Num país de grande diversidade como o Brasil, uma análise de quase dez mil pessoas com idade média de 63 anos sugere que o adoecimento da memória e do raciocínio não depende apenas do acaso ou da idade. Pesquisadores da Universidade de São Paulo, a partir dos dados do ELSI-Brasil, identificaram doze fatores que estariam ligados a quase metade dos casos de demência no país, e entre eles estão condições que a sociedade ainda pode transformar. A mensagem que emerge é de que parte significativa desse destino se decide ao longo da vida, muito antes de qualquer sintoma aparecer.
Estudo da USP aponta baixa escolaridade, hipertensão e perda auditiva como principais fatores de demência no Brasil
A prevenção da demência precisa começar cedo
Por que esse estudo chama atenção?
Porque mostra, com dados de 9.412 brasileiros, que quase metade dos casos de demência, 48,2%, poderia ser evitada ou retardada se 12 fatores fossem controlados.
E quais pesam mais?
Baixa escolaridade, com 7,7%, hipertensão, com 7,6%, e perda auditiva, com 6,8%. Juntas, somam 22%.
Vale lembrar que são estimativas de um estudo, não uma garantia. "Poderia ser evitada" é um cenário hipotético: pressupõe controlar todos os fatores, e a própria autora admite que eliminá-los totalmente é impossível.
A diferença por raça tem alguma explicação no texto?
Entre brancos, a hipertensão vem primeiro. Entre negros e pardos, é a baixa escolaridade. A ordem muda, mas os três fatores são os mesmos.
E o texto não explica o porquê dessa diferença. Isso continua em aberto.
O que Suemoto propõe?
Políticas públicas com 12 alvos claros, priorizando os de maior peso quando faltarem recursos, e prevenção desde cedo, da escolaridade na infância à pressão e audição na meia-idade.
Ainda não sabemos quais políticas concretas seriam adotadas, nem seu custo.
Le Pouls
- Quase metade dos casos de demência no Brasil estaria ligada a doze fatores de risco, um número que transforma uma doença temida em algo com caminhos de contenção.
- Baixa escolaridade, hipertensão e perda auditiva lideram a lista e, juntas, explicam 22% dos casos, pedindo atenção imediata a desigualdades e à saúde básica.
- A ordem dos fatores muda conforme a cor da pele autodeclarada, revelando que o risco se distribui de forma desigual pela população.
- Pesquisadores defendem políticas públicas com metas claras e foco nos fatores de maior peso, diante de recursos limitados.
- A prevenção precisa começar cedo, já que alguns dos riscos surgem na infância e outros na meia-idade, antes de qualquer sinal da doença.
Num país de grande diversidade como o Brasil, uma análise de quase dez mil pessoas com idade média de 63 anos sugere que o adoecimento da memória e do raciocínio não depende apenas do acaso ou da idade. Pesquisadores da Universidade de São Paulo, a partir dos dados do ELSI-Brasil, identificaram doze fatores que estariam ligados a quase metade dos casos de demência no país, e entre eles estão condições que a sociedade ainda pode transformar. A mensagem que emerge é de que parte significativa desse destino se decide ao longo da vida, muito antes de qualquer sintoma aparecer.
Um grupo de 9.412 brasileiros, com idade média de 63 anos, de diferentes regiões, rendas e raças, foi a base de um estudo da Universidade de São Paulo sobre o que mais pesa no risco de demência no país. Os dados vêm do Estudo Longitudinal de Envelhecimento no Brasil, o ELSI-Brasil, e a pergunta era como as condições de vida influenciam o declínio cognitivo.
O resultado central é que 12 fatores de risco estariam ligados a 48,2% dos casos de demência. Segundo os autores, quase metade deles poderia ser evitada ou retardada se essas condições fossem controladas. A lista vai da baixa escolaridade à poluição do ar, passando por hipertensão, diabetes, perda auditiva, sedentarismo, depressão e isolamento social.
Três deles se destacam: baixa escolaridade (7,7% dos casos), hipertensão (7,6%) e perda auditiva (6,8%), que juntos respondem por 22%. A ordem muda conforme a autodeclaração de raça, e a baixa escolaridade ocupa o primeiro lugar entre pessoas negras e pardas.
A geriatra Claudia Kimie Suemoto, primeira autora, lembra que alguns fatores são modificáveis e que eliminá-los por completo é impossível. Para ela, as políticas públicas devem ter doze alvos claros e, quando os recursos forem escassos, concentrar-se nos de maior peso. Ela também alerta que os riscos começam cedo: a escolaridade pertence ao início da vida, enquanto hipertensão, perda auditiva e obesidade surgem na meia-idade. Por isso, a prevenção precisa começar bem antes dos primeiros sinais da doença.
Um grupo de 9.412 brasileiros, com idade média de 63 anos, moradores de diferentes regiões do país, de diversos níveis de renda e raças, serviu de base para um estudo da Universidade de São Paulo (USP) sobre o que mais pesa no risco de demência no Brasil. Os dados vêm do Estudo Longitudinal de Envelhecimento no Brasil, o ELSI-Brasil, e o objetivo da análise foi mapear como diferentes condições da vida dos brasileiros influenciam o declínio cognitivo.
O resultado central é que 12 fatores de risco, reconhecidos para doenças como o Alzheimer e para a deterioração cognitiva em geral, estariam ligados a 48,2% dos casos de demência no país. Segundo os autores, quase metade deles poderia ser evitada ou, ao menos, retardada se essas condições fossem controladas.
A lista inclui baixa escolaridade, sobretudo menos de oito anos de estudo, perda auditiva, hipertensão, obesidade, diabetes, consumo excessivo de álcool, lesões traumáticas no cérebro, sedentarismo, depressão, tabagismo, isolamento social e exposição à poluição atmosférica.
Dentro dessa lista, três itens se destacam. A baixa escolaridade aparece como o principal fator, associada a 7,7% dos casos. Em seguida vêm a hipertensão, com 7,6%, e a perda auditiva, com 6,8%. Somados, esses três fatores estariam por trás de 22% dos casos da doença no Brasil.
A ordem muda conforme a autodeclaração de raça. Entre pessoas que se declararam brancas, os três primeiros lugares foram ocupados por hipertensão, baixa escolaridade e perda auditiva, nessa sequência. Entre as que se declararam negras ou pardas, a baixa escolaridade ficou em primeiro, seguida de hipertensão e perda auditiva.
A primeira autora do estudo, a geriatra da USP Claudia Kimie Suemoto, ressalta que alguns desses fatores são modificáveis. Ela reconhece que eliminá-los por completo é impossível, mas afirma que as políticas públicas de prevenção da demência devem ter 12 alvos claros e que, quando os recursos forem escassos, o foco deve recair sobre os de maior peso.
Suemoto destaca ainda outra mensagem: os principais riscos aparecem cedo. A baixa escolaridade pertence ao início da vida, enquanto hipertensão, perda auditiva e obesidade surgem na meia-idade. Para a pesquisadora, isso mostra que a prevenção precisa começar cedo, bem antes de os primeiros sinais da doença.
Citations marquantes
É impossível eliminar totalmente esses fatores, mas as políticas de prevenção devem ter 12 alvos claros e, com poucos recursos, focar nos de maior importância.— Claudia Kimie Suemoto, geriatra da USP e primeira autora do estudo