76% dos maiores de 70 anos votariam mesmo se não fosse obrigatório, contra 50% dos jovens de 16 a 24 anos, segundo Datafolha. População idosa cresceu de 21% para 23,6% do eleitorado desde 2022, enquanto adolescentes que tiraram título caíram 23%.
Eleitores 70+ mostram maior engajamento político e preferem Lula em eleição com menos jovens
Os velhos estão engajados; os jovens, desligados
Por que o voto dos idosos ganhou tanta relevância de repente?
Porque a população brasileira está envelhecendo rapidamente. Eleitores com mais de 70 anos passaram de 9,5% para 10,8% do eleitorado em apenas quatro anos — são 17 milhões de pessoas. E diferentemente de décadas passadas, eles não estão em casa: estão economicamente ativos, informados e votando.
Mas precisamos ser precisos: 76% dos maiores de 70 anos dizem que votariam mesmo se não fosse obrigatório. Isso é uma intenção declarada em pesquisa, não comportamento real. Em 2022, apenas 45,3% desse grupo realmente compareceu.
Então há uma lacuna entre o que dizem e o que fazem?
Sim, mas mesmo assim 45,3% é a maior presença desse grupo desde 2014. E a pesquisa mostra que eles têm mais interesse em política que os jovens — 37% contra 14%.
Verdade. Mas também é importante notar que o desengajamento dos jovens tem explicações concretas: a burocracia aumentou, as campanhas de mobilização desapareceram. Não é só apatia.
E quanto às preferências eleitorais? Lula realmente lidera entre os idosos?
Sim, com 46% entre maiores de 70 anos, contra 35% para Flávio Bolsonaro. Mas a margem de erro é de 5 pontos percentuais — maior que a dos grupos mais jovens.
Exatamente. Então tecnicamente Lula lidera, mas a diferença não é tão sólida quanto parece à primeira vista.
O que explica essa preferência por Lula entre os idosos?
Políticas de aposentadoria e proteção da renda pesam muito. Mas também é uma geração que viveu a inflação dos anos 1980, não apenas a Lava Jato. Têm uma perspectiva histórica diferente.
E os candidatos evitam falar sobre aposentadoria porque é um tema delicado — qualquer mudança afeta diretamente esse eleitorado.
Então o voto idoso pode ser decisivo?
Pode ser, especialmente em estados como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, onde representam até 14,5% do eleitorado. Em uma eleição com menos mobilização geral, esse grupo concentrado e engajado faz diferença.
Mas Chong também alertou que pode haver abstenção maior em geral este ano. Então não é garantido que o voto idoso será decisivo — depende de quantas pessoas no geral vão votar.
The Pulse
- Eleitores com mais de 70 anos: 17.251.915 pessoas (10,8% do eleitorado em 2026)
- 76% dos maiores de 70 anos votariam mesmo se não fosse obrigatório, contra 50% dos jovens de 16 a 24 anos
- 37% dos maiores de 70 anos têm grande interesse em política, contra 14% dos jovens
- Lula tem 46% de intenção de voto entre maiores de 70 anos; Flávio Bolsonaro, 35%
- Título de eleitor entre adolescentes caiu 23%: de 2,1 milhões para 1,6 milhão
76% dos maiores de 70 anos votariam mesmo se não fosse obrigatório, contra 50% dos jovens de 16 a 24 anos, segundo Datafolha. População idosa cresceu de 21% para 23,6% do eleitorado desde 2022, enquanto adolescentes que tiraram título caíram 23%.
Pesquisa Datafolha revela que eleitores com mais de 70 anos têm maior interesse em política e preferência por Lula, enquanto jovens de 16 a 24 anos se afastam do processo eleitoral brasileiro.
Ana Velchev tem 70 anos e nunca deixou de votar. Aposentada, ela vê o voto como um ato de posicionamento sobre o que os governantes fazem pelo país. "Hoje me envolvo muito mais porque percebi que, me posicionando, meus netos e filhos poderiam viver em um país livre, consciente e melhor", diz. Ela ainda não escolheu seu candidato, mas está pesquisando com cuidado, preocupada com direitos fundamentais: liberdade de ir e vir, liberdade de expressão, proteção contra governos autoritários. Velchev representa uma mudança profunda na demografia eleitoral brasileira — e seu voto, agora, importa mais do que nunca.
O Brasil está envelhecendo, e isso está redesenhando o mapa político. Pessoas com mais de 60 anos passaram de 21% do eleitorado em 2022 para 23,6% em 2026, enquanto o eleitorado geral cresceu apenas 1,5%. Mais significativo ainda: o grupo de eleitores com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, saltou de 9,5% para 10,8% — um total de 17.251.915 pessoas aptas a votar neste ciclo. Em 2022, 45,3% desse grupo compareceu ao segundo turno, representando 6,7 milhões de eleitores. Foi a maior presença desse grupo desde 2014, quando o Tribunal Superior Eleitoral começou a registrar esses dados.
No outro extremo, os jovens estão se afastando. O número de adolescentes de 16 e 17 anos que tiraram título de eleitor caiu 23% em relação à eleição anterior — de 2,1 milhões para 1,6 milhão, representando apenas 1% do eleitorado total. A queda supera até mesmo a redução populacional dessa faixa etária, que recuou 5,6% segundo projeção do IBGE. Parte dessa desistência se explica por maior burocracia para obter o título — durante a pandemia, o processo era digital — e pela ausência de campanhas de estímulo como as do ciclo anterior, quando artistas e influenciadores mobilizavam os mais jovens em shows e nas redes sociais.
Pesquisas agregadas do Datafolha de agosto e setembro revelam o tamanho dessa inversão. Quando perguntados se votariam caso o voto não fosse obrigatório, apenas 50% dos jovens de 16 a 24 anos responderam que sim. Entre pessoas de 60 a 69 anos, o índice sobe para 61%. No grupo acima de 70 anos, chega a 76%. A média geral é de 59%. O interesse em política segue padrão semelhante: 14% dos jovens dizem ter grande interesse em política, enquanto 37% dos maiores de 70 anos relatam o mesmo. "O que vemos nos dois extremos é contraintuitivo", observa Luciana Chong, diretora do Datafolha. "Os jovens deveriam ser os mais interessados em votar, mas quem está engajado são os mais velhos. As pessoas com mais de 70 anos hoje são uma fatia da população economicamente ativa, não é mais aquele perfil que ficava em casa, e é um voto que pode fazer toda a diferença."
Essa diferença se traduz em preferências eleitorais claras. Entre eleitores de 60 a 69 anos, 44% pretendem votar em Lula (PT) e 31% em Flávio Bolsonaro (PL). No grupo acima de 70 anos, Lula sobe para 46% e Flávio para 35%. A margem de erro para a faixa de 60 a 69 anos é de 3 pontos percentuais; para maiores de 70, de 5 pontos. Chong aponta que a rejeição a Lula é maior entre a "geração Lava Jato" — eleitores de 35 a 44 anos que presenciaram os desdobramentos da operação que culminou na prisão de Lula e que definem corrupção como o maior problema do país. Para os mais velhos, pesam políticas de aposentadoria e proteção da renda. Trata-se de uma geração que viveu além da Lava Jato: a "década perdida" de 1980, marcada por hiperinflação e estagnação econômica.
Rosangela Gallinati, professora de 64 anos, ainda não chegou aos 70, mas sempre votou. Ao escolher seu candidato, preocupa-se com impostos, aposentadoria do INSS e saúde pública — ela não tem convênio particular. "São fatores que, aos 18 anos, eu não vivia", diz. Para ela, votar é exercer um direito de escolha e, simultaneamente, uma responsabilidade: "Temos que exercer para podermos cobrar ações dos governantes que forem eleitos. A informação e a participação são fundamentais."
Geograficamente, o voto idoso está concentrado em estados específicos. Rio Grande do Sul lidera com 14,5% do eleitorado acima de 70 anos, seguido por Rio de Janeiro (14,3%), Minas Gerais (12,7%), São Paulo (11,4%) e Espírito Santo (11,3%). As maiores altas desde 2022 ocorreram em estados que elegeram Jair Bolsonaro: Rio Grande do Sul (3,8%), Distrito Federal (3,6%), Paraná (3,4%) e Espírito Santo (3,4%). Chong nota que em 2026 não é só o jovem que está desestimulado, mas o eleitor em geral. "Havia uma mobilização para tirar o ex-presidente Bolsonaro do poder, um voto pela defesa da democracia. Pode ser que daqui para frente a campanha mude, mas hoje não temos o Lula falando tanto da defesa da democracia, e o eleitor entendeu que Flávio não é o Bolsonaro. Pode até haver uma abstenção maior." O voto do idoso, portanto, deixa de ser periférico e se torna central — um grupo numeroso, engajado e com preferências claras em um eleitorado geral menos mobilizado.
Notable Quotes
Hoje me envolvo muito mais porque percebi que, me posicionando, meus netos e filhos poderiam viver em um país livre, consciente e melhor— Ana Velchev, aposentada de 70 anos
O que vemos nos dois extremos é contraintuitivo, os jovens deveriam ser os mais interessados em votar, mas quem está engajado são os mais velhos— Luciana Chong, diretora do Datafolha