Há histórias que começam com um gesto de destruição — e terminam como ato de preservação. Quando sua avó de 89 anos mandou arrancar a própria horta em Mariana, a escritora mineira Flávia Péret começou a escrever o que se tornaria 'Coisas presentes demais', um romance em fragmentos sobre Alzheimer, memória e o silêncio que envolve o esquecimento nas famílias brasileiras. O livro, lançado pela Relicário Edições, é ao mesmo tempo obra literária e gesto político — um convite a nomear o que muitos preferem não ver.
Escritora mineira lança romance sobre memória e Alzheimer inspirado na avó
A memória é um enigma que a escrita ajuda a revelar
Por que Flávia decidiu transformar essa experiência com a avó em um livro? Parece tão pessoal, tão dolorido.
Ela diz que começou a escrever no mesmo dia em que a avó destruiu a horta. Acho que foi uma forma de tentar entender o que estava acontecendo — o Alzheimer já estava ali, mas ninguém sabia nomear aquele ato de fúria. A escrita virou um jeito de processar.
Mas é importante notar que o livro não é um relato direto. Péret deixa claro que mistura ficção e realidade, que usa fragmentos. Então não estamos lendo um diário ou uma crônica — é uma construção literária deliberada.
E quanto ao aspecto de saúde pública que ela menciona? Como isso entra no livro?
Péret pesquisa Alzheimer como um problema estrutural, ligado ao desenvolvimento do país. Ela fala sobre alimentação, estilo de vida, mas também sobre o tabu — as famílias têm vergonha de falar que alguém tem a doença. O livro toca nisso tudo.
Ela está identificando um problema real, mas é bom lembrar que essas são observações dela como pesquisadora. O livro em si é uma obra de ficção que explora esses temas, não um estudo epidemiológico.
A avó ainda reconhece a neta? Eles conseguem se comunicar?
A avó ainda fala e se alimenta, então não está na fase mais grave. Mas deixou de reconhecer filhos e netos. Então há uma perda ali, uma distância que o livro tenta atravessar.
A cronologia importa: ela foi diagnosticada aos 89, piorou muito durante a pandemia, e agora tem 94. Estamos falando de um processo de cinco anos de deterioração acelerada.
E os lançamentos no Rio — parecem eventos que querem conversar sobre memória de forma mais ampla, não só sobre a doença.
Exatamente. A palestra-performance se chama A memória é uma obra de ficção. Péret está convidando as pessoas a pensar sobre como lembramos, como a ficção e a realidade se misturam em nossas próprias vidas.
Esses eventos são em setembro, então estão acontecendo agora. É um lançamento que quer criar espaço para diálogo, não só vender livros.
Il Polso
- A avó de Péret, hoje com 94 anos, deixou de reconhecer filhos e netos após a transição para uma casa de repouso em Belo Horizonte, piora acelerada pelo isolamento da pandemia.
- O Alzheimer permanece cercado de tabu nas famílias brasileiras, tratado como vergonha ou fracasso pessoal em vez de doença pública que exige cuidado coletivo.
- Péret responde ao silêncio com literatura: a estrutura fragmentada do romance espelha a própria natureza da memória — não linear, incompleta, feita de pedaços que resistem ao encaixe.
- A escritora também atua como pesquisadora, apontando o Alzheimer como problema de saúde pública ligado ao desenvolvimento do país e à necessidade de mudanças em alimentação, estilo de vida e políticas de cuidado.
- Os lançamentos no Rio de Janeiro — com seminário na UFRJ em 23 de setembro e roda de conversa na Janela Livraria em 25 de setembro — transformam o livro em espaço de escuta e reflexão coletiva.
Há histórias que começam com um gesto de destruição — e terminam como ato de preservação. Quando sua avó de 89 anos mandou arrancar a própria horta em Mariana, a escritora mineira Flávia Péret começou a escrever o que se tornaria 'Coisas presentes demais', um romance em fragmentos sobre Alzheimer, memória e o silêncio que envolve o esquecimento nas famílias brasileiras. O livro, lançado pela Relicário Edições, é ao mesmo tempo obra literária e gesto político — um convite a nomear o que muitos preferem não ver.
Flávia Péret, escritora e professora de criação literária de Minas Gerais, começou a escrever 'Coisas presentes demais' no mesmo dia em que sua avó, recém-diagnosticada com Alzheimer aos 89 anos, mandou destruir a horta que cultivava em Mariana — um jardim que havia sido sua alegria. Ninguém compreendeu o gesto naquele momento. Péret começou a escrever.
O resultado, publicado pela Relicário Edições, é um romance em fragmentos que acompanha uma neta visitando a avó semanalmente numa casa de repouso. A estrutura não linear do livro não é apenas forma: ela reflete a própria natureza da memória, feita de pedaços que não se encaixam, de identidades que se desintegram lentamente. A avó de Péret tem hoje 94 anos, ainda fala e se alimenta, mas deixou de reconhecer filhos e netos. A piora foi acelerada pela pandemia e pela transição da casa em Mariana — repleta de escadas, vivida em autonomia — para a instituição em Belo Horizonte.
Além da narrativa pessoal, Péret pesquisa o Alzheimer como problema de saúde pública ligado ao desenvolvimento do país. Ela aponta lacunas em alimentação, estilo de vida e políticas de cuidado, mas destaca uma dimensão que considera igualmente urgente: o tabu que envolve a doença nas famílias brasileiras. Falar sobre Alzheimer, para ela, é um ato de resistência — nomear o que se perde é também uma forma de cuidar.
O livro é lançado no Rio de Janeiro em dois momentos: em 23 de setembro, na Faculdade de Letras da UFRJ, com seminário e palestra-performance intitulada 'A memória é uma obra de ficção'; e em 25 de setembro, na Janela Livraria, no Jardim Botânico, com roda de conversa ao lado das escritoras Danielle Magalhães, Luiza Leite e Tais Bravo. Juntos, os eventos propõem ao leitor pensar como a ficção e a realidade se entrelaçam — e como a literatura pode ser lugar de luto e de presença.
Flávia Péret, escritora e professora de criação literária de Minas Gerais, acaba de lançar um livro que nasceu de um episódio de fúria que ninguém compreendeu no momento. Sua avó, aos 89 anos diagnosticada com Alzheimer, mandou destruir a horta que cultivava em Mariana, no interior mineiro — um jardim que havia sido sua alegria. No mesmo dia, Péret começou a escrever. O resultado é Coisas presentes demais, publicado pela Relicário Edições, um romance em fragmentos que tece a história de uma neta visitando sua avó semanalmente numa casa de repouso com reflexões sobre memória, esquecimento e a doença que rouba identidades.
A avó de Péret tem 94 anos e vive em uma instituição de repouso em Belo Horizonte desde que o diagnóstico a alcançou. Seu Alzheimer é avançado, mas ainda não atingiu a fase mais grave — ela continua se alimentando e falando, embora tenha deixado de reconhecer filhos e netos. A piora foi acelerada pela pandemia. Antes, ela morava sozinha em Mariana, numa casa repleta de escadas, e a transição para a casa de repouso marcou um ponto de ruptura. Foi nesse contexto de perda e desorientação que o livro ganhou forma.
Péret descreve sua obra como um romance que mistura ficção e realidade. Não é uma biografia direta, mas uma construção literária que usa a vida de sua avó como ponto de partida. A estrutura fragmentada reflete a própria natureza da memória — incompleta, não linear, feita de pedaços que não se encaixam perfeitamente. O livro se torna, assim, uma meditação sobre esse enigma que é lembrar e esquecer, sobre como a mente se desintegra e o que permanece quando a identidade se desmorona.
Além de escritora, Péret é pesquisadora, e sua investigação sobre Alzheimer vai além da narrativa pessoal. Ela identifica a doença como um problema de saúde pública intimamente ligado ao desenvolvimento do país. Em suas análises, aponta que há espaço para melhorias significativas em alimentação, estilo de vida e políticas de cuidado. Mas há também uma dimensão social que ela considera urgente: o tabu que envolve a doença nas famílias brasileiras. Muitos evitam falar sobre Alzheimer, como se fosse uma vergonha, um fracasso pessoal. Péret acredita que quebrar esse silêncio é fundamental — que nomear a doença, compartilhar a experiência de quem a vive e de quem cuida é um ato de resistência e de cuidado coletivo.
O lançamento do livro acontece no Rio de Janeiro em dois momentos. No dia 23 de setembro, na Faculdade de Letras da UFRJ, Péret participa de um seminário intitulado Quase-ficções e oferece uma palestra-performance chamada A memória é uma obra de ficção, seguida do lançamento oficial. Dois dias depois, no sábado 25 de setembro, ela participa de uma roda de conversa na Janela Livraria, no Jardim Botânico, com as escritoras Danielle Magalhães, Luiza Leite e Tais Bravo, seguida de tarde de autógrafos. Os eventos convidam o leitor a pensar sobre como a memória funciona, como a ficção e a realidade se entrelaçam, e como a literatura pode ser um espaço para processar o luto e a perda que acompanham doenças neurodegenerativas.
Citazioni salienti
É um romance em fragmentos. É um romance inspirado na vida da minha avó e da minha relação com ela, mas a partir de fragmentos. Ele tem ficção e realidade— Flávia Péret
Ainda é um grande tabu as famílias terem vergonha de falar que um familiar tem Alzheimer. Poder falar sobre isso é muito importante— Flávia Péret