Pesquisa publicada em Scientific Reports analisou amostras oficiais de 1978 usando sequenciamento metagenômico, encontrando DNA de cenoura, trigo, cães, gatos e até coral-vermelho do Mediterrâneo. Diferentes linhagens de DNA mitocondrial humano sugerem contato com populações da Eurásia Ocidental e Oriente Médio, enquanto presença de espécies das Américas indica contaminação em períodos recentes.
DNA do Santo Sudário revela séculos de contato humano e ambiental
Um arquivo biológico vivo de séculos de contato humano
Por que os cientistas conseguem identificar DNA de coral do Mediterrâneo, mas não conseguem dizer quando o Sudário foi feito?
Porque o tecido é um palimpsesto biológico. Cada pessoa que o tocou, cada ambiente onde esteve, deixou marcas genéticas. Essas marcas se sobrepõem. O DNA antigo, se ainda existe, está enterrado sob séculos de contaminação.
Então o achado do DNA do médico que coletou as amostras em 1978 — isso invalida toda a pesquisa?
Não invalida, mas complica. Mostra exatamente o problema que os cientistas enfrentam. Não é possível separar com segurança o que é original do que foi acumulado depois. Por isso eles falam em cautela.
A presença de plantas das Américas — milho, amendoim — isso prova que o Sudário é medieval?
Não prova nada sobre a idade. Prova que em algum momento, depois que essas plantas chegaram à Europa, o Sudário esteve em contato com pessoas ou ambientes onde elas existiam. Pode ter sido no século 16, pode ter sido no 19.
E o coral vermelho? Como ele chegou lá?
Provavelmente não entrou em contato direto. Alguém que tinha estado perto do coral, ou tinha comido algo que veio do Mediterrâneo, tocou no Sudário. O DNA viajou assim, de forma indireta.
Então o que essa pesquisa realmente nos diz?
Que o Sudário é um objeto que circulou, que foi tocado por muitas pessoas, que esteve em ambientes diferentes. Que sua história é uma história de movimento e contato. Mas não nos diz quando começou.
El Pulso
- Estudo publicado em julho de 2026 na Scientific Reports analisou amostras de 1978
- Identificadas linhagens de DNA mitocondrial humano K1a1b1a, H2a2, H1b e H33
- DNA de cenoura, trigo, milho, cães, gatos e coral-vermelho do Mediterrâneo encontrado no tecido
- Datação por radiocarbono de 1988 indicou período de 1260 a 1390, mas com questionamentos posteriores
Pesquisa publicada em Scientific Reports analisou amostras oficiais de 1978 usando sequenciamento metagenômico, encontrando DNA de cenoura, trigo, cães, gatos e até coral-vermelho do Mediterrâneo. Diferentes linhagens de DNA mitocondrial humano sugerem contato com populações da Eurásia Ocidental e Oriente Médio, enquanto presença de espécies das Américas indica contaminação em períodos recentes.
Estudo genético identifica múltiplas linhagens de DNA humano, plantas, animais e microrganismos no Santo Sudário, revelando sua trajetória através de séculos de contato humano e exposição ambiental.
O Santo Sudário guarda em suas fibras um arquivo biológico vivo — séculos de contato humano e ambiental comprimidos em tecido. Uma análise genética publicada em julho na revista Scientific Reports mapeou esse registro, identificando múltiplas linhagens de DNA humano, material genético de plantas, animais, bactérias, fungos e microrganismos que prosperam em ambientes salinos. Os pesquisadores trabalharam com amostras oficiais coletadas em 1978, usando sequenciamento metagenômico de nova geração para reconstruir a história biológica da relíquia.
O estudo não determina a idade do tecido — essa não era a intenção. Em vez disso, os cientistas usaram ferramentas modernas de genética forense para investigar as marcas que se acumularam ao longo do tempo. Noemi Procopio, professora de Ciência Forense da Universidade de Lancashire, descreveu o Sudário como um arquivo rico em informações genéticas, produto de séculos de interação humana e exposição ambiental. A análise identificou diferentes linhagens de DNA mitocondrial humano — K1a1b1a, H2a2, H1b e H33 — com distribuições distintas entre populações da Eurásia Ocidental e do Oriente Médio, sugerindo que o tecido esteve em contato com pessoas de regiões diferentes.
Um achado exigiu atenção especial. A linhagem K1a1b1a, encontrada em três amostras, também apareceu no genoma de Pierluigi Baima Bollone, o professor e médico que participou da coleta em 1978. A análise de parentesco indicou uma relação próxima entre os DNAs das amostras e o do coletor — um exemplo concreto do desafio central que enfrenta qualquer investigação genética do Sudário: distinguir vestígios antigos daqueles deixados por pessoas que tocaram, examinaram ou manipularam o tecido depois. Os pesquisadores encontraram sinais compatíveis com DNA moderno e ressaltam que o contato humano acumulado dificulta a identificação de uma eventual assinatura genética original.
Além do DNA humano, foi reconstruído um microbioma formado por bactérias, fungos e arqueias. Entre as bactérias aparecem espécies frequentemente associadas à pele humana. As arqueias pertencem principalmente a grupos capazes de tolerar altas concentrações de sal. Andrea Squartini, pesquisador da Universidade de Pádua, descreveu um microbioma rico, com microrganismos da pele e comunidades adaptadas a ambientes salinos.
A diversidade biológica se estende ao reino vegetal. Os pesquisadores identificaram material genético de cenoura, trigo, milho, banana e amendoim, além de tomate, batata, pimentas e frutas. A cenoura apresentou um dos sinais mais abundantes entre as plantas, geneticamente mais próxima de variedades antigas desenvolvidas na Europa Ocidental — indicativo de contaminação relativamente recente. Também foram identificados animais domésticos: cães e gatos entre os principais grupos, acompanhados por galinhas, bovídeos, porcos, cavalos, cervos e coelhos. Vestígios de ratos e camundongos também apareceram, possivelmente relacionados à contaminação ambiental.
Um dos achados mais marcantes foi o DNA do coral-vermelho (Corallium rubrum), espécie endêmica do Mediterrâneo. Giovanni Gabelli, pesquisador da Universidade de Pádua, apresentou esse resultado como evidência da exposição do tecido a diferentes ambientes. A presença dessas espécies não significa necessariamente contato direto com cada uma delas — os pesquisadores consideram a possibilidade de contaminação secundária, na qual o material genético chega ao Sudário por meio de pessoas que tiveram contato com animais, plantas ou outros objetos.
O conjunto dos resultados sugere que o Sudário esteve exposto a diferentes pessoas, ambientes e regiões ao longo de sua história. Alguns dos vegetais identificados têm origem na Ásia ou nas Américas e chegaram posteriormente à Europa e ao Mediterrâneo, ajudando a indicar que parte da contaminação ocorreu em períodos recentes. Os autores discutem a presença de espécies que se espalharam pelo Velho Mundo depois das viagens de Marco Polo e Cristóvão Colombo — uma hipótese que pode ajudar a reconstruir a circulação posterior do tecido, mas não permite determinar quando ou onde ele foi produzido. Gianni Barcaccia, professor da Universidade de Pádua e coordenador do estudo, afirmou que essas evidências genéticas integram investigações forenses e dados históricos e radiométricos já disponíveis, mas precisam ser interpretadas com cautela porque o DNA encontrado representa a sobreposição de sinais biológicos acumulados ao longo do tempo.
Este trabalho se soma a estudos anteriores. Em 1988, três laboratórios independentes utilizaram datação por radiocarbono e chegaram a uma faixa de 1260 a 1390, resultado interpretado como indicativo de origem medieval — embora o artigo de 2026 mencione questionamentos posteriores sobre a homogeneidade dos dados e a necessidade de novos testes. Uma análise genética publicada em 2015 identificou DNA humano e de plantas. O novo trabalho utiliza uma abordagem diferente: sequenciamento metagenômico de nova geração sem amplificação por PCR, aplicado a 12 itens coletados em 1978, incluindo filamentos de linho, amostras de poeira e um pequeno fragmento biológico. Para os pesquisadores, essa mistura é justamente o que torna o objeto tão interessante para a ciência — ela permite investigar como a peça foi manuseada, conservada e exposta ao ambiente, ainda que não seja possível separar com segurança um eventual DNA original de tudo aquilo que foi acumulado posteriormente.
Citas Notables
O Sudário representa um rico arquivo de informações genéticas que se acumulou ao longo de séculos de interação humana e exposição ambiental— Noemi Procopio, Universidade de Lancashire
Essas evidências genéticas integram as investigações forenses e os dados históricos e radiométricos já disponíveis, mas precisam ser interpretadas com cautela porque o DNA encontrado representa a sobreposição de sinais biológicos acumulados ao longo do tempo— Gianni Barcaccia, Universidade de Pádua