Discord: a plataforma de jogos que se tornou palco para crimes contra animais e menores

Animais foram torturados e mortos para produção de conteúdo comercial ilegal.
Criminosos adultos exploram a insegurança da plataforma contra crianças
Promotora descreve padrão de crimes contra menores documentado no Discord desde 2023.
Mark

Por que o Discord se tornou tão atrativo para atividades criminosas quando existem outras plataformas de comunicação?

Mimi

Porque foi construído especificamente para comunidades privadas e descentralizadas. Redes sociais como Facebook ou Instagram priorizam conteúdo público e têm moderação centralizada. No Discord, você cria um servidor, você modera, você controla. A empresa não vê o que acontece ali dentro.

Mark

A ferramenta de controle parental resolve o problema?

Mimi

Resolve apenas parcialmente. Ela permite que pais vejam com quem seus filhos falam, mas não o que falam. E exige aprovação do adolescente para funcionar. É um passo, mas não é suficiente quando criminosos adultos estão do outro lado da conversa.

Mark

Como uma mulher consegue vender vídeos de abuso animal em uma plataforma com 200 milhões de usuários?

Mimi

Porque esses vídeos são compartilhados em grupos privados, muitas vezes criptografados ou com acesso restrito. A plataforma não tem visibilidade sobre o que acontece dentro desses espaços. Ela só age quando alguém denuncia.

Mark

O Discord deveria ser mais restritivo?

Mimi

Talvez. Mas há uma tensão real: quanto mais restritivo, menos atrativo para usuários legítimos que querem privacidade. A plataforma foi criada para permitir liberdade de comunicação. O problema é que criminosos exploram essa mesma liberdade.

Mark

O que muda depois de um caso como esse?

Mimi

Geralmente, pressão por mais moderação, mais ferramentas de controle parental, mais denúncias. Mas a estrutura descentralizada permanece. Enquanto existirem grupos privados, existirá espaço para atividades que a empresa não consegue ver ou controlar.

  • Uma empresária paulista foi presa por suspeitar-se que esmagava animais com as próprias mãos e pés para gravar e vender os vídeos a compradores europeus via Discord.
  • Ela foi solta horas depois porque os investigadores não conseguiram acessar seus celulares, impedindo a caracterização de flagrante — um obstáculo técnico que frustra a Justiça.
  • O Discord, com 200 milhões de usuários mensais, já foi documentado como espaço para chantagem de menores, grupos de hackers e agora abuso animal comercializado internacionalmente.
  • A estrutura da plataforma — popular entre jovens, fácil criação de grupos privados e moderação delegada aos próprios criadores de comunidades — é o que torna o controle tão difícil.
  • Em 2023, o Discord lançou a 'Central da Família' para dar visibilidade aos pais sobre as conexões dos filhos, mas a ferramenta não acessa o conteúdo das conversas nem resolve o problema central da moderação em escala.

Em São Paulo, uma empresária foi presa e solta após ser acusada de torturar e matar animais para vender os registros em vídeo pelo Discord — plataforma criada para unir jogadores, mas que se tornou, também, corredor para crimes que seus fundadores jamais anteciparam. O caso não é apenas sobre uma suspeita em liberdade: é sobre a tensão permanente entre a arquitetura aberta das plataformas digitais e a proteção dos mais vulneráveis, sejam eles humanos ou animais. A moderação descentralizada, que dá vida a milhões de comunidades legítimas, é a mesma brecha que permite que o sofrimento se torne mercadoria.

Uma empresária de São Paulo foi presa na quinta-feira, 28 de maio, acusada de torturar e matar animais — esmagando-os com os pés e as mãos — para gravar vídeos que vendia no Discord a compradores na Europa. Horas depois, Daiana Schuinsekel de Almeida foi liberada: os investigadores não conseguiram acessar seus celulares, o que impediu a caracterização de flagrante. Ela responderá em liberdade pelos crimes de maus-tratos animal e atos obscenos.

O caso ilumina uma contradição profunda no Discord. Criada em 2015 para que jogadores conversassem enquanto jogavam online, a plataforma cresceu até alcançar 200 milhões de usuários mensais em 2025 — expandindo-se durante a pandemia para trabalho, educação e socialização. No Brasil, o acesso é permitido a partir dos 13 anos. Mas a mesma infraestrutura que sustenta comunidades legítimas também abriga crimes: investigadores documentaram o uso da plataforma para chantagear menores com fotos íntimas, e ela se tornou ponto de encontro para hackers, comunidades de criptomoedas e movimentos como o incel.

Três características estruturais explicam a vulnerabilidade: a plataforma é amplamente conhecida entre jovens; permite criar grupos privados com facilidade; e a moderação é descentralizada, delegada aos próprios criadores de comunidades. Isso torna o controle centralizado quase inviável em escala.

Em setembro de 2023, o Discord lançou a 'Central da Família', ferramenta que permite aos responsáveis saber com quem seus filhos conversam e de quais comunidades participam — mas sem acesso ao conteúdo das mensagens. A ativação depende da aprovação do adolescente via QR code. É um passo, mas não resolve o problema fundamental: moderar simultaneamente milhões de comunidades privadas ao redor do mundo. O caso de Daiana segue em investigação, e a tensão entre liberdade digital e proteção dos vulneráveis permanece sem resposta definitiva.

Uma empresária de São Paulo foi presa na quinta-feira, 28 de maio, acusada de torturar e matar animais esmagando-os com os pés e as mãos para gravar vídeos que vendia no Discord. Daiana Schuinsekel de Almeida comercializava esse material com compradores na Europa através da plataforma de comunicação digital. Horas após sua prisão pela Polícia Civil, ela foi liberada porque os investigadores não conseguiram acessar seus celulares, o que impediu a caracterização de flagrante. Ela responderá em liberdade pelos crimes de maus-tratos animal e atos obscenos.

O caso traz à luz uma realidade incômoda sobre o Discord, uma plataforma que começou como ferramenta para jogadores conversarem enquanto jogavam online. Criada em 2015 pelos empresários Jason Citron e Stanislav Vishnevskiy, a plataforma oferece comunicação por texto, voz e vídeo, e permite transmissões ao vivo. No Brasil, o acesso é permitido a partir dos 13 anos. Com 200 milhões de usuários mensais globalmente em 2025, dos quais 93% jogam online, o Discord expandiu seu alcance muito além do público gamer, especialmente durante a pandemia, quando conquistou usuários interessados em trabalho, educação e socialização em geral.

Mas a mesma infraestrutura que permite comunidades legítimas também criou espaços para atividades criminosas. Investigadores e promotores têm documentado o uso da plataforma para chantagear menores, forçando-os a cumprir desafios sob ameaça de vazar fotos íntimas. Em maio de 2023, o programa Fantástico exibiu reportagem sobre essas práticas, com a promotora Maria Fernanda Balsalobra deixando claro que não se trata de adolescentes brincando, mas de criminosos adultos explorando a insegurança da plataforma contra crianças e adolescentes. O Discord também se tornou ponto de encontro para grupos de hackers, investidores em criptomoedas e movimentos de contracultura como o incel.

Três características estruturais do Discord facilitam essas atividades. Primeiro, a plataforma é amplamente conhecida entre jovens porque foi projetada para eles. Segundo, permite a criação de grupos privados com facilidade, diferentemente de redes sociais que priorizam conteúdo público. Terceiro, e talvez mais importante, a moderação é descentralizada: são os criadores das comunidades que fazem a maioria do trabalho de moderar usuários e mensagens, dificultando o controle centralizado da empresa sobre o que acontece dentro de seus servidores.

Em resposta às críticas sobre segurança, o Discord lançou em setembro de 2023 a ferramenta "Central da Família", que permite aos responsáveis saber com quais usuários seus filhos adolescentes estão conversando e de quais comunidades participam. A ferramenta, porém, não permite que os pais vejam o conteúdo das conversas. A ativação requer aprovação do adolescente e é feita através de código QR compartilhado entre os dispositivos. Embora represente um passo na direção de maior transparência, a ferramenta não resolve o problema fundamental: a dificuldade de moderar o que acontece em milhões de comunidades privadas simultaneamente.

O caso de Daiana Schuinsekel de Almeida exemplifica como plataformas digitais podem ser desviadas para fins que seus criadores nunca imaginaram. Enquanto a versão básica do Discord é gratuita e oferece funcionalidades robustas, e planos pagos chamados "Nitro" adicionam recursos como emojis personalizados e envio de arquivos maiores, a empresa enfrenta o desafio de equilibrar a liberdade que torna a plataforma atrativa com a necessidade de proteger usuários vulneráveis. O caso segue em investigação, e a suspeita responde pelos crimes em liberdade.

Não se trata de desafios praticados por adolescentes, mas de criminosos maiores de idade que exploram a insegurança da plataforma contra crianças
— Promotora Maria Fernanda Balsalobra, Fantástico (2023)
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