Há décadas, Gilberto Kassab construiu sua influência política sobre a arte de antecipar vitórias alheias. Desta vez, ao apostar em candidatura própria à Presidência com Ronaldo Caiado — que terminou em quinto lugar com 2,18% dos votos —, o PSD colheu o oposto do que buscava: perdeu senadores, deputados e o controle de estados decisivos. O episódio revela como a ambição de autonomia, quando mal calibrada, pode custar exatamente o poder que pretendia ampliar.
Kassab vê PSD encolher no Congresso e perder estados após aposta em Caiado
Só tem sentido lançar candidato se ele for ter voto
Como é que um político com a reputação de Kassab acaba em uma situação assim? Ele sempre estava do lado vencedor.
Porque desta vez ele apostou errado. Lançou Caiado à Presidência quando sinais já indicavam que a polarização se mantinha forte e que o desempenho seria ruim. Nenhum outro partido de centro quis entrar nessa.
Mas espera. Kassab diz que o PSD cresceu em relação a 2022. Elegeu mais deputados federais, muito mais senadores. Como isso é uma derrota?
Porque o tamanho da bancada que ele tinha agora era construído com filiações de políticos já eleitos por outros partidos. Quando você compara apenas os eleitos, o crescimento é real. Mas perdeu estados grandes, perdeu poder no Congresso para o próximo mandato.
E o que acontece agora com ele?
Fica fora do governo de São Paulo, pode ficar fora do governo federal também. Passou quatro anos recrutando políticos para o PSD, vendendo a ideia de que tinha poder que não tinha. Tarcísio se queixava disso nos bastidores.
Mas é justo dizer que ele "perdeu" se comparado a 2022 ele elegeu mais gente? Os números são confusos.
São confusos porque Kassab está comparando coisas diferentes. Quando convém, compara com 2022. Quando não convém, compara o tamanho atual da bancada, que inclui filiações posteriores. O que é claro é que o PSD vai ter cinco senadores em vez de 14.
Então a aposta em Caiado foi o erro?
Foi uma das coisas. Mas o erro maior foi acreditar que conseguiria expandir poder simultaneamente em governos rivais, Lula e Tarcísio, enquanto lançava candidato próprio à Presidência. Ninguém acreditou que ele não era bolsonarista.
E quanto aos 891 prefeitos que o PSD elegeu em 2024? Ele menciona isso na nota final. Isso não conta?
Conta, mas é uma consolação. Prefeito não elege senador. Não governa estado grande. Não dá poder no Congresso. É poder local, disperso.
The Pulse
- Caiado terminou em quinto lugar com apenas 2,18% dos votos, tornando a aposta presidencial do PSD uma das apostas mais custosas da eleição.
- A bancada no Senado despencou de 14 para 5 senadores, uma queda que redefine o peso do partido nas negociações legislativas a partir de 2027.
- O PSD perdeu o controle de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná — três dos maiores colégios eleitorais do país —, enfraquecendo sua presença territorial.
- Kassab se distanciou de Tarcísio de Freitas antes do período eleitoral e deverá ficar fora do governo de São Paulo, seu principal reduto de influência.
- A estratégia de liberar filiados para apoiar candidatos distintos no plano nacional não gerou o crescimento esperado nas bancadas e, em casos como Rondônia, resultou em derrotas mesmo entre aliados de Bolsonaro.
Há décadas, Gilberto Kassab construiu sua influência política sobre a arte de antecipar vitórias alheias. Desta vez, ao apostar em candidatura própria à Presidência com Ronaldo Caiado — que terminou em quinto lugar com 2,18% dos votos —, o PSD colheu o oposto do que buscava: perdeu senadores, deputados e o controle de estados decisivos. O episódio revela como a ambição de autonomia, quando mal calibrada, pode custar exatamente o poder que pretendia ampliar.
Gilberto Kassab construiu sua reputação sobre uma regra não escrita: sempre ficar do lado vencedor. A classe política costumava observar suas escolhas como bússola para alianças eleitorais. Em 2026, com o avanço da direita, essa bússola falhou.
O PSD lançou Ronaldo Caiado à Presidência — com Kassab como vice — depois que Tarcísio de Freitas decidiu não disputar o cargo. A justificativa de Kassab era mostrar que o partido não era bolsonarista. O resultado foi um quinto lugar com 2,18% dos votos válidos, atrás de candidatos de partidos menores. No Congresso, o partido recuou de 14 para 5 senadores e de 48 para 44 deputados federais. Três grandes colégios eleitorais — Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná — escaparam do controle partidário.
Ao ser questionado, Kassab resistiu em chamar o resultado de derrota. Apontou que o PSD elegeu mais deputados do que em 2022 e que legendas como União Brasil, PP e MDB perderam proporcionalmente mais. Os números têm alguma sustentação: em 2022, o partido havia elegido apenas três senadores. Mas a comparação não apaga o recuo real de 2026.
A vitória nas urnas não se converteu em poder. O partido venceu governos em Sergipe, Amapá, Maranhão e Pernambuco, mas ficará fora do governo de São Paulo — estado central para Kassab. O distanciamento entre ele e Tarcísio se aprofundou durante o período eleitoral, e aliados do governador confirmam que o PSD não deve integrar o novo governo paulista. No plano federal, a depender do resultado final, o partido pode também ficar à margem.
Nos bastidores, o preço do recrutamento agressivo dos últimos quatro anos ficou evidente. Kassab atraiu políticos com mandato de outros partidos, gerando ressentimentos. Tarcísio reclamava, em privado, que Kassab vendia influência que não possuía no governo estadual, criando expectativas frustradas entre prefeitos do interior. A ambição de crescer sem vencer deixou o partido menor do que parecia.
Gilberto Kassab, aos 66 anos, construiu sua reputação política sobre uma regra simples: ele sempre fica do lado vencedor. A classe política brincava que a melhor estratégia para decidir sobre alianças eleitorais era observar primeiro o que Kassab, presidente do PSD, havia escolhido. Neste ano, com o avanço da direita no país, essa regra não funcionou.
Depois que os votos foram contados, o quadro ficou claro. O PSD encolheu tanto na Câmara quanto no Senado. O partido perdeu o controle de três dos maiores colégios eleitorais do país: Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. Seu candidato à Presidência, Ronaldo Caiado, ficou em quinto lugar com apenas 2,18% dos votos válidos, atrás de Augusto Cury, do Avante, e Renan Santos, da Missão. Kassab era o vice de Caiado na chapa. No Legislativo, a queda foi drástica: o PSD tinha 14 senadores e passará a ter cinco a partir de 2027. Na Câmara, a perda foi menor, mas ainda significativa: de 48 para 44 deputados federais.
Quando conversou com a Folha, Kassab resistiu em chamar o resultado de derrota. Ele argumentou que o partido teve mais votos do que na eleição anterior e que o PSD conseguiu se manter em um tamanho próximo ao que tinha, enquanto outras legendas de centro encolheram diante do avanço do PL, partido de Flávio Bolsonaro. "Eu fiquei quatro anos tentando lançar o Tarcísio como candidato", disse, referindo-se ao governador de São Paulo. "O meu candidato era o Tarcísio, todo mundo sabe." Segundo ele, a candidatura própria com Caiado foi lançada apenas depois que Tarcísio decidiu não disputar a Presidência, "para mostrar que a gente não era bolsonarista".
Os números que Kassab apresenta para sustentar sua posição revelam um padrão mais complexo. Comparando com 2022, o PSD de fato elegeu mais deputados federais neste ano: 46 na eleição anterior contra 44 agora. No Senado, a diferença é ainda mais marcante: havia elegido apenas três senadores em 2022, enquanto agora elegeu 14. Kassab também destacou que União Brasil, PP, Republicanos e MDB perderam mais deputados do que o PSD. O União caiu de 59 para 46 vagas; o PP foi de 47 para 41; o Republicanos manteve 41; e o MDB foi de 42 para 36. Apenas o Podemos ganhou mais do que o PSD, passando de 12 para 27 deputados.
Mas a vitória nas urnas não se traduziu em poder político. O partido governa seis estados e concorria ao governo em 12. Obteve vitória em quatro: Sergipe, com Fábio Mitidieri; Amapá, com Dr. Furlan; Maranhão, com Eduardo Braide; e Pernambuco, com a reeleição de Raquel Lyra. Está no segundo turno no Amazonas e no Rio de Janeiro. A estratégia de Kassab de liberar seus filiados para apoiar candidatos diferentes no plano nacional, na esperança de aumentar as bancadas no Legislativo, não funcionou como planejado. Em alguns casos, como o de Adailton Fúria em Rondônia, filiados do PSD fizeram campanha com Bolsonaro e ainda assim foram derrotados.
Os planos de Kassab para este ano começaram a tomar forma em 27 de janeiro, quando publicou uma foto no Instagram ao lado de Caiado, Ratinho Jr. e Eduardo Leite, todos pré-candidatos à Presidência. Ratinho Jr. desistiu em março, depois que o PL anunciou apoio a Sergio Moro em seu estado. Entre Caiado e Leite, Kassab escolheu Caiado. Nenhuma sigla de centro aceitou participar da empreitada. O próprio Lula, em entrevista ao podcast Flow, questionou a decisão: "Eu disse para o Kassab: só tem sentido você lançar candidato se ele for ter voto. Se não for para ter voto, é melhor você não lançar".
A consequência política foi severa. Além da perda de assentos no Congresso e do controle de estados relevantes, o PSD ficará fora do governo de São Paulo. Kassab e Tarcísio se distanciaram antes do período eleitoral. Kassab não participou da campanha de Tarcísio e deverá ficar fora do novo governo, segundo dois dos principais aliados do governador. No caso de um governo Flávio Bolsonaro, o partido pode ficar também fora do governo federal. A avidez com que Kassab buscou políticos para sua legenda nos últimos quatro anos, recrutando especialmente aqueles que já tinham mandato, cobrou um preço. Em São Paulo, dirigentes de outros partidos criticavam frequentemente o assédio do dirigente a seus filiados. Nos bastidores, Tarcísio se queixava que Kassab vendia um poder que não detinha no governo, com prefeitos do interior se filiando ao PSD na expectativa de facilitar convênios com o Estado.
Notable Quotes
Eu fiquei quatro anos tentando lançar o Tarcísio como candidato. O meu candidato era o Tarcísio, todo mundo sabe.— Gilberto Kassab, presidente do PSD
Só tem sentido você lançar candidato se ele for ter voto. Se não for para ter voto, é melhor você não lançar.— Lula, em entrevista ao podcast Flow