Empresas do Ibovespa preveem recessão em 2027 com juros altos e inadimplência recorde

Famílias com renda apertada enfrentam dificuldades para pagar contas básicas de água e luz, com cortes de serviços intensificados pelas concessionárias.
A pessoa escolhe o que ela paga, e não sobra para tudo
Economista do Insper descreve como famílias endividadas precisam priorizar despesas quando a renda não cobre tudo.
Mark

Por que as empresas estão tão pessimistas agora, se o desemprego está em mínimas históricas?

Mimi

Porque o desemprego baixo não significa que as pessoas tenham dinheiro. Muita gente está trabalhando, mas endividada. Quando você deve muito, um emprego não resolve.

Mark

E como isso chega até as contas de água e luz?

Mimi

Quando a pessoa tem que escolher entre pagar a prestação do carro, a parcela do cartão e a conta de energia, ela escolhe as dívidas que têm juros. A água e a luz ficam para depois. Depois vira calote.

Mark

As empresas estão cortando serviço para cobrar?

Mimi

Sim. É a ferramenta que têm. Cortar o fornecimento força a negociação. Mas é também um sinal de que o problema é estrutural, não passageiro.

Mark

E os bancos? Eles não deveriam estar ganhando com juros altos?

Mimi

Ganham no curto prazo, mas sabem que inadimplência crescente corrói os lucros. Por isso estão alertando para 2027. É um aviso de que o modelo está chegando ao limite.

Mark

Então a recessão é inevitável?

Mimi

Não inevitável, mas o risco é real. Tudo depende se a Selic cai ou não. Se cair, a pressão alivia. Se ficar alta, o consumo desaba e a economia desacelera mais que o esperado.

  • Endividamento das famílias em recorde de 82% em julho, com 30% inadimplentes
  • Selic em 14% ao ano desde 2022, projetada para 12% ao fim de 2027
  • Inadimplência na CPFL subiu de 0,82% para 1,08% entre 2025 e 2026
  • PIB projetado para crescer apenas 1,5% em 2027, segundo Boletim Focus

Endividamento das famílias em recorde de 82% pressiona pagamento de contas básicas como água e luz, com inadimplência crescente. Selic em 14% ao ano mantém juros nos dois dígitos desde 2022, afetando decisões de investimento e receitas das empresas.

Grandes empresas do Ibovespa preveem crescimento menor ou recessão para 2027, com juros altos e inadimplência recorde das famílias afetando setores básicos e varejo.

Faltam pouco mais de quatro meses para o ano virar, e nas salas de reunião das maiores empresas do Brasil, o tom é de apreensão. As 76 companhias listadas no Ibovespa que a Folha consultou — analisando o conteúdo das teleconferências de resultados do segundo trimestre — pintam um quadro sombrio para 2027: crescimento econômico menor que o desejado, possível recessão, e uma inadimplência que já começa a aparecer até nas contas mais básicas da vida das pessoas.

A taxa Selic, hoje em 14% ao ano, é o vilão da história. Desde o início de 2022, os juros brasileiros não saem dos dois dígitos. A expectativa inicial era que caíssem mais rapidamente, com alguns gestores apostando que chegariam a 11% no fim de 2026. Mas a guerra no Irã desorganizou as contas: o choque no mercado de petróleo empurrou a inflação para cima, e os incentivos do governo em ano eleitoral mantiveram o consumo aquecido, pressionando ainda mais os preços. O Banco Central segue apertando o parafuso.

O resultado é visível nas contas de água e luz. A CPFL Energia e a Copasa, concessionárias de serviços básicos, intensificaram os cortes de fornecimento. Gustavo Estrela, CEO da CPFL, relatou que a inadimplência subiu de 0,82% no segundo trimestre de 2025 para 1,08% este ano. "Nossa principal ferramenta de controle de inadimplência são as ações de corte", disse. A Copasa adotou estratégia semelhante, com mecanismos antecipados de cobrança e, como afirmou seu CEO Cleyson Jacomini, "cortes no caso de inadimplência, para reverter essa tendência". O endividamento das famílias atingiu recorde de 82% em julho, segundo a Confederação Nacional do Comércio — desse total, cerca de 30% estão inadimplentes e 12% declaram não ter condições de pagar o que devem.

O economista Marcelo Kfoury, do Insper, descreve o mecanismo dessa espiral: alguém começa a pagar cheque especial e rotativo do cartão de crédito, e logo não consegue mais pagar as contas. Uma pessoa que recebe R$ 2 mil por mês e paga R$ 1 mil de prestação fica com R$ 1 mil para comer, energia e água. Ela escolhe o que paga. Não sobra para tudo.

O setor varejista também sente o aperto. Lojas Renner e Assaí falam em pressão no consumo diante da Selic maior que o esperado. Belmiro de Figueiredo Gomes, CEO do Assaí Atacadista, afirmou que a companhia está "muito focada em desalavancar", reduzindo níveis de investimento e segurando uma série de projetos. Alfredo Setubal, CEO da holding Itaúsa — que agrupa bancos, calçados, concessões rodoviárias e saneamento — chegou a falar em "pequena recessão", fazendo coro a Armínio Fraga, economista e ex-presidente do Banco Central, que havia levantado essa possibilidade no início do mês. Setubal orientou as empresas investidas a ter "um orçamento mais moderado e mais cauteloso".

O setor bancário também deu sinais de alerta. BTG Pactual e Santander indicaram que o ambiente mais complexo de 2027 está se tornando consenso no mercado, com a inadimplência do crédito como principal ponto de atenção. Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, resumiu: "O nível de endividamento do governo e das famílias é muito alto, a taxa de juros está muito alta, e vai chegar um momento em que tudo isso vai impactar a economia". As projeções do Boletim Focus apontam que a Selic terminará 2027 em 12% ao ano, e o PIB crescerá apenas 1,5%.

A Yduqs, de educação, também projeta que 2027 será desafiador, "muito parecido com o que foi 2026" na perspectiva macroeconômica, com "renda muito apertada" e endividamento elevado. Joelson Sampaio, professor de finanças da FGV, sintetiza o dilema das empresas: "A Selic alta há bastante tempo cria um cenário desafiador, já que afeta as decisões de investimento e o custo das dívidas. E afeta a receita, porque o consumo das famílias também está comprometido". O que se desenha é um efeito rebote que economistas temem possa levar a uma desaceleração mais forte que o esperado.

Nossa principal ferramenta de controle de inadimplência são as ações de corte
— Gustavo Estrela, CEO da CPFL Energia
O nível de endividamento do governo e das famílias é muito alto, a taxa de juros está muito alta, e vai chegar um momento em que tudo isso vai impactar a economia
— Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual
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