Economista vê 'casamento' entre crises econômica e política que afasta investimentos

Famílias endividadas sofrem com inflação que descapitalizou população; desemprego elevado afeta trabalhadores brasileiros.
Discurso radical totalmente desligado da realidade só deixa as pessoas mais inseguras
Mendonça de Barros sobre como a radicalização política amplifica o medo em meio à crise econômica.
Mark

Quando o economista fala em "casamento" entre crises econômica e política, o que exatamente ele quer dizer?

Mimi

Que não são problemas separados que acontecem ao mesmo tempo. São problemas que se alimentam. A crise econômica real — inflação, desemprego, seca — deixa as pessoas assustadas. E aí entra a radicalização política, que em vez de oferecer soluções, aumenta a incerteza. Isso afasta investimento. Menos investimento piora a economia. Mais medo político. É um círculo.

Mark

Mas por que os discursos de Bolsonaro em 7 de Setembro foram tão importantes? Não era só mais um dia de campanha?

Mimi

Não. Mendonça de Barros chama de "ponto de virada". Até então havia esperança de que a economia se recuperasse. Mas aqueles discursos antidemocráticos — com o presidente tendo apenas 25% de apoio — criaram um tipo de incerteza que os investidores não conseguem precificar. Como você investe em um país onde o presidente faz ameaças democráticas? Empresas começam a sair.

Mark

Ele menciona que empresas estão postergando investimentos. Isso é reversível?

Mimi

Ele diz explicitamente que não. O desembarque, na avaliação dele, é "irreversível". Uma vez que um investidor sai, ele não volta só porque o discurso melhorou. Ele vai procurar outro lugar. E isso acontece enquanto a inflação está acima de 8% e as famílias estão endividadas.

Mark

Qual é a parte que mais o preocupa — a economia ou a política?

Mimi

Acho que ele vê a política como o fator que torna a economia insolúvel. A crise econômica é real, mas poderia ser enfrentada. A radicalização política impede que qualquer solução seja aprovada no Congresso. Ele diz: "Deu um nó. Eu acho que não vai se aprovar mais nada." Isso é desesperança.

Mark

E as famílias? Como elas aparecem nessa análise?

Mimi

Como vítimas. A inflação "descapitalizou todo mundo". Muitas estão endividadas. O consumo travou porque as pessoas não têm poder de compra. Ele reconhece que "vai ser um problema para muita gente, infelizmente". Não é uma análise fria de números.

  • A inflação, que deveria encerrar o ano em 6%, já ultrapassava 8% em setembro, corroendo o poder de compra de famílias endividadas e estagnando o consumo interno.
  • A crise hídrica ameaçava levar os reservatórios a menos de 10% da capacidade até o fim do ano, pressionando tarifas e colocando em risco a continuidade da produção industrial.
  • Os discursos de 7 de Setembro marcaram um ponto de inflexão: apoiadores e investidores começaram a abandonar o governo de forma crescente e concreta, não apenas simbólica.
  • Empresas passaram a postergar decisões de investimento e aberturas de capital, enquanto o Brasil permanecia isolado dos fluxos corporativos que animavam economias europeias e norte-americanas.
  • A projeção de crescimento de 1,4% para 2022 já era revisada para baixo, com analistas considerando a possibilidade real de uma pequena recessão no fim de 2021 ou início de 2022.

Em setembro de 2021, o Brasil se encontrava preso entre duas crises que se alimentavam mutuamente: uma deterioração econômica acelerada — com inflação acima de 8%, desemprego elevado e uma crise hídrica à espreita — e uma radicalização política que transformava incerteza em paralisia. O economista José Roberto Mendonça de Barros, com décadas de experiência na condução da política econômica brasileira, observava que os discursos antidemocráticos do presidente Bolsonaro não eram apenas retórica, mas um catalisador que afastava investidores e bloqueava qualquer agenda de recuperação. Era o momento em que cada problema amplificava o outro, e a única certeza disponível era a da incerteza.

José Roberto Mendonça de Barros, economista com passagem pela secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda nos anos 1990, descrevia o Brasil de setembro de 2021 como um país aprisionado entre duas crises que se retroalimentavam. Os atos do 7 de Setembro e os discursos do presidente Bolsonaro representavam, em sua avaliação, um ponto de inflexão negativo — o momento em que uma deterioração econômica preocupante se fundiu com uma instabilidade política de tom radical.

Os números já eram graves antes disso. A inflação projetada em 6% havia ultrapassado 8%. O desemprego permanecia elevado. Uma crise hídrica se aproximava com reservatórios caminhando para menos de 10% da capacidade, ameaçando tanto as contas das famílias quanto a produção industrial. O orçamento enviado ao Congresso em agosto carecia de consistência, os precatórios haviam explodido como problema fiscal e o Banco Central reagia sempre tarde demais à curva de juros.

Mas foi a radicalização política que converteu incerteza em paralisia. Com apenas 25% de apoio popular, Bolsonaro pronunciava discursos que Mendonça de Barros caracterizava como antidemocráticos e desconectados dos problemas reais do país. O efeito era concreto: um desembarque crescente de apoiadores e investidores, e empresas que passavam a adiar decisões de investimento e aberturas de capital. Diferentemente dos Estados Unidos e da Europa, o Brasil não contava com fluxos corporativos que pudessem amortecer o impacto.

O economista não descartava uma pequena recessão no fim de 2021 ou início de 2022. A indústria perdia força, o consumo havia estagnado e as exportações eram praticamente o único motor em funcionamento. A projeção de crescimento para 2022 já era revisada para baixo. E faltava mais de um ano para as eleições — tempo suficiente para que cada crise continuasse amplificando a outra, sem que qualquer agenda econômica do Executivo encontrasse caminho no Congresso.

José Roberto Mendonça de Barros, economista que ocupou a secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 1995 e 1998, observa o Brasil em setembro de 2021 como um país preso entre duas crises que se alimentam mutuamente. Os discursos do presidente Jair Bolsonaro nos atos de 7 de Setembro marcaram, em sua avaliação, um ponto de inflexão — não para melhor, mas para pior. O que antes era uma deterioração econômica preocupante transformou-se em algo mais grave: uma combinação de instabilidade política radical com indicadores econômicos em queda livre.

A inflação, que analistas projetavam em 6% para o ano, já ultrapassava 8%. O desemprego permanecia elevado. Uma crise hídrica se desenhava no horizonte, com projeções indicando que os reservatórios de água chegariam ao fim do ano com menos de 10% de sua capacidade — um cenário que ameaçava não apenas as contas das famílias, através de tarifas mais altas, mas a própria continuidade da produção industrial. Mendonça de Barros, sócio-fundador da consultoria MB Associados, havia mantido ceticismo moderado em maio. Mas a velocidade da deterioração surpreendeu até ele. O orçamento enviado ao Congresso em agosto carecia de consistência. Os precatórios — dívidas judiciais do governo — explodiram como problema. O Banco Central corria atrás da curva de juros, sempre reagindo tarde demais.

Mas foi a radicalização política que transformou incerteza em paralisia. Bolsonaro, com 25% de apoio segundo Mendonça de Barros, pronunciava discursos que ele caracteriza como antidemocráticos e completamente desligados dos problemas reais do Brasil. Isso gerava um grau de incerteza que afastava investidores e empresários. Não era apenas retórica: havia um desembarque real e crescente de apoiadores do governo, uma busca por alternativas políticas que se manifestava de formas diversas — algumas reservadas, outras explícitas. Empresas começavam a postergar decisões de investimento e aberturas de capital. Diferentemente dos Estados Unidos e de países europeus, que viam fluxos de investimento corporativo mesmo em tempos incertos, o Brasil não teria esse alento.

O economista não descartava uma pequena recessão no final de 2021 ou início de 2022. A indústria, que havia puxado a recuperação por meses, perdia força. O consumo havia estagnado e permaneceria assim: a inflação havia descapitalizado as famílias, muitas delas endividadas. As exportações eram praticamente o único motor funcionando. A projeção de crescimento de 1,4% para 2022 já estava sendo revista para baixo. Indicadores do segundo semestre apontavam para o vermelho.

Mendonça de Barros via a situação como um nó político que impediria a aprovação de qualquer agenda econômica do Executivo no Congresso. Empresas que esperavam sair do buraco e retomar crescimento não poderiam mais contar com isso. O discurso radical, em suas palavras, deixava pessoas e empresários inseguros. E faltava mais de um ano para as eleições. A combinação de crise econômica genuína com crise política de tom dramático criava um cenário onde cada problema amplificava o outro, e onde a única certeza era a incerteza.

Há agora um casamento de uma piora do cenário econômico com uma óbvia piora do cenário político
— José Roberto Mendonça de Barros, economista
O discurso radical não tem nada a ver com os problemas que o Brasil enfrenta, e deixa as pessoas e os empresários inseguros
— José Roberto Mendonça de Barros
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