Douglas Ruas eleito presidente da Alerj com 44 votos; grupo de Paes boicota votação

Votação aberta tornava impossível vencer com apenas 22 deputados
Explicação do cálculo que levou o grupo de Paes a abandonar a disputa pela presidência da Alerj.
Mark

Por que o boicote do grupo de Paes foi tão decisivo aqui? Eles tinham alguma chance real de vencer?

Mimi

Não. Somados, PL, PP e União Brasil ultrapassam os 36 votos necessários para eleger um presidente. O grupo de Paes tem apenas 22 deputados. Em votação aberta, era matematicamente impossível vencer.

Luke

Mas espera — em março, alguns deputados do PSD votaram em Ruas mesmo assim. Por que a dinâmica mudou?

Mimi

Porque em março a votação também era aberta, mas o tribunal anulou o resultado. Desta vez, Paes decidiu não dar legitimidade a um processo que ele considera prejudicial.

Mark

E o que muda agora que Ruas é presidente da Alerj? Ele assume o governo?

Mimi

Não. O tribunal mantém o desembargador Ricardo Couto como governador até que o STF decida sobre uma eleição-tampão. Ruas terá que pleitear ao Supremo uma mudança nessa posição.

Luke

Então ele é presidente da Alerj mas não governa o estado. Qual é o ganho político real?

Mimi

Controle da Casa, poder de agenda legislativa, e posição de força para a disputa ao governo em outubro contra Paes. Além disso, sinaliza que o PL tem força para impor sua vontade.

Mark

Qual é a história de Ruas que explica por que ele chegou aqui?

Mimi

Filho do prefeito de São Gonçalo, trabalhou canalizando recursos federais para o município através de emendas parlamentares. Tem trânsito na polícia — é inspetor concursado — e apoio de Altineu Côrtes, o principal dirigente do PL no estado.

Luke

Mas há questões. Sua família tem histórico de violência policial, seu irmão se envolveu em uma briga de trânsito que deixou um sargento ferido. Como isso não prejudica sua candidatura?

Mimi

Para o PL, isso é um trunfo, não um problema. Depois da operação no Complexo do Alemão que matou 122 pessoas e foi aprovada por 64% da população, a pauta de segurança pública é central. Ruas encarna isso.

Mark

E Paes? Como ele vê Ruas como adversário?

Mimi

Paes está preocupado. Ruas é popular no segundo maior colégio eleitoral do Rio e conquistou cacife com prefeitos do interior através de obras de pavimentação. Paes quer evitar um embate com alguém conectado ao desejo de linha-dura de parte da população.

  • Douglas Ruas eleito com 44 votos na sexta-feira, 17 de abril
  • Grupo de Paes boicotou a eleição; aliança somava 22 deputados contra 36 necessários
  • Segunda eleição em menos de um mês; primeira foi anulada pelo tribunal em 26 de março
  • São Gonçalo atraiu R$ 250,5 milhões do orçamento secreto desde 2020 sob gestão de Ruas
  • Ruas não assume o governo estadual; desembargador Ricardo Couto permanece como governador

Douglas Ruas, inspetor da Polícia Civil e filho do prefeito de São Gonçalo, venceu a eleição com apoio de PL, PP e União Brasil, ultrapassando os 36 votos necessários. A aliança de Eduardo Paes abandonou a disputa após decisão judicial manter votação aberta, considerando impossível vencer nesse formato com apenas 22 deputados.

O deputado estadual Douglas Ruas (PL), pré-candidato ao governo do Rio, foi eleito presidente da Assembleia Legislativa com 44 votos. O grupo de Eduardo Paes boicotou a eleição em protesto contra a votação aberta.

Douglas Ruas, inspetor da Polícia Civil e filho do prefeito de São Gonçalo, foi eleito presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio na manhã de sexta-feira com 44 votos. A eleição ocorreu em sessão pública, com votação aberta — cada deputado chamado em ordem alfabética para declarar seu voto no microfone. O resultado consolidou o domínio do PL sobre a Casa, apoiado também pelo PP e União Brasil, partidos que já haviam declarado apoio a Ruas na disputa ao governo estadual marcada para outubro. O grupo político de Eduardo Paes, pré-candidato ao governo e provável adversário de Ruas nas urnas, boicotou integralmente o processo. Deputados do PSD, PT, PCdoB, PSB, PDT e MDB — somando 22 parlamentares — abandonaram o plenário em protesto contra a manutenção da votação aberta, considerando-a uma desvantagem insuperável. O PSOL, com cinco deputados, também se retirou, optando por obstrução em vez de lançar candidatura própria.

Esta foi a segunda eleição para a presidência da Alerj em menos de um mês. No dia 26 de março, Ruas já havia sido eleito com apoio de 45 deputados, mas o Tribunal de Justiça do Rio anulou a sessão horas depois, atendendo a pedidos do PSD e PDT. Naquela ocasião, até parlamentares do próprio PSD de Paes haviam votado em Ruas. Desta vez, a decisão judicial foi diferente. A desembargadora Suely Lopes Magalhães, que assumiu a presidência do TJRJ enquanto o desembargador Ricardo Couto governa o estado, rejeitou um pedido do PDT para que a votação fosse secreta. Em seu despacho, Magalhães argumentou que a definição do formato de votação para a eleição da Mesa Diretora da Alerj se insere na autonomia organizacional da Casa Legislativa, e que não havia risco concreto aos deputados em uma votação aberta.

A trajetória de Ruas está marcada pela atuação em São Gonçalo, município onde trabalhou como secretário de Gestão Integrada e Projetos Especiais — pasta responsável por desenhar convênios que justificavam a alocação de recursos federais e estaduais. Desde 2020, São Gonçalo atraiu 250,5 milhões de reais do orçamento secreto, com 17,2 milhões apenas em pavimentação, tudo indicado pelo deputado federal Altineu Côrtes, principal dirigente do PL no estado e antigo chefe de Ruas. Às vésperas da eleição de 2022, quando Ruas se elegeu para seu primeiro mandato de deputado estadual, São Gonçalo era o quinto município do país que mais havia recebido emendas de relator — a modalidade que ficou conhecida como orçamento secreto e foi extinta pelo Supremo Tribunal Federal no final daquele ano. Ruas é inspetor concursado da Polícia Civil desde 2013, licenciado desde 2019 quando assumiu superintendência no Instituto Estadual do Ambiente por indicação de Côrtes.

Seu pai, Nelson Ruas, é prefeito de São Gonçalo e ex-capitão da Polícia Militar conhecido pela atuação em patrulhas táticas. Nelson recebeu mais de uma vez a antiga gratificação faroeste, criada em 1995 para premiar policiais por produtividade, modalidade que levou a aumento de mortes causadas em serviço. A patrulha em que atuava era conhecida como carruagem do além, em referência à letalidade em operações. Nelson venceu a eleição para prefeito em 2020 contra o petista Dimas Gadelha e foi reeleito com facilidade em 2024. O irmão mais velho de Douglas, Nelsinho, se elegeu vereador em São Gonçalo em 2020 e foi reeleito em 2024. Os dois são sócios em uma empreiteira, a Saur Construções, aberta em 2011. Nelsinho também é dono de um haras de mesmo nome em Itaboraí. No fim do ano passado, ao retornar ao haras depois de um passeio com a família, Nelsinho se envolveu em uma briga de trânsito que terminou com um sargento da PM ferido por tiros.

Para interlocutores do PL, apesar do histórico familiar turbulento, Ruas possui um estilo mais polido que lhe permite transitar com facilidade em outros grupos sem perder apoio do setor policial. Em novembro do ano passado, participou do podcast Papo Reto, programa de bate-papo com policiais focado em segurança pública e propaganda de armas, onde apresentou o figurino linha-dura que o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, busca para seu palanque no estado. Quando o PL definiu Ruas como candidato ao governo do Rio em outubro, com o ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa como vice, Flávio rasgou elogios ao correligionário, destacando sua experiência como ex-secretário de Cidades do Estado e sua reputação na política.

A eleição para a presidência da Alerj ocorre em contexto de disputa maior pelo controle da máquina estadual. O Rio está sendo governado pelo desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça, após a prisão do governador Cláudio Castro e o afastamento do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. O entendimento atual do TJRJ é que Couto continua como governador até que o STF defina o formato da eleição-tampão para substituir Castro. Portanto, Douglas Ruas não deve assumir o governo mesmo eleito presidente da Alerj. Integrantes do PL chegaram a sugerir que Ruas não fosse candidato e abrisse caminho para Guilherme Delaroli, que chefia a Assembleia de forma interina desde a prisão de Bacellar no ano passado, mas lideranças partidárias afirmaram que Ruas será o candidato. Após assumir a presidência da Alerj, ele e o partido deverão pleitear ao STF uma mudança no entendimento que mantém Couto à frente do governo. O julgamento do Supremo foi suspenso por pedido de vista do ministro Flávio Dino, que argumentou ser necessário aguardar a publicação da decisão do TSE que condenou Castro por abuso de poder.

Entendemos que há um grupo querendo perpetuar as ações que o Cláudio Castro implementou, de uso da máquina pública em benefício próprio. Não queremos legitimar isso.
— Renata Souza, deputada estadual e líder do PSOL
Douglas é ex-secretário de Cidades do Estado, deputado estadual, uma grande liderança, jovem, policial civil, e realizou um trabalho extraordinário à frente da Secretaria de Cidades do Rio de Janeiro.
— Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência
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