Energia nuclear divide especialistas como ferramenta contra mudança climática

Qualquer ferramenta que reduza emissões merece atenção
Perspectiva pragmática do diretor da Agência Internacional de Energia sobre o papel da nuclear na transição climática.

Energia nuclear emite poucos gases de efeito estufa ao longo de seu ciclo de vida, muito menos que carvão, gás ou energia solar. Agência Internacional de Energia Atômica aumentou projeções e prevê duplicação da potência instalada até 2050, com China liderando novos reatores.

  • Energia nuclear representa cerca de 10% da produção mundial de eletricidade
  • Agência Internacional de Energia Atômica prevê duplicação da capacidade instalada até 2050
  • China lidera a construção de novos reatores nucleares globalmente
  • Apenas a Rússia lançou uma usina operacional com pequenos reatores modulares

Especialistas debatem se energia nuclear pode auxiliar na redução de emissões de carbono enquanto energias renováveis se desenvolvem, com divisão entre países sobre viabilidade e aceitação pública.

A pergunta persiste nos corredores das agências internacionais e nas salas de conferência climática: pode a energia nuclear, que não libera gases de efeito estufa, funcionar como um escudo contra o aquecimento do planeta enquanto as fontes renováveis ainda se consolidam? A resposta, segundo especialistas e governos, depende de quem você pergunta.

Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia, oferece uma perspectiva pragmática. Quando questionado sobre o papel da energia nuclear na luta climática, sua resposta foi direta: qualquer ferramenta que reduza emissões merece atenção. Todas as fontes limpas de eletricidade, em sua visão, têm lugar na transição energética. A energia nuclear responde por cerca de 10% da produção mundial de eletricidade e carrega uma vantagem fundamental — não emite dióxido de carbono diretamente. Mesmo quando se contabiliza todo o seu ciclo de vida, incluindo a extração de urânio e a construção das usinas, a pegada de carbono permanece drasticamente menor que a do carvão, do gás natural ou até da energia solar.

Os cenários climáticos mais otimistas da ONU incorporam a energia nuclear como peça central para manter o aquecimento global em 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais. Conforme o mundo precisar de mais eletricidade para substituir combustíveis fósseis — particularmente no transporte — a energia nuclear emerge como candidata estratégica. A Agência Internacional de Energia Atômica, com sede em Viena, acaba de aumentar suas projeções pela primeira vez desde o desastre de Fukushima em 2011, prevendo que a capacidade instalada dobrará até 2050 no cenário mais favorável. A China lidera essa expansão, construindo mais reatores novos que qualquer outra nação. Rafael Grossi, diretor-geral da agência, enxerga nesse movimento um sinal de que o mundo finalmente reconhece a energia nuclear como "absolutamente vital" para alcançar a neutralidade de carbono em meados do século — objetivo que será central na próxima grande cúpula climática, a COP26, marcada para novembro no Reino Unido.

Mas a realidade política e social é mais complexa. Os cientistas do painel climático da ONU admitem que a implantação futura da energia nuclear pode ser limitada pelas "preferências da sociedade". Em vários países, a imagem da energia nuclear permanece manchada pelo fantasma das catástrofes e pela questão ainda não resolvida do armazenamento de resíduos radioativos. Na União Europeia, a divisão é profunda. A Alemanha decidiu abandonar progressivamente a energia nuclear após Fukushima, enquanto países da Europa Central a veem como escape de sua dependência do carvão. Na República Tcheca, por exemplo, a população tende a aceitar a energia nuclear como fonte confiável e relativamente barata, segundo especialistas locais.

Os críticos — frequentemente organizações ambientalistas como o Greenpeace — mudaram sua estratégia. Em vez de apelar para argumentos sobre segurança, agora concentram fogo na eficácia econômica. O custo das energias renováveis não para de cair, enquanto os grandes projetos nucleares se tornaram empreendimentos gigantescos e caros, frequentemente assolados por sobrecustos imensos. Mycle Schneider, autor de um relatório anual crítico sobre o setor, afirma que os novos projetos nucleares são "muito mais caros e mais lentos que as renováveis", e que investir neles "agrava a crise climática".

A indústria nuclear, porém, não se dá por vencida. Há anos aposta em pequenos reatores modulares — máquinas mais simples, fabricadas em série e menos vulneráveis a custos adicionais. Especialistas acreditam que o futuro da energia nuclear pode passar por essa tecnologia. Ainda assim, apesar do interesse manifestado por vários países, apenas a Rússia lançou de fato uma usina operacional usando essa abordagem. A tecnologia permanece mais promessa que realidade, deixando em aberto a questão de se a energia nuclear conseguirá reinventar-se a tempo de contribuir significativamente para a descarbonização global.

Tudo o que permite reduzir as emissões é uma boa notícia
— Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia
Os novos projetos nucleares são muito mais caros e mais lentos que as renováveis
— Mycle Schneider, autor de relatório crítico sobre o setor nuclear
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a energia nuclear divide tanto os especialistas se os números sobre emissões são tão claros?

Model

Porque números não são tudo. A física do carbono é simples; a política, a economia e a confiança pública são labirintos. Um reator que não emite CO2 ainda deixa resíduos que ninguém sabe onde guardar.

Inventor

Mas a Agência Internacional de Energia Atômica acabou de aumentar suas projeções pela primeira vez desde Fukushima. Isso não sugere que o medo está diminuindo?

Model

Sugere que os governos estão desesperados. Quando você precisa descarbonizar rápido e as renováveis ainda não cobrem tudo, até a energia nuclear volta à mesa. Não é confiança renovada; é pragmatismo sob pressão.

Inventor

E os pequenos reatores modulares? Parecem ser a aposta da indústria para resolver os problemas de custo.

Model

Parecem, mas apenas a Rússia tem um funcionando. O resto é esperança em forma de projeto. Quando você promete simplicidade e fabricação em série há anos e só consegue um protótipo, a promessa perde força.

Inventor

Então você acha que a energia nuclear vai ficar de fora da transição climática?

Model

Não. Vai ter seu papel, provavelmente menor que os defensores gostariam e maior que os críticos admitem. Alguns países precisarão dela. Outros escolherão renováveis. O mundo não vai escolher uma única resposta.

Inventor

E a opinião pública? Como muda isso?

Model

Muda tudo. Você pode ter a melhor tecnologia do mundo, mas se as pessoas têm medo ou desconfiam, você não constrói. A energia nuclear carrega décadas de imagem ruim. Recuperar isso é mais difícil que construir um reator.

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