Num sábado de outubro, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo confirmou que o surto de ebola causado pela espécie Bundibugyo já soma 5.026 mortes entre 10.351 infectados, um número que coloca a crise entre as mais letais já registradas. Trata-se de uma doença que se espalha em silêncio pelas comunidades do leste do país, onde famílias perdem seus mortos antes que alguém possa nomeá-los como casos. Diante de uma ameaça para a qual ainda não existem vacina nem tratamento específico aprovados, a resposta depende menos de armas novas do que de algo mais antigo e frágil: chegar a t
Ebola ultrapassa 5 mil mortes no Congo e atinge letalidade próxima de 50%
Pessoas que nunca tivemos a oportunidade de tentar salvar
Num sábado de outubro, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo confirmou que o surto de ebola causado pela espécie Bundibugyo já soma 5.026 mortes entre 10.351 infectados, um número que coloca a crise entre as mais letais já registradas. Trata-se de uma doença que se espalha em silêncio pelas comunidades do leste do país, onde famílias perdem seus mortos antes que alguém possa nomeá-los como casos. Diante de uma ameaça para a qual ainda não existem vacina nem tratamento específico aprovados, a resposta depende menos de armas novas do que de algo mais antigo e frágil: chegar a tempo às pessoas e lembrar que cada cifra é uma vida.
O Ministério da Saúde da República Democrática do Congo divulgou neste sábado, 31, um balanço que pesa: 5.026 mortes entre 10.351 pessoas infectadas pelo vírus Bundibugyo. A letalidade se aproxima de 50%, e 2.788 pessoas já se recuperaram. O surto, declarado em meados de maio, é agora o segundo mais mortal da história, atrás apenas da epidemia da África Ocidental, entre 2014 e 2016.
A doença já chegou a 67 das 178 zonas de saúde do país, em oito das 26 províncias, com maior concentração no leste, em Ituri e Kivu do Norte. Para Patrick Otim, gerente de programas da Organização Mundial da Saúde, os números não contam tudo. Ele fala de famílias e comunidades devastadas, e de pessoas que nunca tiveram a chance de ser salvas.
Um terço dos mortos nunca chegou a um centro de tratamento. Muitos morreram antes mesmo de serem testados. Enquanto isso, cerca de 80% dos novos casos estão fora das cadeias de contato monitoradas, segundo o Africa CDC. A resposta esbarra em conflitos armados, na desconfiança de parte da população e em greves de profissionais sem salário. Na sexta-feira, funcionários de um centro em Tchomia, em Ituri, cruzaram os braços para cobrar quatro meses de atraso, numa unidade que atende cinco pacientes confirmados e dez suspeitos.
O vírus cruzou fronteiras. Quênia registrou oito infecções e duas mortes, e a Nigéria teve um paciente confirmado, transferido para a Suíça. Uganda também já havia registrado casos. Como não há vacina nem terapia específica para a Bundibugyo, os pacientes recebem apenas cuidados de suporte. A transmissão ocorre por contato direto com sangue ou fluidos, vivos ou mortos, e não pelo ar. Sem armas específicas, o caminho segue sendo rastrear contatos e levar os doentes mais cedo aos serviços de saúde.
O Ministério da Saúde da República Democrática do Congo divulgou neste sábado, 31, o balanço mais recente do surto de ebola no país: 5.026 mortes entre 10.351 pessoas infectadas. A taxa de letalidade chega a quase 50%. Outras 2.788 pessoas se recuperaram da doença.
O surto, causado pelo vírus Bundibugyo, foi declarado em meados de maio. Já é o segundo mais mortal da história, atrás apenas da epidemia da África Ocidental, entre 2014 e 2016, que matou 11 mil pessoas em diferentes países.
Desde maio, a doença chegou a 67 das 178 zonas de saúde do Congo, espalhadas por oito das 26 províncias. A maior concentração está no leste, em Ituri e Kivu do Norte, que somam 9.782 casos confirmados e 4.792 mortes. Para Patrick Otim, gerente de área de programas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número não conta tudo: "É um marco muito trágico porque não se trata apenas de um número", disse ele, lembrando das famílias e comunidades devastadas.
Um dado pesa especialmente: um terço das pessoas que morreram nunca chegou a um centro de tratamento. Segundo Otim, muitas morreram antes mesmo de serem testadas. "São pessoas que nunca tivemos a oportunidade de tentar salvar", afirmou, questionando como chegar mais cedo a esses doentes e levá-los a buscar unidades de saúde.
O rastreamento de contatos é outro obstáculo. Segundo os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), cerca de 80% dos novos casos estão fora das cadeias de contatos monitoradas pelas autoridades. A resposta também esbarra em conflitos armados no leste, na resistência de parte da população às medidas de saúde e em greves de profissionais que estão sem salário.
Na sexta-feira, 30, funcionários de um centro de tratamento em Tchomia, em Ituri, pararam as atividades para cobrar quatro meses de pagamentos atrasados. A unidade atende cinco pacientes com diagnóstico confirmado e dez casos suspeitos.
O surto cruzou fronteiras. Em outubro, Quênia e Nigéria confirmaram casos. O Quênia registrou oito infecções e duas mortes; na Nigéria, o único paciente confirmado foi transferido para a Suíça. Uganda também já havia registrado casos. Com ocorrências em três regiões africanas, é considerado o surto de maior alcance geográfico já observado no continente.
A espécie Bundibugyo foi identificada pela primeira vez em 2007, no distrito de mesmo nome, em Uganda, e difere da espécie Zaire, responsável por grandes surtos, como o de 2014 a 2016. Vacinas e tratamentos desenvolvidos contra a Zaire não têm eficácia comprovada contra a Bundibugyo. Não há, portanto, vacina nem terapia específica aprovada: os pacientes recebem cuidados de suporte para aliviar sintomas e tratar complicações. A transmissão se dá por contato direto com sangue ou fluidos de pessoa infectada, viva ou morta, ou com objetos contaminados, e não pelo ar. Sem armas específicas, o avanço dependerá de rastrear contatos e de levar os doentes mais cedo aos serviços de saúde.
Citations marquantes
É um marco muito trágico porque não se trata apenas de um número.— Patrick Otim, gerente de área de programas da OMS