Etanol caro não reduz preço da gasolina em quase todo o Brasil

Etanol vantajoso apenas em um estado; gasolina mais barata em 26
Levantamento da Ticket Log mostra que consumidor só economiza abastecendo com etanol no Mato Grosso durante entressafra.
Mark

Por que a lei obriga 27% de etanol na gasolina se o etanol fica tão caro que ninguém quer usar?

Mimi

A lei tem dois objetivos: reduzir a dependência de petróleo importado e economizar dinheiro do consumidor. Funciona quando há oferta de cana-de-açúcar. Mas em janeiro de 2023, o Brasil estava em entressafra, e a oferta caiu drasticamente.

Luke

Espera aí. Esse 27% é obrigatório, certo? Então o consumidor já está usando etanol, só que misturado na gasolina. O que muda é se ele abastece com etanol puro nos postos.

Mimi

Exatamente. O etanol anidro na gasolina é diferente do hidratado vendido puro, mas ambos vêm da mesma cana. Quando a cana fica cara, os dois ficam caros.

Mark

E por que apenas Mato Grosso tinha etanol mais barato?

Mimi

Porque o preço do etanol em Mato Grosso era R$ 3,822 por litro, enquanto em São Paulo era R$ 3,976 e em outros estados chegava a R$ 5,187. Mas mesmo em Mato Grosso, a vantagem era pequena: R$ 0,450 por quilômetro contra R$ 0,472 da gasolina.

Luke

Mas isso é uma margem muito fina. Pequenas variações de preço entre postos poderiam mudar o resultado. Os dados da Ticket Log refletem preços médios, certo?

Mimi

Sim, são preços médios da primeira quinzena de janeiro. Havia variações entre postos, mas a tendência geral era clara: etanol caro em quase todo lugar.

Mark

Quando isso muda?

Mimi

Douglas Pina disse que entre fevereiro e março, com o início da nova safra, a oferta aumentaria e os preços cairiam. O etanol voltaria a ser competitivo.

Luke

Mas isso é uma previsão baseada em padrões históricos, não em dados confirmados. A safra poderia ter problemas, ou a demanda poderia ser maior que o esperado.

Mimi

Verdade. É uma expectativa razoável, mas não uma garantia. O que sabemos é que em janeiro de 2023, o etanol era caro e pouco vantajoso.

  • O etanol acumulou alta de 12% desde outubro de 2022, enquanto a gasolina subiu apenas 1% no mesmo período, invertendo a equação que justifica a mistura obrigatória de 27% nos combustíveis.
  • Com carros consumindo 30% mais etanol do que gasolina, a vantagem de preço precisaria ser expressiva para compensar — e em quase todo o Brasil, ela simplesmente não existia.
  • Apenas o Mato Grosso escapou da inversão: lá, o etanol a R$ 3,82 o litro ainda saía mais barato por quilômetro rodado do que a gasolina a R$ 5,43.
  • Um reajuste de 7,47% anunciado pela Petrobras para as distribuidoras ainda não estava refletido nos preços médios, sinalizando que a pressão sobre o consumidor poderia se intensificar antes de melhorar.
  • O alívio tem data prevista: entre fevereiro e março, com o início da nova safra de cana, a oferta deve aumentar e os preços do etanol devem recuar, restaurando sua competitividade em mais estados.

No início de 2023, a entressafra da cana-de-açúcar inverteu a lógica que sustenta a política energética brasileira: o etanol, misturado por lei à gasolina para baratear o combustível e reduzir a dependência do petróleo, tornou-se mais caro do que a própria gasolina em 26 dos 27 estados. O que era para ser uma vantagem ao consumidor transformou-se, sazonalmente, em um ônus — lembrando que as grandes intenções das políticas públicas vivem à mercê dos ciclos da natureza.

A lei brasileira exige que toda gasolina comum contenha 27% de etanol — uma medida pensada para reduzir a dependência do petróleo e poupar dinheiro do consumidor. No início de 2023, porém, esse segundo objetivo havia desaparecido em quase todo o território nacional. O etanol ficou tão caro que compensava abastecer com ele em apenas um estado: Mato Grosso.

A causa era sazonal e direta. O Brasil estava em entressafra da cana-de-açúcar: a colheita havia terminado, a oferta caiu e os preços subiram nas usinas e nos postos. Em dezembro de 2022, o etanol já havia subido 0,6% enquanto a gasolina recuava 1,1%. Na primeira quinzena de janeiro, o etanol disparou 2,74%, fechando a R$ 4,44 o litro, contra alta de 1,59% da gasolina, a R$ 5,35. Desde outubro, o etanol acumulava 12% de aumento; a gasolina, apenas 1%.

O problema se aprofunda quando se considera o consumo. Um carro roda cerca de 11,5 km com um litro de gasolina, mas apenas 8,5 km com etanol — uma diferença de 30%. Para que o etanol compensasse, seu preço teria de ser suficientemente menor para superar essa desvantagem. Em Mato Grosso, a conta fechava: etanol a R$ 3,82 o litro resultava em R$ 0,450 por quilômetro, contra R$ 0,472 da gasolina. Nos demais estados, a gasolina vencia com folga. No Pará, o etanol chegava a R$ 5,187 o litro — R$ 0,610 por quilômetro rodado.

A perspectiva de alívio existia, mas exigia paciência. Entre fevereiro e março, com o início da nova safra de cana, a oferta deveria aumentar e os preços recuar. Até lá, para a maioria dos brasileiros, abastecer com etanol era simplesmente a escolha mais cara.

A lei obriga que toda gasolina comum vendida no Brasil contenha 27% de etanol. O objetivo é duplo: reduzir a dependência de petróleo importado e, teoricamente, poupar dinheiro do consumidor no posto. Mas no início de 2023, esse segundo propósito desapareceu em quase todo o país. O etanol ficou tão caro que compensa abastecê-lo apenas em um estado: Mato Grosso.

O problema tem raiz simples. Tanto o etanol anidro misturado à gasolina quanto o etanol hidratado vendido puro nos postos vêm da mesma matéria-prima: a cana-de-açúcar. E naquele momento, o Brasil estava em entressafra. A colheita havia terminado, a oferta caiu, e os preços subiram nas usinas e nas bombas. Douglas Pina, diretor-geral de mobilidade da Edenred Brasil, explicou que essa redução sazonal da oferta empurra os preços para cima em todo o mercado. A empresa, dona da Ticket Log — uma gestora de frotas que fez o levantamento de preços para este levantamento — acompanhava diariamente o movimento dos combustíveis no Distrito Federal e em todos os estados.

Os números revelavam a dimensão do problema. Em dezembro de 2022, a gasolina havia recuado 1,1% em relação a novembro, enquanto o etanol subiu 0,6%. Na primeira quinzena de janeiro, ambos aceleraram para cima, mas o etanol disparou: fechou a R$ 4,44 por litro com alta de 2,74%, enquanto a gasolina subiu apenas 1,59% para R$ 5,35. Desde o primeiro de outubro, o etanol havia acumulado 12% de aumento; a gasolina, apenas 1%. E havia mais: a Petrobras havia anunciado um reajuste de 7,47% para a gasolina nas distribuidoras na última terça-feira, números que ainda não estavam refletidos nos preços médios do levantamento.

Mas por que o etanol mais caro não aparecia como vantagem em quase nenhum lugar? A resposta está no consumo. Um carro abastecido com etanol consome aproximadamente 30% mais combustível do que abastecido com gasolina. Um veículo típico roda 11,5 quilômetros com um litro de gasolina, mas apenas 8,5 quilômetros com um litro de etanol. Para que o etanol compensasse, sua vantagem de preço teria de superar essa desvantagem de consumo. No Mato Grosso, isso acontecia: o etanol custava R$ 3,822 por litro, resultando em R$ 0,450 por quilômetro rodado, enquanto a gasolina a R$ 5,433 por litro saía a R$ 0,472 por quilômetro. Uma diferença pequena, mas suficiente.

Em todos os outros 26 estados e no Distrito Federal, a gasolina vencia. Em São Paulo, o etanol a R$ 3,976 por litro custava R$ 0,468 por quilômetro, enquanto a gasolina a R$ 5,078 saía a R$ 0,442. No Rio de Janeiro, o etanol a R$ 4,628 por litro representava R$ 0,544 por quilômetro contra R$ 0,449 da gasolina. Até em Goiás, estado produtor de cana, o etanol a R$ 3,959 por litro custava R$ 0,466 por quilômetro, perdendo para a gasolina a R$ 0,450. No Pará, a situação era ainda mais extrema: o etanol chegava a R$ 5,187 por litro, custando R$ 0,610 por quilômetro rodado.

Pina oferecia uma perspectiva de alívio. A entressafra duraria pouco. Entre fevereiro e março, quando começasse a próxima safra da cana-de-açúcar, a oferta aumentaria e os preços deveriam cair. O etanol voltaria a ser competitivo em mais estados. Mas naquele momento, no início de 2023, a realidade era clara: para a maioria dos brasileiros, abastecer com etanol era um luxo que não podiam se permitir.

Estamos no período de entressafra da cana, que resulta na diminuição da oferta do etanol no mercado e, como consequência, a elevação dos preços tanto nas usinas quanto nas bombas
— Douglas Pina, diretor-geral de mobilidade da Edenred Brasil
A oferta do etanol deve aumentar no mercado entre fevereiro e março, com o início da próxima safra da cana-de-açúcar, refletindo na redução do preço do combustível ao consumidor
— Douglas Pina, diretor-geral de mobilidade da Edenred Brasil
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