacidade de retardar — ainda que modestamente — o avanço de uma doença que afeta cerca de 6 milhões de americanos. A aprovação do Leqembi pela FDA, em janeiro de 2023, representa menos uma cura do que um primeiro passo hesitante: um atraso de cinco meses no declínio cognitivo, conquistado ao custo de US$ 26,5 mil por ano e riscos neurológicos reais. A humanidade avança, mas com cautela, diante de uma das condições mais devastadoras do envelhecimento.

Na sexta-feira, 6 de janeiro de 2023, a FDA aprovou o Leqembi, desenvolvido pela japonesa Eisai em parceria com a Biogen, marcando um momento inédito: pela primeira vez, um medicamento demonstrou de forma convincente a capacidade de retardar o declínio cognitivo causado pelo Alzheimer. O remédio age limpando do cérebro a proteína amiloide, associada à doença, e é indicado para casos leves ou em estágio inicial.

Os resultados, porém, são modestos. Em um estudo com 1.800 pacientes acompanhados por 18 meses, o Leqembi produziu uma diferença de menos de meio ponto em uma escala de 18 pontos — o equivalente a um atraso de pouco mais de cinco meses na progressão da doença. A neurologista Joy Snider ilustrou o impacto prático: alguém pode ter mais seis meses a um ano de capacidade para dirigir. Já o pesquisador Matthew Schrag foi mais cético, afirmando que a melhoria provavelmente está abaixo do limiar clinicamente significativo e que a maioria dos pacientes não notará a diferença.

O custo é alto em mais de um sentido. O tratamento anual custa US$ 26,5 mil, exige infusões duas vezes por mês e apresenta riscos sérios: inchaço cerebral em 13% dos pacientes e pequenos sangramentos em 17%. Alguns usuários morreram durante o estudo, embora a Eisai conteste a relação com o medicamento. A FDA recomendou cautela especial para pacientes que usam anticoagulantes.

A aprovação foi concedida por meio de um atalho regulatório, o que reacendeu críticas após o escândalo do Aduhelm — medicamento similar aprovado em 2021 contra o parecer dos próprios especialistas da FDA, em meio a irregularidades documentadas pelo Congresso americano. O mercado do Aduhelm foi essencialmente destruído pela recusa de médicos e seguradoras.

O futuro do Leqembi depende agora da decisão do Medicare sobre cobertura. Enquanto isso, pacientes como Betsy Groves, ex-professora de Harvard diagnosticada em 2021, já declararam que tomarão o medicamento assim que possível. Para quem enfrenta uma doença sem outras saídas, cinco meses a mais de memória e autonomia podem valer qualquer risco.

Na sexta-feira, 6 de janeiro, a agência reguladora americana FDA aprovou o Leqembi, um medicamento que marca um ponto de virada na história do tratamento do Alzheimer. Pela primeira vez, há uma droga que demonstra, de forma convincente, a capacidade de retardar o declínio da memória e do pensamento — os sintomas que definem a doença. Mas essa aprovação vem carregada de ressalvas que deixam médicos, pacientes e seguradoras em posição delicada.

O Leqembi, desenvolvido pela empresa japonesa Eisai em parceria com a americana Biogen, funciona limpando uma proteína cerebral pegajosa chamada amiloide, característica do Alzheimer. A aprovação foi específica: o medicamento é indicado para pessoas com doença leve ou em estágio inicial. Cerca de 6 milhões de americanos têm Alzheimer, e muitos milhões mais em todo o mundo enfrentam uma doença que gradualmente ataca as áreas do cérebro necessárias para memória, raciocínio, comunicação e tarefas cotidianas.

O que o medicamento realmente faz é modesto. Em um estudo com 1.800 pacientes acompanhados por 18 meses, aqueles que receberam Leqembi tiveram uma progressão mais lenta da doença — uma diferença de menos de meio ponto em uma escala de 18 pontos que mede capacidades cognitivas. Traduzido em tempo real, isso representa um atraso de pouco mais de cinco meses no declínio. Joy Snider, neurologista da Universidade de Washington em St. Louis, explicou que o medicamento não é uma cura e não impede que as pessoas piorem, mas retarda consideravelmente a progressão. Ela ofereceu um exemplo concreto: alguém pode ter mais seis meses a um ano para poder dirigir, por exemplo.

Mas há um custo. O medicamento custa aproximadamente US$ 26,5 mil (cerca de R$ 138,59 mil) por ano de tratamento típico. Requer infusões duas vezes por mês. E apresenta efeitos colaterais potencialmente graves: cerca de 13% dos pacientes no estudo tiveram inchaço do cérebro, e 17% tiveram pequenos sangramentos cerebrais. Na maioria dos casos, esses problemas não causaram sintomas imediatos, mas alguns usuários morreram enquanto tomavam a droga, incluindo dois que também usavam medicamentos para afinar o sangue. A Eisai afirmou que as mortes não podem ser atribuídas ao medicamento, mas a FDA advertiu os médicos a terem cautela ao prescrever Leqembi para pacientes que tomam anticoagulantes.

Matthew Schrag, pesquisador de neurologia da Vanderbilt University, questionou se a melhoria é sequer perceptível. "A maioria dos pacientes não notará a diferença", disse. "Este é realmente um efeito muito pequeno e provavelmente abaixo do limiar do que chamaríamos de clinicamente significativo." Schrag e outros pesquisadores acreditam que uma melhoria significativa exigiria pelo menos uma diferença de um ponto inteiro na escala — o dobro do que foi observado. Mesmo assim, ele reconheceu que "esse benefício leve e mensurável vale o alto preço dos efeitos colaterais que os pacientes podem experimentar?" Sua resposta foi direta: "Tenho sérias dúvidas."

A aprovação da FDA veio por meio de um atalho burocrático que permite o lançamento de medicamentos com base em resultados iniciais, antes de confirmar que beneficiam os pacientes. Essa abordagem tem sido alvo de críticas crescentes. Na semana anterior à aprovação do Leqembi, um relatório do Congresso americano constatou que a aprovação anterior da FDA para o Aduhelm — um medicamento similar também das empresas Biogen e Eisai — estava "cheia de irregularidades", incluindo reuniões com funcionários de empresas farmacêuticas que não foram documentadas. O FDA aprovou o Aduhelm em 2021 contra o conselho de seus próprios especialistas externos. Médicos hesitaram em prescrever o medicamento e as seguradoras restringiram a cobertura, essencialmente eliminando seu mercado nos Estados Unidos.

O sucesso do Leqembi dependerá agora de uma decisão crucial: a cobertura do Medicare, o plano de saúde federal que cobre 60 milhões de idosos e outros americanos. Ivan Cheung, CEO da Eisai nos EUA, disse que a empresa já passou meses discutindo os dados com funcionários do Medicare. A cobertura não é esperada até que o FDA confirme o benefício do medicamento, provavelmente ainda em 2023. "Assim que tivermos uma decisão sobre o Medicare, poderemos realmente lançar o medicamento em todo o país", afirmou.

Betsy Groves, de 73 anos, de Cambridge, Massachusetts, foi diagnosticada com Alzheimer em 2021. Ex-professora da escola de educação de Harvard, percebeu que estava tendo problemas para lembrar nomes de alunos e responder a perguntas. Seu diagnóstico foi confirmado por um teste positivo para amiloide. Ela diz estar "mais do que disposta" a experimentar o Leqembi, apesar dos possíveis efeitos colaterais e da necessidade de infusões. "Para mim, no minuto em que o medicamento chegar ao mercado — e eu obtiver a aprovação do meu médico — vou tomá-lo", afirmou. Sua disposição reflete a realidade de quem enfrenta uma doença progressiva sem outras opções: mesmo um atraso de cinco meses pode parecer valioso.

Esta droga não é uma cura. Isso não impede que as pessoas piorem, mas retarda consideravelmente a progressão da doença
— Joy Snider, neurologista da Universidade de Washington em St. Louis
A maioria dos pacientes não notará a diferença. Este é realmente um efeito muito pequeno e provavelmente abaixo do limiar do que chamaríamos de clinicamente significativo
— Matthew Schrag, pesquisador de neurologia da Vanderbilt University
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