Numa terça-feira de véspera de Natal, o câmbio e a bolsa brasileiros respiraram aliviados depois de um pregão tenso, com o dólar recuando a partir de um patamar de quase cinco meses e o Ibovespa retomando os 160 mil pontos. O alívio nasce de dados que sugerem que a inflação do Brasil segue em desaceleração, ainda que não tenha voltado ao centro da meta, e de um crescimento americano bem acima do que se previa após a longa paralisação do governo em Washington. Enquanto a economia se acomoda, a política começa a ocupar o horizonte do próximo ano, e o mercado, mais uma vez, pesa cada nome como qu
Dólar cai e Ibovespa sobe com cenário político, prévia da inflação e PIB dos EUA em alta
Um corte em janeiro ficou fora do radar
O dólar tinha disparado na véspera e hoje caiu. O que mudou de um dia para o outro?
Os dados do dia ajudaram: o IPCA-15 veio em linha com o esperado e o PIB americano surpreendeu. Mas o pano de fundo político, a sucessão de 2026, continua pesando.
Cuidado com a causalidade. A reportagem lista os fatores do dia, mas não demonstra qual deles moveu o câmbio. Isso é leitura, não fato apurado.
E o PIB dos EUA, por que importa aqui?
Cresceu 4,3% no terceiro trimestre, contra 3,3% estimados. É a primeira divulgação depois do shutdown de mais de 40 dias, o maior da história.
O texto não explica como esse número afeta o real. Apenas o coloca entre os destaques do dia.
E a inflação?
O IPCA-15 de dezembro foi de 0,25% e fecha o ano em 4,41%, dentro da meta, mas acima do centro. Serviços seguem pressionados.
E os economistas divergem: o do Inter vê corte da Selic em janeiro como provável, o da Ancord diz que janeiro saiu do radar, e o do PicPay aposta em março. São projeções, não decisões do Copom.
E a entrevista de Bolsonaro?
Foi cancelada por ele, por questões de saúde, segundo o bilhete.
Exato: a razão é a que ele declarou; o texto não traz confirmação independente.
Der Puls
- O dólar chegou a tocar R$ 5,596 e depois despencou para cerca de R$ 5,54, num vaivém que deixou investidores com os nervos à flor da pele.
- O Ibovespa voltou a subir mais de 1% e reconquistou os 160 mil pontos, após uma segunda-feira de queda.
- O IPCA-15 de dezembro veio em 0,25%, e a inflação de 2025 fechou em 4,41%, dentro do teto da meta, mas ainda acima do centro.
- O PIB americano surpreendeu ao crescer 4,3% no terceiro trimestre, impulsionado pela primeira divulgação após o shutdown recorde, enquanto analistas disputam se os cortes da Selic começam em janeiro ou só em março.
Numa terça-feira de véspera de Natal, o câmbio e a bolsa brasileiros respiraram aliviados depois de um pregão tenso, com o dólar recuando a partir de um patamar de quase cinco meses e o Ibovespa retomando os 160 mil pontos. O alívio nasce de dados que sugerem que a inflação do Brasil segue em desaceleração, ainda que não tenha voltado ao centro da meta, e de um crescimento americano bem acima do que se previa após a longa paralisação do governo em Washington. Enquanto a economia se acomoda, a política começa a ocupar o horizonte do próximo ano, e o mercado, mais uma vez, pesa cada nome como quem avalia uma aposta sobre o futuro do país.
Às 15h02 desta terça-feira, o dólar era negociado a R$ 5,542, em queda de 0,75%, depois de ter fechado a véspera no maior patamar em quase cinco meses. Foi um dia de alívio após um pregão de forte alta, com a moeda tocando a máxima de R$ 5,596 e a mínima de R$ 5,533. Mesmo assim, o dólar ainda acumula alta de 4,66% em dezembro, embora perca quase 10% frente ao real no ano.
O Ibovespa seguiu na direção oposta: subia 1,41% e voltava aos 160 mil pontos, recuperando o terreno perdido na segunda-feira. A bolsa brasileira soma valorização de 31,47% em 2025, apesar de uma leve queda no mês.
Na política, o mercado reagiu mal à informal candidatura do senador Flávio Bolsonaro para 2026, vista como menos competitiva contra Lula. Parte dos investidores, que apostava em Tarcísio de Freitas, passou a precificar sua permanência em São Paulo. Também houve expectativa frustrada: Jair Bolsonaro, preso desde 22 de novembro, cancelou por questões de saúde a entrevista que concederia ao Metrópoles.
Na economia doméstica, o IPCA-15 de dezembro subiu 0,25%, com transportes liderando as altas, enquanto artigos de residência seguiram em queda. Economistas dividem-se: para o Banco Inter, a desinflação se consolida e o corte da Selic pode vir em janeiro; para a Ancord, a pressão em serviços como passagens aéreas torna esse corte improvável, e o consenso aponta para março.
Lá fora, o PIB dos EUA cresceu 4,3% no terceiro trimestre, bem acima das projeções de 3,3%, na primeira divulgação após a paralisação de mais de 40 dias do governo americano. A pergunta que fica é se a desaceleração dos serviços permitirá ao Banco Central começar a baixar os juros logo no início de 2026.
Às 15h02 desta terça-feira (23/12), o dólar era negociado a R$ 5,542, em queda de 0,75%, depois de ter encerrado a véspera a R$ 5,584, o maior valor em quase cinco meses, desde 30 de julho. Na sessão, a moeda chegou a tocar a máxima de R$ 5,596 e a mínima de R$ 5,533. Às 13h34, o recuo era de 0,7%, a R$ 5,545. Com a queda, o dia ganhou contornos de alívio depois de um pregão anterior de forte alta, de 0,99%.
Os números do mês e do ano mostram a dimensão do movimento. Mesmo com o recuo de terça, o dólar acumula alta de 4,66% em dezembro, mas ainda perde 9,65% em 2025 frente ao real. O Ibovespa, por sua vez, operava em alta firme: às 15h10, subia 1,41% e voltava aos 160 mil pontos (160,3 mil). Na segunda-feira, o índice havia fechado em baixa de 0,21%, aos 158,1 mil pontos. A Bolsa brasileira soma queda de 0,58% no mês e valorização de 31,47% no ano.
No noticiário político, os investidores voltaram os olhos para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026. Nas últimas semanas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi lançado informalmente como possível candidato, com apoio do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O mercado reagiu mal, por entender que o nome do parlamentar não é o mais competitivo contra Lula. Amplos setores apostavam no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e agora precificam a saída dele da corrida presidencial e sua provável candidatura à reeleição paulista.
Houve ainda expectativa em torno da primeira entrevista de Jair Bolsonaro desde que foi preso, em 22 de novembro, na carceragem da Superintendência da Polícia Federal. Ele concederia entrevista exclusiva ao Metrópoles, autorizada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Em bilhete escrito à mão enviado à coluna do jornalista Paulo Cappelli, cancelou o encontro: "Informo que não concederei entrevista nesta data, por questões de saúde". Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e 3 meses pela trama golpista. Sua última fala à imprensa foi em 15 de julho; três dias depois, Moraes impôs medidas cautelares, como tornozeleira eletrônica e proibição de postar em redes sociais.
Na economia doméstica, o destaque foi o IPCA-15, a prévia da inflação. Segundo o IBGE, ficou em 0,25% em dezembro, 0,05 ponto percentual acima de novembro (0,2%). No ano, o indicador fecha em 4,41%; em dezembro de 2024, a taxa mensal fora de 0,34%. No trimestre de outubro a dezembro, a alta foi de 0,63%, contra 1,51% um ano antes. Sete dos nove grupos pesquisados subiram; transportes teve a maior variação e o maior impacto (0,69% e 0,14 p.p.). Artigos de residência (-0,64%) registraram a quarta queda seguida. As demais variações iam de -0,01% em saúde e cuidados pessoais a 0,69% em vestuário.
Para André Valério, economista sênior do Banco Inter, apesar da piora qualitativa, o resultado indica consolidação da desinflação. Ele espera um primeiro trimestre de 2026 com inflação mais fraca e vê como provável o início do corte da Selic em janeiro, sem descartar que o Banco Central espere a reunião de março. Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, avaliou que o dado veio em linha com o esperado, com serviços pressionados, como passagens aéreas, e alívio em alimentação no domicílio e bens industriais; para ele, um corte em janeiro ficou fora do radar. Matheus Pizzani, do PicPay, mantém projeção de 4,4% para o IPCA de 2025 e início dos cortes em março.
No exterior, o PIB dos EUA cresceu 4,3% no terceiro trimestre, segundo o Departamento de Comércio, bem acima dos 3,3% projetados por analistas. No segundo trimestre, a alta revisada foi de 3,8%; no primeiro, houve recuo de 0,5%. É a primeira divulgação desde o shutdown, a paralisação do governo americano que durou mais de 40 dias, a maior da história. A dúvida que fica para os próximos meses é se a desaceleração dos preços de serviços permitirá o início dos cortes da Selic em janeiro ou só em março.
Bemerkenswerte Zitate
Informo que não concederei entrevista nesta data, por questões de saúde.— Jair Bolsonaro, em bilhete à coluna de Paulo Cappelli
O resultado de dezembro aponta para a consolidação do processo de desinflação.— André Valério, economista sênior do Banco Inter