No Brasil, a fronteira entre o cuidado e o dano tem sido atravessada com frequência crescente em clínicas de estética. Diante de mortes e mutilações causadas por procedimentos invasivos realizados fora da medicina, as principais entidades médicas do país formalizaram um apelo ao CFM e à Anvisa para que a lei já existente fosse, enfim, cumprida. A morte de um jovem empresário durante um peeling de fenol feito por uma esteticista transformou uma disputa regulatória silenciosa em uma crise de saúde pública — e forçou o Estado a agir. O que permanece em aberto é se a fiscalização será capaz de alc
Entidades médicas pedem restrição de 7 procedimentos estéticos invasivos, incluindo botox
A lei já as proibia. A Anvisa havia agido. Mas a prática comum no Brasil continuava desafiando.
Por que as entidades médicas levaram tanto tempo para formalizar esse pedido? A lei já proibia isso desde 2013.
Porque a prática cresceu silenciosamente. Esteticistas e outros profissionais começaram a fazer esses procedimentos, e seus conselhos editaram resoluções próprias criando uma zona cinzenta. As entidades só se movimentaram quando as complicações ficaram visíveis e documentadas.
Mas qual é a escala real? O documento fala em "crescimento" e "complicações graves", mas quantas pessoas foram afetadas? Quantos casos de mutilação ou morte havia antes da morte do Henrique?
O dossiê compilou relatos com imagens, mas o número exato de casos não está no documento. Sabemos que havia o suficiente para preocupar as principais sociedades médicas.
E quanto às resoluções que os outros conselhos editaram? Elas realmente têm força legal?
Segundo as entidades médicas, não. Elas argumentam que essas resoluções "invadem o ato médico" e extrapolam os limites legais de competência normativa. Uma resolução administrativa não pode regulamentar algo que só a lei pode proibir.
Então por que a Anvisa demorou tanto para agir? O CFM pediu audiência em abril, mas só em junho, depois da morte, é que a agência proibiu o fenol.
A morte do Henrique mudou a equação política. Antes era um problema regulatório. Depois virou uma crise de saúde pública com rosto e nome.
A proibição do fenol resolve o problema?
Resolve apenas uma parte. Dos sete procedimentos listados, apenas o fenol foi proibido. Os outros continuam sendo feitos por não médicos.
E a Anvisa disse que vai investigar os danos do fenol. Mas por quanto tempo? Enquanto isso, as outras substâncias continuam sendo vendidas e usadas.
Il Polso
- Complicações graves, mutilações e mortes por procedimentos estéticos invasivos feitos por não médicos vinham crescendo no Brasil, ignorando uma lei de 2013 que reserva esses atos exclusivamente à medicina.
- A morte de Henrique Silva Chagas, 27 anos, durante um peeling de fenol realizado por uma esteticista e influenciadora, converteu uma disputa técnica em escândalo nacional.
- Sociedades de dermatologia e cirurgia plástica entregaram ao CFM um dossiê com imagens de complicações, pressionando por fiscalização real sobre sete procedimentos — entre eles botox, preenchedores e endolaser.
- A Anvisa proibiu imediatamente a venda e o uso de produtos à base de fenol em todo o território nacional, citando ausência de estudos que comprovem segurança e eficácia da substância.
- Os outros seis procedimentos continuam sendo amplamente ofertados por profissionais sem formação médica, muitos deles anunciando serviços nas redes sociais como se fossem rotineiros e sem risco.
No Brasil, a fronteira entre o cuidado e o dano tem sido atravessada com frequência crescente em clínicas de estética. Diante de mortes e mutilações causadas por procedimentos invasivos realizados fora da medicina, as principais entidades médicas do país formalizaram um apelo ao CFM e à Anvisa para que a lei já existente fosse, enfim, cumprida. A morte de um jovem empresário durante um peeling de fenol feito por uma esteticista transformou uma disputa regulatória silenciosa em uma crise de saúde pública — e forçou o Estado a agir. O que permanece em aberto é se a fiscalização será capaz de alcançar a vastidão de uma prática que prospera, em grande parte, à luz do dia.
Em março deste ano, as principais sociedades brasileiras de dermatologia e cirurgia plástica entregaram ao Conselho Federal de Medicina um documento com um pedido que a lei já deveria garantir: que sete procedimentos estéticos invasivos — botox, preenchedores de ácido hialurônico, bioestimuladores de colágeno, PMMA, eletrocauterização, endolaser e peeling químico de fenol — fossem realizados exclusivamente por médicos especializados. O motivo era alarmante: essas técnicas cresciam no Brasil, mas cada vez mais nas mãos de esteticistas, dentistas e biomédicos, com um rastro documentado de complicações graves, mutilações e mortes.
A Lei do Ato Médico, de 2013, já proibia essa prática. Mas conselhos de outras profissões editavam resoluções próprias autorizando seus membros a realizar os mesmos procedimentos, criando uma zona cinzenta onde a ilegalidade se disfarçava de regulamentação. As entidades médicas compilaram imagens e relatos de complicações ao longo dos anos e os apresentaram como evidência do custo real dessa expansão descontrolada.
Em abril, o CFM pediu audiência com a Anvisa para exigir controle sobre a venda dos insumos a profissionais não médicos. A agência não respondeu de imediato. Mas em junho, a morte de Henrique Silva Chagas, empresário de 27 anos, durante um peeling de fenol realizado por uma esteticista e influenciadora, mudou o tom da conversa. O que era uma disputa regulatória tornou-se crise de saúde pública.
No dia 19 de junho, o CFM foi recebido pela Anvisa e apresentou quatro ações: fiscalizar estabelecimentos e profissionais que anunciam procedimentos invasivos; controlar a comercialização irregular de insumos; criar regras sanitárias e éticas contra o exercício ilegal da medicina; e lançar campanha sobre os riscos desses procedimentos quando feitos sem qualificação adequada.
Uma semana depois, a Anvisa proibiu a venda e o uso de produtos à base de fenol em todo o país, com vigência imediata, alegando ausência de estudos que comprovem segurança e eficácia da substância. A morte de Henrique havia acelerado uma decisão que as entidades médicas pediam há meses. Mas os outros seis procedimentos continuavam sendo ofertados por não médicos em todo o Brasil — muitos deles anunciados nas redes sociais como serviços corriqueiros. A lei existia. A ação havia começado. Restava saber se a fiscalização seria capaz de alcançar a prática.
Em março deste ano, as principais sociedades médicas brasileiras de dermatologia e cirurgia plástica entregaram um documento ao Conselho Federal de Medicina pedindo algo que a lei já deveria garantir: que sete procedimentos estéticos invasivos fossem realizados apenas por médicos especializados. A lista incluía botox, preenchedores de ácido hialurônico, bioestimuladores de colágeno, procedimentos corporais com PMMA, eletrocauterização, endolaser e peeling químico à base de fenol. O que motivou o pedido era simples e alarmante: essas técnicas estavam crescendo no Brasil, mas cada vez mais sendo feitas por profissionais sem formação médica — esteticistas, dentistas, biomédicos — e o resultado era um número crescente de complicações graves, mutilações e mortes.
A lei brasileira já proibia isso. Desde 2013, a Lei do Ato Médico estabelece que procedimentos invasivos — qualquer um que rompa a barreira natural da pele — são exclusividade de médicos. Mas a prática comum no Brasil desmente a lei. As entidades médicas apontavam que conselhos de outras profissões editavam resoluções próprias permitindo que seus profissionais realizassem esses procedimentos, criando uma zona cinzenta onde a ilegalidade se disfarçava de regulamentação. O dossiê apresentado em março compilava relatos com imagens de complicações registradas ao longo dos anos, documentando o custo real dessa expansão descontrolada.
Em abril, o CFM pediu uma audiência com a Anvisa para exigir maior fiscalização sobre a venda dos insumos usados nesses procedimentos a profissionais não médicos. A agência sanitária não respondeu imediatamente. Mas em junho, tudo mudou. Henrique Silva Chagas, empresário de 27 anos, morreu durante um peeling de fenol realizado pela esteticista e influenciadora Natalia Becker no início do mês. A morte de um jovem em um procedimento estético realizado por alguém sem formação médica adequada transformou uma questão regulatória em uma crise de saúde pública.
No dia 19 de junho, o CFM foi recebido pela Anvisa. Desta vez, o tom era diferente. O Conselho apresentou quatro ações concretas: reforçar a fiscalização de estabelecimentos e profissionais que anunciam procedimentos estéticos invasivos realizados por não médicos; ampliar o controle sobre a comercialização irregular dos insumos; elaborar um escopo de regras sanitárias e éticas que coíbisse o exercício ilegal da medicina; e promover uma campanha de massa sobre os riscos desses procedimentos, especialmente quando realizados por profissionais sem qualificação e em locais sem infraestrutura adequada.
A Anvisa respondeu uma semana depois. Na terça-feira seguinte, a agência proibiu a venda de produtos à base de fenol e seu uso em qualquer procedimento de saúde ou estético no Brasil. A resolução entrou em vigor imediatamente. Em nota, a Anvisa explicou que a proibição permaneceria enquanto investigava os danos potenciais associados à substância química, que vinha sendo usada em diversos procedimentos invasivos. A agência também afirmou que até aquele momento nenhum estudo havia sido apresentado comprovando a eficácia e segurança do fenol para esses usos. A morte de Henrique Silva Chagas havia acelerado uma decisão que as entidades médicas vinham pedindo há meses.
Mas a questão mais ampla permanecia aberta. O fenol era apenas uma substância. Os outros seis procedimentos continuavam sendo realizados por profissionais não médicos em todo o país, muitos deles anunciando seus serviços nas redes sociais como se fossem tão seguros quanto uma consulta de rotina. As entidades médicas haviam documentado as complicações. A lei já as proibia. A Anvisa havia tomado uma ação. Agora restava saber se a fiscalização acompanharia a regulamentação, ou se a prática comum no Brasil continuaria desafiando a lei.
Citazioni salienti
É prática comum no Brasil a realização de intervenções invasivas por profissionais não habilitados, o que pode acarretar em sérios danos à saúde da população— Sociedades Brasileiras de Dermatologia e Cirurgia Plástica
Até a presente data, não foram apresentados à Agência estudos que comprovem a eficácia e segurança do produto fenol para uso em tais procedimentos— Anvisa