Deputadas de esquerda como Erika Hilton e Jandira Feghali lideram debate sobre preservação de mídia física e direitos do consumidor em games, área antes dominada pela direita. Streamers brasileiros se afastaram de Bolsonaro após pandemia, mas mantêm distância de apoio explícito a Lula, revelando comunidade gamer menos polarizada que a narrativa política sugere.
Esquerda disputa espaço gamer historicamente ligado à direita e Bolsonaro
A esquerda ocupa muito mal porque ninguém sabe do que está falando
Por que a esquerda está entrando agora nessa pauta de games? Parece vir do nada.
Não é do nada. A esquerda sempre teve interesse em política pública para o setor — o edital JogosBR em 2004 prova isso. Mas agora há duas coisas: primeiro, os streamers se afastaram de Bolsonaro, então o espaço ficou aberto. Segundo, há pautas concretas — mídia física, proteção do consumidor — que precisam de atenção legislativa.
Mas espera. Esses streamers se afastaram de Bolsonaro, mas não abraçaram Lula. Casimiro disse que não faria "o L". Alanzoka disse que Lula era "ruim demais" mas o outro era pior. Isso é rejeição, não abertura.
Verdade. Mas a rejeição a Bolsonaro é real. E a esquerda está tentando ocupar o espaço com projetos de lei, não com apelo emocional.
Os pesquisadores dizem que a esquerda está ocupando mal essa pauta. O que significa?
Significa que os deputados que estão tocando essas pautas não são gamers. Não têm conexão real com a cultura. Erika Hilton e Jandira Feghali estão fazendo um trabalho legislativo importante, mas não vêm de dentro da comunidade.
E isso importa? Quer dizer, um deputado precisa ser gamer para legislar sobre games?
Não precisa ser, mas a comunidade sente quando não há autenticidade. Kim Kataguiri tem 4.300 horas em Dota 2. Ele fala a língua. Quando alguém de fora tenta falar, percebem.
Então a esquerda está perdendo essa disputa?
Não está claro. Lula aproveitou o Marco Legal dos Games — que é de autoria de Kataguiri, da direita — e colocou na sua plataforma. Isso é apropriação política, não é perda.
Mas há um problema maior agora. O governo Lula está desagradando o setor. Ana Moser disse que esporte eletrônico não é esporte. Lula falou que games ensinam a molecada a matar. E agora a ANPD quer tirar o Discord do ar.
Por causa daquele caso da menina de 13 anos?
Sim. Ela foi induzida ao suicídio em transmissão ao vivo. É um problema real. Mas para a comunidade gamer, parece que o governo está criminalizando a plataforma inteira.
Então a esquerda ganhou espaço, mas pode estar perdendo apoio por causa de ações do governo. Isso é irônico.
É. E os marqueteiros provavelmente perceberam isso. Por isso ficaram tímidos em acenar para games agora.
El Pulso
- Deputadas Erika Hilton e Jandira Feghali lideram projetos sobre mídia física e proteção do consumidor em games
- Sony planeja eliminar mídia física para novos lançamentos de PlayStation a partir de 2028
- Streamers como Gaules e FalleN se afastaram de Bolsonaro após pandemia, mas mantêm distância de apoio explícito a Lula
- Lula lançou cartilha 'Lula Play' em 2022 com 32 páginas de propostas para o setor de games
- Uma jovem de 13 anos morreu após ser induzida ao suicídio em transmissão ao vivo no Discord
Deputadas de esquerda como Erika Hilton e Jandira Feghali lideram debate sobre preservação de mídia física e direitos do consumidor em games, área antes dominada pela direita. Streamers brasileiros se afastaram de Bolsonaro após pandemia, mas mantêm distância de apoio explícito a Lula, revelando comunidade gamer menos polarizada que a narrativa política sugere.
A esquerda brasileira avança sobre pautas relacionadas a videogames e indústria de jogos, historicamente associadas à direita e a Bolsonaro, com deputadas apresentando projetos sobre mídia física e proteção do consumidor.
A relação entre Jair Bolsonaro e os jogadores brasileiros esfriou há tempos. Agora é a esquerda que tenta conquistar esse espaço político, historicamente associado à direita e ao ex-presidente. O movimento revela uma disputa pela identidade de uma comunidade que nunca foi tão monolítica quanto a narrativa política sugeriu.
Uma das questões que mais mobiliza o setor de games atualmente diz respeito ao fim das mídias físicas. Fabricantes como a Sony planejam eliminar completamente os discos e cartuchos, migrando tudo para a nuvem. Para críticos, isso afeta não apenas o bolso do consumidor, mas também a preservação da memória dos videogames. No Congresso, foram deputadas de esquerda que tomaram a frente. Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, acionou a Secretaria Nacional do Consumidor e solicitou investigação contra a Sony após o anúncio de que deixará de produzir jogos em mídia física para novos lançamentos de PlayStation a partir de 2028. Jandira Feghali, do PC do B do Rio de Janeiro, apresentou projeto de lei para impedir que consumidores percam acesso a jogos que compraram, especialmente aqueles que dependem de servidores online para funcionar.
Isabela Kalil, pesquisadora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e coordenadora do Laboratório de Etnografia Digital, observa que a direita construiu uma narrativa de que ser gamer era ser de direita, mas essa identificação nunca correspondeu à realidade. "É uma disputa. E a esquerda nunca fez isso dessa mesma forma", afirma. Pedro Zambon, pesquisador e fundador da Savegame.dev, concorda que a esquerda está se abrindo mais ao tema e, atualmente, se posiciona com mais força nessa pauta do que a direita, que historicamente se apropriava da área de forma superficial.
Os maiores streamers brasileiros ilustram essa mudança. Gaules não apenas declarou apoio a Bolsonaro em 2018 como atuou como cabo eleitoral. Gabriel Toledo, conhecido como FalleN, chegou a conversar por telefone com o então presidente sobre impostos no setor. Mas a pandemia e a forma como Bolsonaro lidou com a Covid criaram uma distância. Do outro lado, porém, o apoio explícito a Lula permanece tímido. Casimiro Miguel disse em 2022 que votaria no petista, mas deixou claro que não faria "o L" por ele. Alanzoka declarou apoio com ressalvas, dizendo que o outro candidato era "ruim demais". Cellbit fez um "L" tímido com os dedos durante uma live em 2022, gesto que anos depois enfureceu o deputado Nikolas Ferreira.
Thiago Falcão, professor da Universidade Federal da Paraíba, aponta que a cultura e identidade gamer estão consolidadas, então é esperado que a esquerda tente ocupar essas pautas. Mas ocupa mal. "Ninguém sabe do que está falando. A verdade é essa. Não são pessoas ligadas à cultura gamer", diz. Kim Kataguiri, deputado com mais de 4.300 horas registradas em "Dota 2" e autor do projeto que resultou no Marco Legal dos Games, prevê que a investida da esquerda não gerará efeitos. "Parlamentares de esquerda não costumam jogar e entender o meio. Quando não há conexão real, a comunidade gamer rejeita por perceber a artificialidade."
Em termos de política pública, porém, a esquerda não é novata. Em 2004, o Ministério da Cultura de Gilberto Gil lançou o edital JogosBR, considerado marco para a indústria. Este ano, o PC do B apresenta Márcio Filho como candidato indiscutivelmente gamer, ex-presidente da Associação de Criadores de Jogos do Estado do Rio de Janeiro e auxiliar na formulação do projeto de Jandira Feghali. Paulo Teixeira, ex-ministro do PT que tenta reeleição, fez aceno claro à indústria há duas semanas ao postar conversa com o presidente da Abragames e CEO da Gamescom Latam sobre o potencial do Brasil na economia criativa.
Entre os presidenciáveis, Lula não apenas fala de games em seu plano de governo como toma para si os louros da aprovação do Marco Legal dos Games, projeto de autoria de Kataguiri. Em 2022, lançou a cartilha "Lula Play", documento de 32 páginas com propostas para o setor, completo com um joguinho em que Lula, transformado num Mario barbudo, coletava itens como pratos de comida, carteiras de trabalho e diplomas. A pesquisadora Érika Caramello, cofundadora da Rede Progressista de Games, foi convidada para reunião no Instituto Lula e entregou documento que não teve sequer uma vírgula alterada antes de ser publicado como plano de governo.
Mas o governo Lula 3 começou desagradando setores gamers. Em 2023, a então ministra do Esporte Ana Moser disse que esporte eletrônico não é esporte. Lula posteriormente afirmou que "não tem game falando de amor, de educação — é game ensinando a molecada a matar". Agora, próximo às eleições, a imagem do mundo gamer está sob tensionamento. A Agência Nacional de Proteção de Dados determinou que o Discord, plataforma popular entre gamers, suspendesse transmissões ao vivo. A primeira-dama Janja pediu que a rede fosse tirada do ar após a morte de uma jovem de 13 anos que teria sido induzida por outros adolescentes à automutilação e ao suicídio em cenas exibidas na plataforma. Thiago Falcão observa que marqueteiros provavelmente ficaram tímidos em acenar para algo que claramente representa um problema neste momento.
Citas Notables
A direita construiu uma identificação de que ser gamer era ser de direita, mas isso não corresponde à realidade. É uma disputa.— Isabela Kalil, pesquisadora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Parlamentares de esquerda não costumam jogar e entender o meio. Quando não há conexão real, a comunidade gamer rejeita por perceber a artificialidade.— Kim Kataguiri, deputado e autor do Marco Legal dos Games