Num laboratório em Valência, cientistas libertam semanalmente dezenas de milhares de mosquitos machos esterilizados por radiação, esperando que a natureza faça o resto: ao acasalarem com fêmeas selvagens sem produzir descendência, estes insectos tornam-se agentes involuntários de uma contenção silenciosa. A iniciativa responde a uma transformação mais profunda — as alterações climáticas estão a redesenhar o mapa das doenças tropicais, aproximando dengue, zika e chikungunya de cidades europeias que nunca os conheceram. Portugal, onde o mosquito-tigre-asiático já foi detectado em Lisboa, no Alga
Espanha esteriliza milhares de mosquitos-tigre para combater dengue
Os machos acasalam com as fêmeas, mas sem produzir descendência
Porque é que Espanha decidiu investir nesta tecnologia agora? Não existem outras formas de controlar mosquitos?
Existem, claro — inseticidas, armadilhas, remoção de água parada. Mas o mosquito-tigre-asiático é resistente a muitos inseticidas, e as populações estão a crescer tão rapidamente que os métodos tradicionais não conseguem acompanhar. A esterilização biológica é uma abordagem diferente: em vez de matar mosquitos, usa-os contra si mesmos.
Mas quanto tempo leva isto a funcionar? Estão a libertar 45.000 mosquitos por semana — isso é suficiente para fazer diferença numa população que pode ser muito maior?
Essa é a questão crítica. O laboratório está numa fase inicial. Não há ainda dados públicos sobre o impacto real nas populações selvagens. É uma aposta a longo prazo.
E se o mosquito continuar a espalhar-se mais depressa do que conseguem esterilizar?
Então terão de aumentar a escala significativamente. O laboratório já tinha experiência com outras pragas, mas aplicar isto ao mosquito-tigre-asiático em toda a Europa seria um desafio logístico enorme.
Há também a questão de saber se libertar milhares de mosquitos — mesmo que estéreis — é realmente seguro. Quem está a monitorizar isso?
Boa pergunta. O laboratório está financiado pelo governo regional, mas não há muita transparência pública sobre os protocolos de segurança ou monitorização contínua.
Então isto é mais uma esperança do que uma solução comprovada?
Por enquanto, sim. É uma ferramenta promissora, mas ainda experimental em larga escala. O que é certo é que o problema — o mosquito, a dengue, as alterações climáticas — não vai desaparecer sozinho.
Il Polso
- O mosquito-tigre-asiático já colonizou 13 países europeus e avança para norte, leste e oeste, carregando consigo o risco de doenças que a Europa considerava distantes.
- Os casos globais de dengue multiplicaram-se por oito desde 2000, atingindo 4,2 milhões em 2022 — um sinal de que a ameaça deixou de ser regional para se tornar sistémica.
- Em resposta, Valência criou um laboratório que produz 45.000 mosquitos machos estéreis por semana, numa aposta biotecnológica que transforma o próprio inimigo numa ferramenta de controlo.
- Portugal já identificou o insecto em Lisboa, Pombal, Algarve, Alentejo e Norte, e as autoridades de saúde apelam à prevenção activa antes que a presença se converta em surto.
Num laboratório em Valência, cientistas libertam semanalmente dezenas de milhares de mosquitos machos esterilizados por radiação, esperando que a natureza faça o resto: ao acasalarem com fêmeas selvagens sem produzir descendência, estes insectos tornam-se agentes involuntários de uma contenção silenciosa. A iniciativa responde a uma transformação mais profunda — as alterações climáticas estão a redesenhar o mapa das doenças tropicais, aproximando dengue, zika e chikungunya de cidades europeias que nunca os conheceram. Portugal, onde o mosquito-tigre-asiático já foi detectado em Lisboa, no Algarve e noutras regiões, observa este experimento espanhol como um espelho do que poderá vir a ser necessário.
Num laboratório financiado pelo governo regional de Valência, aquilo que parecia ficção científica tornou-se rotina semanal: 45.000 mosquitos machos da espécie Aedes albopictus — o mosquito-tigre-asiático — são esterilizados por radiação e libertados na natureza. A lógica é elegante na sua simplicidade: ao acasalarem com fêmeas selvagens sem produzirem descendência, estes machos reduzem gradualmente a população total do insecto e, com ela, o risco de transmissão de doenças como a dengue, o zika e o chikungunya.
O processo começa com a recolha de espécimes na própria região. Máquinas separam as pupas macho das fêmeas — passo essencial, pois só as fêmeas transmitem doenças através da picada — e os machos são então expostos a um acelerador de electrões que os torna inférteis. Vicente Dalmau, responsável regional pela saúde e agricultura, sublinha que a técnica se tornou urgente porque as alterações climáticas estão a prolongar as condições favoráveis ao desenvolvimento do mosquito, ampliando o seu ciclo de vida e a sua capacidade de expansão.
A esterilização biológica de pragas não é nova — o laboratório valenciano já a aplicara à mosca-da-fruta —, mas a sua utilização contra o mosquito-tigre-asiático na Europa representa um salto qualitativo. O contexto justifica a ambição: a Organização Mundial da Saúde regista um aumento de oito vezes nos casos de dengue desde 2000, e o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças documenta surtos crescentes dentro do próprio continente.
O insecto está hoje presente em 13 países europeus. Em Portugal, foi já detectado em Lisboa, Pombal, Algarve, Alentejo e Norte, levando a Direcção-Geral da Saúde a recomendar prevenção e controlo activos. O projecto espanhol surge assim não apenas como uma resposta técnica, mas como um sinal de que a Europa enfrenta uma mudança estrutural no seu ecossistema — e que as respostas terão de ser igualmente estruturais.
Um laboratório na região de Valência, em Espanha, está a fazer algo que parecia ficção científica há poucos anos: criar mosquitos estéreis em massa para combater a dengue. Todas as semanas, o Centro de Controlo Biológico de Pragas liberta cerca de 45.000 mosquitos machos da espécie Aedes albopictus — conhecida como mosquito-tigre-asiático — que foram esterilizados através de radiação. O objectivo é simples, mas engenhoso: estes machos acasalam com as fêmeas selvagens, mas sem produzir descendência, reduzindo gradualmente a população geral de mosquitos e, com ela, o risco de transmissão de doenças.
O laboratório, financiado pelo governo regional, utiliza um acelerador de electrões para esterilizar os insectos. Os cientistas começam por recolher espécimes da própria região de Valência, depois usam máquinas para separar as pupas fêmeas das pupas macho — um passo crucial, já que apenas as fêmeas transmitem doenças através da sua picada. Depois de separados, os machos são expostos à radiação que os torna inférteis. Vicente Dalmau, do departamento de saúde, agricultura e pesca da região, explica que esta técnica se tornou necessária porque o mosquito-tigre-asiático está a prosperar como nunca na Europa. As alterações climáticas estão a criar um ambiente favorável para o seu desenvolvimento durante períodos mais longos do ano, e as suas populações estão a aumentar significativamente.
Esta não é a primeira vez que a esterilização biológica é usada como arma contra pragas — a técnica já foi aplicada noutras partes do mundo e o próprio laboratório de Valência tinha experiência com a mosca-da-fruta. Mas o que torna este projecto pioneiro é a sua aplicação ao mosquito-tigre-asiático na Europa, num momento em que as preocupações com as doenças transmitidas por este insecto estão a crescer. A dengue, o zika e o chikungunya são agora ameaças reais no continente europeu, não apenas em regiões tropicais distantes.
Os números globais são alarmantes. A Organização Mundial da Saúde reportou que as taxas de dengue aumentaram drasticamente desde 2000, com os casos registados a subirem oito vezes, atingindo 4,2 milhões em 2022. O Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças documenta um aumento de casos de dengue importados de regiões onde a doença é endémica, bem como um número crescente de surtos do vírus do Nilo Ocidental e da dengue dentro da própria Europa. Os peritos acreditam que um clima mais quente está a acelerar a multiplicação dos mosquitos, criando um ciclo vicioso onde o aquecimento global alimenta a expansão da espécie.
O mosquito-tigre-asiático está agora presente em 13 países europeus, espalhando-se para o norte, leste e oeste do continente. Portugal não é excepção. O insecto já foi detectado em várias regiões do país — Lisboa, Pombal, Algarve, Alentejo e Norte — e a Direcção-Geral da Saúde anunciou recentemente a sua identificação em Lisboa e Pombal. Face a esta realidade, as autoridades portuguesas recomendaram a prevenção e o controlo activo das populações deste mosquito. O projecto espanhol de esterilização em massa representa uma das respostas mais sofisticadas que a Europa tem desenvolvido para enfrentar esta ameaça crescente, mas também sublinha a urgência do problema: não se trata apenas de um incómodo sazonal, mas de uma mudança estrutural no ecossistema europeu impulsionada pelas alterações climáticas.
Citazioni salienti
É uma espécie que se está a tornar mais comum com as alterações climáticas. Há um ambiente favorável para o seu desenvolvimento por períodos maiores ao longo do ano e as suas populações estão a aumentar.— Vicente Dalmau, departamento de saúde, agricultura e pesca da região de Valência