Ebola ultrapassa 5 mil mortes no Congo e se torna o segundo surto mais letal da história

Mais de 5 mil pessoas morreram e 10 mil foram infectadas; um terço das mortes ocorreu sem qualquer atendimento em centros de tratamento.
Pessoas que nunca tivemos a chance de tentar salvar
Patrick Otim, da OMS, sobre o terço das vítimas que morreu sem chegar a um centro de tratamento.
Mark

Por que o número de 5.026 mortes pesa tanto?

Mimi

Porque coloca este surto como o segundo mais mortal da história, atrás só do da África Ocidental, de 2014 a 2016, com 11 mil mortes.

Mark

E o que mais preocupa a OMS?

Mimi

Um terço dos mortos nunca chegou a um centro de tratamento. Patrick Otim diz que muitos morreram antes de serem testados.

Luke

Esse terço é dado da OMS, não? Não vi detalhe de como foi calculado.

Mimi

Correto, vem de Otim. A reportagem não explica o método.

Mark

E o rastreamento de contatos?

Mimi

O Africa CDC estima que cerca de 80% dos novos casos estão fora das cadeias monitoradas.

Luke

Convém lembrar que é estimativa de uma instituição. Mostra a direção do problema, não uma contagem exata.

Mark

A falta de vacina agrava tudo?

Mimi

Sim. Vacinas contra a espécie Zaire não têm eficácia comprovada contra a Bundibugyo, então só há cuidados de suporte.

Luke

E o que não sabemos é quando haverá uma terapia aprovada. O texto não aponta previsão.

  • Mais de 10 mil infectados e 5.026 mortos: a letalidade beira os 50%, e o surto já é o segundo mais mortal da história do ebola.
  • Oitenta por cento dos novos casos escapam das cadeias de contato, deixando as autoridades correndo atrás de um vírus que se espalha em silêncio.
  • Um terço dos mortos nunca chegou a um centro de tratamento, falecendo antes mesmo de ser testado.
  • Em Tchomia, profissionais cruzaram os braços após quatro meses sem salário, enquanto os pacientes seguem internados sem resposta completa.
  • Sem vacina ou terapia aprovada para a espécie Bundibugyo, a resposta se apoia em rastreio e cuidados de suporte, e o alcance já chega ao Quênia, à Nigéria e a Uganda.

Num vale do leste do Congo, onde a terra já carrega décadas de conflito, um vírus sem vacina nem tratamento aprovado avança sobre comunidades que mal conseguem chegar aos centros de saúde. Os números oficiais, que somam mais de cinco mil mortes, lembram que cada cifra é uma família desfeita e que a história das epidemias muitas vezes se escreve menos pelo medo do que pela distância entre quem adoece e quem pode cuidar. Este surto ocupa agora um lugar sombrio na memória africana da doença, e a pergunta que ele deixa é simples e dura: como chegar antes da morte?

Na sexta-feira, 30, os funcionários de um centro de tratamento de ebola em Tchomia, na província de Ituri, no leste do Congo, cruzaram os braços. Cobravam quatro meses de salários atrasados. A unidade cuidava de cinco pacientes confirmados e dez casos suspeitos. A paralisação revela, em miniatura, o que torna este surto tão difícil de conter.

Neste sábado, 31, o Ministério da Saúde informou que o vírus Bundibugyo já matou 5.026 pessoas entre 10.351 infectadas, com letalidade próxima de 50%. Declarado em maio, o surto é o segundo mais mortal da história, atrás apenas da epidemia da África Ocidental de 2014 a 2016. O epicentro está no leste, em Ituri e Kivu do Norte, onde a doença atingiu 67 das 178 zonas de saúde do país.

O maior obstáculo é rastrear quem teve contato com os doentes. Segundo o Africa CDC, cerca de 80% dos novos casos estão fora das cadeias monitoradas. Um terço dos mortos nunca chegou a uma unidade de tratamento; muitos morreram antes de serem testados. O médico Patrick Otim, da OMS, descreveu essas pessoas como aquelas que a equipe nunca teve chance de salvar, e perguntou como alcançá-las mais cedo.

A resposta esbarra nos conflitos armados, na resistência de parte da população e nas greves sem salário. O vírus também cruzou fronteiras: Quênia e Nigéria confirmaram casos em outubro, e Uganda já havia registrado infecções. Não há vacina nem terapia aprovada para a Bundibugyo, que não responde às ferramentas desenvolvidas contra a Zaire. Por ora, rastrear contatos e levar os doentes cedo aos centros seguem como as principais frentes de combate.

Na sexta-feira, 30, os funcionários de um centro de tratamento de ebola em Tchomia, na província de Ituri, no leste do Congo, pararam de trabalhar. Cobravam quatro meses de pagamentos atrasados. A unidade cuida de cinco pacientes com diagnóstico confirmado e de dez casos suspeitos. A paralisação resume parte do que torna este surto tão difícil de conter.

Neste sábado, 31, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo informou que o surto causado pelo vírus Bundibugyo já matou 5.026 pessoas entre 10.351 infectadas. A letalidade é de quase 50%. Outras 2.788 pessoas se recuperaram. Declarado em meados de maio, o surto é agora o segundo mais mortal da história, atrás apenas da epidemia da África Ocidental entre 2014 e 2016, que matou 11 mil pessoas em diferentes países.

Desde maio, a doença chegou a 67 das 178 zonas de saúde do Congo, em oito das 26 províncias. O epicentro está no leste: Ituri e Kivu do Norte somam 9.782 casos confirmados e 4.792 mortes. O patrocinador do alerta mais duro vem da Organização Mundial da Saúde. Para o médico Patrick Otim, gerente de área de programas da OMS, o marco é trágico porque não se trata apenas de um número: são famílias e comunidades devastadas.

Um dos maiores obstáculos é rastrear quem teve contato com os doentes. Segundo o Africa CDC, cerca de 80% dos novos casos estão fora das cadeias de contatos monitoradas pelas autoridades. Além disso, um terço das pessoas que morreram nunca chegou a um centro de tratamento; segundo Otim, muitas morreram antes mesmo de serem testadas. Ele definiu esse grupo como pessoas que a equipe nunca teve a chance de tentar salvar, e perguntou como chegar mais cedo a elas e fazê-las procurar unidades de saúde.

A resposta esbarra ainda nos conflitos armados no leste do país, na resistência de parte da população às medidas de saúde e nas greves de profissionais sem salário, como a de Tchomia.

O surto também cruzou fronteiras. Em outubro, Quênia e Nigéria confirmaram casos. O Quênia registrou oito infecções e duas mortes; na Nigéria, o único paciente confirmado foi transferido para a Suíça. Uganda já havia registrado casos. Com ocorrências em três regiões africanas, este é considerado o surto de maior alcance geográfico já visto no continente.

O ebola é causado por vírus da família Filoviridae, com espécies como Zaire, Sudan e Bundibugyo. É uma zoonose; morcegos frugívoros são tidos como hospedeiros naturais, relação ainda em estudo. A transmissão entre pessoas ocorre por contato direto com sangue ou outros fluidos de alguém infectado, vivo ou morto, ou com objetos contaminados. Não é transmitido pelo ar. Os sintomas incluem febre alta e repentina, dor de cabeça, dores musculares, fraqueza intensa, diarreia e vômitos e, nos casos graves, hemorragias e falência de órgãos.

A espécie Bundibugyo foi identificada pela primeira vez em 2007, no distrito de mesmo nome, em Uganda. Difere da Zaire, responsável pela epidemia de 2014 a 2016, e isso pesa: vacinas e tratamentos desenvolvidos contra a Zaire não têm eficácia comprovada contra a Bundibugyo. Não há, até agora, vacina nem terapia específica aprovada. Os pacientes recebem cuidados de suporte para aliviar sintomas e tratar complicações. Sem essas ferramentas, o rastreio de contatos e o acesso precoce a atendimento seguem como principais frentes da resposta.

É um marco muito trágico porque não se trata apenas de um número. São famílias e comunidades devastadas por esse surto.
— Patrick Otim, gerente de área de programas da OMS
Cerca de 80% dos novos casos estão fora das cadeias de contatos monitoradas pelas autoridades.
— Africa CDC (paráfrase)
Fale Conosco FAQ