Em meio à corrida global contra variantes do coronavírus, pesquisadores da Fiocruz e de instituições internacionais publicaram na Nature Communications uma resposta científica a uma das maiores dúvidas de 2021: a vacina AstraZeneca, desenvolvida contra a cepa original de Wuhan, ainda protegeria idosos diante da variante Gama? Os dados coletados em São Paulo — onde a Gama chegou a representar mais de 80% dos casos — revelaram que sim, mas apenas com o esquema completo: duas doses elevam a proteção contra morte para 93,6%, lembrando à humanidade que a eficácia de uma ferramenta depende do compro
Estudo confirma: AstraZeneca protege 93,6% contra mortes pela variante Gama
Com duas doses, a efetividade é extremamente elevada contra óbito
Por que esse estudo importa agora, em outubro de 2021? Não temos outras vacinas?
Importa porque a AstraZeneca foi a vacina mais aplicada no Brasil até esse momento. Milhões de pessoas a receberam. Precisávamos saber se ela ainda funcionava contra a Gama, que era a variante dominante.
Mas o estudo foi feito em São Paulo. Os números valem para o resto do país?
É uma limitação, sim. Mas São Paulo é o estado mais populoso, passou por três ondas da epidemia. Os pesquisadores escolheram um lugar com muitos dados.
E quanto à primeira dose? 33,4% de proteção parece baixo.
É baixo comparado aos 76% contra a variante original. Mas Croda deixa claro que isso está acontecendo em todo o mundo com as novas variantes. A boa notícia é que a segunda dose muda tudo.
Ele diz que a segunda dose "muda tudo", mas quanto tempo leva? Catorze dias? Isso é muito tempo se a pessoa está exposta.
Sim, catorze dias após a segunda dose. Antes disso, a proteção é menor. Por isso o alerta sobre os 540 mil paulistas que não completaram o esquema.
Ele menciona a Delta. Temos dados sobre ela?
Não, não ainda. Ele diz que precisa de mais dois ou três meses de circulação predominante para avaliar. Mas observa que o Rio, epicentro da Delta, está vendo redução de mortes.
Isso é observação, não é dado. Ele está inferindo que a vacina funciona contra Delta porque as mortes caem, mas não testou especificamente.
Exato. É uma extrapolação razoável, mas não é a mesma coisa que ter números como os que tem para a Gama.
Então o recado é: tome as duas doses?
É exatamente isso. Uma dose não é suficiente contra a Gama. Duas doses oferecem proteção de 93,6% contra morte.
O Pulso
- A variante Gama reduziu drasticamente a proteção da primeira dose contra doença sintomática — de 76% contra a cepa original para apenas 33,4% —, acendendo um alerta sobre a vulnerabilidade de quem não completou a vacinação.
- Em São Paulo, cerca de 540 mil pessoas que já deveriam ter recebido a segunda dose simplesmente não apareceram, deixando uma brecha perigosa na barreira coletiva contra o vírus.
- A segunda dose reverteu o cenário: a proteção contra hospitalização saltou de 55,1% para 87,6%, e contra morte chegou a 93,6%, um aumento de quase 32 pontos percentuais.
- Pesquisadores de cinco instituições — incluindo Fiocruz, USP e a OPAS — uniram dados para gerar evidências robustas sobre uma vacina amplamente usada em países em desenvolvimento, onde a ciência local precisa falar mais alto.
- Com a variante Delta já circulando no Brasil, os cientistas alertam: será preciso aguardar meses para uma avaliação tão sólida quanto a feita com a Gama, mas os sinais iniciais são encorajadores.
Em meio à corrida global contra variantes do coronavírus, pesquisadores da Fiocruz e de instituições internacionais publicaram na Nature Communications uma resposta científica a uma das maiores dúvidas de 2021: a vacina AstraZeneca, desenvolvida contra a cepa original de Wuhan, ainda protegeria idosos diante da variante Gama? Os dados coletados em São Paulo — onde a Gama chegou a representar mais de 80% dos casos — revelaram que sim, mas apenas com o esquema completo: duas doses elevam a proteção contra morte para 93,6%, lembrando à humanidade que a eficácia de uma ferramenta depende do compromisso de usá-la inteiramente.
Um estudo publicado na revista Nature Communications trouxe respostas concretas a uma dúvida que inquietava autoridades sanitárias: a vacina AstraZeneca, produzida pela Fiocruz, ainda seria capaz de proteger idosos diante da variante Gama? A pesquisa, coordenada pelo cientista Julio Croda, analisou dados do estado de São Paulo durante o período em que a Gama chegou a representar 80,2% de todos os casos detectados — um cenário que tornava o teste ainda mais exigente.
Os resultados mostraram uma divisão clara entre quem recebeu apenas a primeira dose e quem completou o esquema. Com uma dose, a proteção contra doença sintomática causada pela Gama caía para 33,4% — bem abaixo dos 76% observados contra a variante original. Croda reconheceu a queda, mas a contextualizou: o mesmo fenômeno estava sendo registrado em todo o mundo com outras variantes de preocupação.
A segunda dose mudava tudo. A proteção contra doença sintomática subia para 77,9%, contra hospitalização chegava a 87,6% e, no desfecho mais grave — a morte —, atingia 93,6%. Esses números confirmavam que o esquema completo funcionava mesmo diante de uma cepa tão distinta da original.
O problema era prático: aproximadamente 540 mil paulistas que já deveriam ter tomado a segunda dose ainda não haviam retornado aos postos de saúde. Croda pediu esforço para localizar esses faltosos, sublinhando que idosos, por suas particularidades imunológicas, precisavam especialmente das duas doses para alcançar proteção sólida.
O estudo também lançou um olhar cauteloso sobre a variante Delta, que começava a circular no Brasil. Observando sinais positivos no Rio de Janeiro — epicentro inicial da Delta, mas com tendência de queda em hospitalizações —, Croda sugeriu que a vacina continuava eficaz, embora fossem necessários mais meses de dados para uma conclusão tão robusta quanto a obtida com a Gama. A mensagem central permanecia a mesma: sem as duas doses, a proteção é insuficiente; com elas, a vacina segue sendo um escudo confiável.
Pesquisadores da Fiocruz e de instituições internacionais publicaram na revista Nature Communications um estudo que traz notícias animadoras sobre a capacidade da vacina AstraZeneca de proteger idosos contra a variante Gama do coronavírus. A pesquisa, coordenada pelo cientista Julio Croda, analisou dados de São Paulo — o estado mais populoso do Brasil, que acumulou mais de 3,89 milhões de casos confirmados e 130 mil mortes até julho de 2021 — durante um período em que a Gama chegou a representar 80,2% de todos os casos detectados.
O trabalho respondeu a uma pergunta que preocupava autoridades de saúde: uma vacina desenvolvida e testada contra a variante original do vírus, identificada em Wuhan, continuaria oferecendo proteção robusta quando enfrentasse uma cepa completamente diferente? A resposta, segundo os dados, é sim — mas com uma ressalva importante. Nos primeiros 28 dias após a primeira dose, a efetividade contra a doença sintomática causada pela Gama caiu para 33,4% entre pessoas com mais de 60 anos. Isso representava uma queda significativa em relação aos 76% de proteção que a primeira dose oferecia contra a variante original. Croda reconheceu essa redução, mas a contextualizou: o mesmo padrão estava sendo observado em todo o mundo com outras variantes de preocupação, como Beta e Delta.
O ponto decisivo do estudo, porém, estava na segunda dose. Catorze dias após receber o segundo imunizante, a proteção contra doença sintomática saltava para 77,9%. Contra hospitalização, o salto era ainda mais dramático: de 55,1% para 87,6%. E quando o desfecho era morte, a proteção atingia 93,6% — um aumento de quase 32 pontos percentuais em relação à primeira dose sozinha. Esses números, segundo Croda, demonstravam que o esquema completo funcionava mesmo diante de uma variante tão diferente da original.
Mas havia um problema prático. Em São Paulo, aproximadamente 540 mil pessoas que já deveriam ter recebido a segunda dose ainda não haviam comparecido aos postos de saúde — um número equivalente a 6,3% da população que já estava totalmente imunizada. Croda enfatizou a necessidade urgente de encontrar esses faltosos e garantir que completassem o esquema vacinal. Ele apontou que os idosos enfrentam desafios específicos de imunidade relacionados ao envelhecimento, mas que mesmo assim, com as duas doses, a proteção era sólida.
O pesquisador também ofereceu uma perspectiva sobre a variante Delta, que começava a circular no Brasil quando o estudo foi publicado. Observando que o Rio de Janeiro havia sido o epicentro da Delta mas apresentava tendência de redução em hospitalizações e mortes, Croda sugeriu que a vacina continuava funcionando contra essa cepa também. Ele ressalvou, porém, que seria necessário aguardar mais dois ou três meses de predominância da Delta para fazer uma avaliação tão robusta quanto a que havia sido feita com a Gama.
O estudo reuniu pesquisadores de múltiplas instituições: além da Fiocruz, participaram cientistas da Universidade da Flórida, do Instituto Global de Saúde de Barcelona, da Universidade de São Paulo e da Organização Pan-americana de Saúde. Essa colaboração internacional refletia a importância de gerar evidências sobre uma vacina que havia sido amplamente distribuída no Brasil e em outros países em desenvolvimento. Os dados não apenas confirmavam que a AstraZeneca continuava sendo uma ferramenta eficaz contra a Covid-19, mas também reforçavam uma mensagem clara: a imunização completa era essencial. Sem as duas doses, a proteção era insuficiente. Com elas, mesmo diante de uma variante tão diferente quanto a Gama, a vacina oferecia proteção próxima a 94% contra morte.
Citações Notáveis
Mesmo no contexto da circulação da Gama, o esquema vacinal completo garante uma boa proteção. Daí a necessidade de buscar os faltosos, encontrar todo mundo que não completou o esquema vacinal e garantir que tomem as duas doses.— Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e coordenador do estudo
A boa notícia é que, com duas doses, essa efetividade é extremamente elevada contra o óbito. Chega a quase 94%. Então, são dados muito positivos, mostrando que a vacina da Fiocruz continua funcionando, inclusive no contexto de uma nova variante, a Gama.— Julio Croda