Quando um jornalista se senta diante de alguém responsável por centenas de mortes, a pergunta que emerge não é apenas sobre culpa ou inocência — é sobre a própria natureza do testemunho. O espanhol Jordi Évole fez exatamente isso ao entrevistar Josu Ternera, ex-dirigente da ETA, organização que ceifou 853 vidas ao longo de cinco décadas, no documentário 'No me llame Ternera', disponível na Netflix. Ao recusar tanto o espetáculo do confronto quanto a suavidade da absolvição, Évole transforma a entrevista em um exercício raro: o de obrigar a memória a conviver com suas próprias contradições.
Documentário de Jordi Évole sobre ETA redefine os limites da entrevista jornalística
Entrevistar não significa concordar. Significa retirar do personagem o conforto das respostas prontas.
Por que uma entrevista com um ex-líder terrorista provoca tanto debate? Não deveria ser simples — ou você entrevista ou não entrevista?
Porque a questão não é tão binária. Quando você entrevista alguém responsável por 853 mortes, está fazendo uma escolha sobre como a história será contada. Está oferecendo tempo, espaço, voz. Isso é sempre perigoso.
Então Évole estava errado em fazer isso?
Não. Ele estava ciente do perigo. Por isso o documentário não é uma conversa confortável. Ele não deixa Ternera descansar em suas respostas prontas. Retorna, insiste, confronta.
Qual é a diferença entre isso e dar palco a um terrorista?
A diferença está no método. Se você apenas deixa alguém falar, está glorificando. Se você escuta atentamente e depois questiona o que ouve, está investigando. Está permitindo que o espectador veja as contradições.
E se o espectador não vir as contradições? Se sair simplesmente convencido?
Então o jornalismo falhou. Mas Évole não falha. Ele constrói a entrevista de forma que as evasivas e as justificativas se tornem visíveis. O documentário é sobre isso — sobre como fazer jornalismo quando o tema é impossível.
Il Polso
- A simples decisão de entrevistar Ternera dividiu a Espanha — para alguns, um serviço à memória histórica; para outros, um palco concedido a um terrorista.
- A ETA deixou 853 mortos e milhares de feridos em mais de cinco décadas, e sua sombra ainda pesa sobre qualquer tentativa de narrar esse passado sem reabrir feridas.
- Évole resiste à tentação do tribunal e do espetáculo, insistindo em perguntas que expõem evasivas, silêncios e justificativas que o próprio entrevistado parece não ter revisitado há anos.
- O documentário transforma a questão central: não 'deve-se entrevistar um terrorista?', mas 'como fazê-lo sem trair as vítimas nem a verdade?'
- Em um tempo dominado por vídeos de segundos e conversas fragmentadas, o filme emerge como defesa silenciosa do jornalismo que exige tempo, escuta e preparação.
Quando um jornalista se senta diante de alguém responsável por centenas de mortes, a pergunta que emerge não é apenas sobre culpa ou inocência — é sobre a própria natureza do testemunho. O espanhol Jordi Évole fez exatamente isso ao entrevistar Josu Ternera, ex-dirigente da ETA, organização que ceifou 853 vidas ao longo de cinco décadas, no documentário 'No me llame Ternera', disponível na Netflix. Ao recusar tanto o espetáculo do confronto quanto a suavidade da absolvição, Évole transforma a entrevista em um exercício raro: o de obrigar a memória a conviver com suas próprias contradições.
Um novo documentário na Netflix coloca em cena uma das perguntas mais incômodas do jornalismo contemporâneo: como entrevistar alguém responsável por mortes em massa sem transformar a conversa em espetáculo ou em absolvição? O jornalista espanhol Jordi Évole enfrentou esse dilema ao sentar-se com Josu Ternera, ex-dirigente da ETA — organização que matou 853 pessoas ao longo de mais de cinco décadas antes de se dissolver formalmente em 2018.
A ETA nasceu em 1959, sob a ditadura de Franco, como movimento nacionalista basco, e tornou-se uma das organizações terroristas mais violentas da Europa Ocidental. Seus atentados, assassinatos e sequestros deixaram policiais, militares, políticos e civis entre as vítimas, além de milhares de feridos. A decisão de Évole de conceder longa entrevista a Ternera provocou debate intenso na Espanha — mas o documentário rapidamente desloca essa questão para outra, mais funda: não se deve ou não entrevistar, mas como fazê-lo com rigor e responsabilidade.
Évole não confronta de forma teatral nem faz concessões. Insiste, retorna às perguntas, explora silêncios e confronta versões — permitindo que as contradições do entrevistado emerjam por conta própria, diante do espectador. O resultado é um exercício raro: a entrevista como instrumento de memória, não de julgamento nem de reabilitação.
Em tempos de conteúdo cada vez mais fragmentado, 'No me llame Ternera' lembra que compreender o mal não significa justificá-lo — significa enfrentá-lo com as perguntas que poucos têm coragem e paciência de fazer. No fim, o grande protagonista do documentário talvez não seja Ternera, mas o próprio jornalismo.
Há um documentário novo na Netflix que força uma pergunta incômoda: como se entrevista alguém responsável por mortes em massa sem transformar a conversa em espetáculo ou em absolvição? O jornalista espanhol Jordi Évole enfrentou exatamente isso ao sentar-se com Josu Ternera, um dos principais dirigentes da ETA, a organização que matou 853 pessoas ao longo de mais de cinco décadas.
Évole construiu sua reputação conversando com chefes de Estado, empresários e figuras centrais da política contemporânea — Nicolás Maduro, José Mujica, Evo Morales — sempre com o mesmo método: menos teatro de confronto, mais espaço para que o entrevistado revele suas próprias contradições. Mas "No me llame Ternera" representa talvez o teste mais severo de sua carreira. A simples decisão de conceder uma longa entrevista a Ternera provocou debate intenso na Espanha. Estaria um jornalista oferecendo palco a um terrorista ou prestando um serviço à memória histórica?
A ETA nasceu em 1959, ainda sob a ditadura de Francisco Franco, como movimento nacionalista basco. Transformou-se em uma das organizações terroristas mais violentas da Europa Ocidental. Durante cinco décadas, realizou atentados, assassinatos e sequestros que deixaram 853 mortos — policiais, militares, políticos, civis — e milhares de feridos. Abandonou a luta armada em 2011 e dissolveu-se formalmente em 2018, deixando uma ferida profunda na história espanhola recente.
O que torna o documentário notável não é apenas o ato de entrevistar Ternera, mas a transformação da própria entrevista em objeto de reflexão. A questão deixa de ser "deve-se entrevistar um terrorista?" e passa a ser "como entrevistar um terrorista?". Évole não faz concessões nem busca humilhar. Faz algo muito mais difícil: insiste, retorna às perguntas, confronta versões, explora silêncios. Seu maior mérito é compreender que entrevistar não significa concordar. Significa retirar do personagem o conforto das respostas prontas e obrigá-lo a conviver com as próprias contradições.
O documentário tampouco procura absolver Ternera. Ao contrário. Ao lhe dar tempo para falar, permite que o espectador perceba, por conta própria, as justificativas, as evasivas e os momentos em que a memória parece mais conveniente do que precisa. É um exercício de jornalismo raro, justamente porque resiste à tentação de transformar uma entrevista em tribunal ou em espetáculo. Em tempos de conversas cada vez mais curtas, pensadas para render vídeos de poucos segundos nas redes sociais, o documentário lembra que o melhor jornalismo continua dependendo de tempo, escuta e preparação.
Compreender o mal não significa justificá-lo. Significa enfrentá-lo com perguntas que poucos têm coragem — e paciência — de fazer. No fim, talvez o grande protagonista do documentário nem seja o ex-dirigente da ETA, mas o próprio jornalismo. Évole demonstra que ainda há espaço para entrevistas capazes de iluminar a história sem abrir mão do rigor. E essa talvez seja a principal razão para assistir ao filme.
Citazioni salienti
Compreender o mal não significa justificá-lo. Significa enfrentá-lo com perguntas que poucos têm coragem — e paciência — de fazer.— Análise do documentário