Diagnósticos de TDAH cresceram significativamente entre 2000 e 2018, com homens adultos jovens apresentando aumento de até 20 vezes nos diagnósticos e 50 vezes nas prescrições. A proporção entre diagnósticos masculinos e femininos em adultos se aproximou de 1:1, sugerindo que mulheres foram historicamente subdiagnosticadas devido a sintomas que não correspondiam à imagem tradicional do transtorno.
Diagnósticos de TDAH crescem globalmente; estudo aponta múltiplas explicações
Mulheres passaram anos sem identificação adequada
Por que você acha que as mulheres adultas estavam sendo tão negligenciadas nos diagnósticos?
Porque a imagem clássica do TDAH era a criança hiperativa, agitada, impulsiva. Muitas mulheres têm sintomas diferentes—desatenção, desorganização, dificuldade com funções executivas—que não se encaixam nesse retrato. Passaram despercebidas.
E agora que estão sendo diagnosticadas, isso significa que o TDAH está realmente mais comum?
Não necessariamente. Pode ser que o transtorno sempre tenha estado lá. O que mudou foi a capacidade de reconhecê-lo. Mas também há a possibilidade de superidentificação em alguns contextos.
Superidentificação? Como assim?
Quando a conscientização aumenta, às vezes as pessoas começam a ver o transtorno em lugares onde ele pode não estar. É um risco real que as pesquisadoras mencionam.
E quanto ao ambiente digital? Redes sociais realmente causam TDAH?
Não causam. Mas um ambiente fragmentado por notificações e vídeos curtos pode dificultar a concentração de qualquer pessoa. A questão é mais sutil—como o contexto atual afeta nossa capacidade de atenção.
O que preocupa mais as pesquisadoras: o aumento dos diagnósticos ou o uso de medicamentos por pessoas saudáveis?
Ambos. Mas o uso não médico levanta questões diferentes—segurança, eficácia, desigualdade. Há risco de pressão social para que pessoas saudáveis usem medicamentos para render mais.
Então não temos uma resposta clara para por que os diagnósticos crescem tanto?
Exatamente. É uma transformação complexa. Melhor reconhecimento, casos historicamente negligenciados, mudanças clínicas, ambiente digital, questões sociais. Tudo junto.
El Pulso
- Diagnósticos de TDAH em homens de 18 a 29 anos aumentaram aproximadamente 20 vezes entre 2000 e 2018
- Prescrições de medicamentos para TDAH aumentaram 32% entre adultos no Reino Unido entre 2021/22 e 2022/23
- Proporção de diagnósticos masculinos para femininos em adultos passou de 4:1 na infância para aproximadamente 1:1
Diagnósticos de TDAH cresceram significativamente entre 2000 e 2018, com homens adultos jovens apresentando aumento de até 20 vezes nos diagnósticos e 50 vezes nas prescrições. A proporção entre diagnósticos masculinos e femininos em adultos se aproximou de 1:1, sugerindo que mulheres foram historicamente subdiagnosticadas devido a sintomas que não correspondiam à imagem tradicional do transtorno.
Revisão de pesquisas mostra aumento expressivo de diagnósticos e prescrições de medicamentos para TDAH em diferentes idades e países, principalmente entre adultos, refletindo melhor reconhecimento de casos historicamente negligenciados.
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade deixou de ser uma conversa periférica sobre saúde mental. Nos últimos anos, diagnósticos e prescrições de medicamentos relacionados ao TDAH explodiram em diferentes países e faixas etárias, segundo uma revisão publicada no Journal of Psychopharmacology. Barbara J. Sahakian e Christelle Langley, pesquisadoras da Universidade de Cambridge, compilaram estudos recentes para mapear esse fenômeno e tentar compreender o que está por trás dos números crescentes.
Os dados revelam um avanço considerável na identificação do transtorno entre crianças, adolescentes e adultos. Mas essa expansão não significa necessariamente que mais pessoas estejam desenvolvendo TDAH. Uma das principais explicações é que casos que permaneceram invisíveis durante anos finalmente estão sendo reconhecidos. O TDAH sempre foi um transtorno do neurodesenvolvimento que acompanha as pessoas ao longo da vida, mas durante décadas ficou fortemente associado apenas à infância.
Os números do Reino Unido ilustram bem essa transformação. Entre 2000 e 2018, diagnósticos cresceram em todas as idades. Embora crianças tenham apresentado o maior crescimento em números absolutos, a mudança mais dramática ocorreu entre adultos. Homens de 18 a 29 anos tiveram seus diagnósticos multiplicados por aproximadamente 20 vezes no período, enquanto as prescrições de medicamentos chegaram a quase 50 vezes o registrado antes. Outro padrão chama atenção: durante a infância e adolescência, identificavam-se cerca de quatro meninos para cada menina diagnosticada. Na fase adulta, essa proporção se aproximou de um diagnóstico masculino para cada feminino. Esse dado sugere que mulheres passaram anos sem identificação adequada, seus sintomas não se encaixando na imagem mais conhecida do transtorno.
As pesquisadoras apontam múltiplas explicações para o crescimento. A ampliação do conhecimento sobre TDAH entre profissionais e população em geral é uma delas. Sintomas como dificuldade para manter a atenção, problemas de organização, impulsividade e alterações nas funções executivas podem ter acompanhado pessoas durante anos antes de serem associados ao transtorno. Conforme as autoras descrevem, houve avanços reais no reconhecimento de um transtorno historicamente negligenciado, especialmente entre adultos, além de maior conscientização clínica. Simultaneamente, elas consideram a possibilidade de ocorrer superidentificação em determinados contextos. Os números, portanto, refletem diferentes movimentos acontecendo ao mesmo tempo: pessoas que antes não tinham acesso a diagnóstico passaram a ser identificadas, enquanto em alguns ambientes pode haver identificação excessiva.
O contexto digital também entrou nessa discussão. A revisão chama atenção para uma rotina cada vez mais marcada por smartphones, notificações, redes sociais, vídeos curtos e realização simultânea de diferentes tarefas. Ambientes digitais fragmentados podem estar associados a maior distração e dificuldades para controlar a atenção. Isso não significa que celular ou redes sociais causem TDAH, mas faz parte de uma discussão mais ampla sobre como o ambiente atual afeta nossa capacidade de concentração. As pesquisadoras também abordaram fatores familiares. O TDAH possui importante componente hereditário, mas algumas pesquisas encontraram associações entre certos estilos parentais—tanto excessivamente controladores quanto muito permissivos—e dificuldades nas funções executivas. Novamente, associação não implica causa. As autoras destacam que essa relação é complexa.
Junto aos diagnósticos, o uso de medicamentos indicados para o transtorno cresceu significativamente. No Reino Unido, entre 2021/22 e 2022/23, prescrições de estimulantes e outros medicamentos para TDAH aumentaram 32% entre adultos e 12% entre crianças e adolescentes. A revisão também aborda outro fenômeno: o uso não médico dessas substâncias por pessoas sem TDAH. Esses medicamentos são utilizados com a intenção de melhorar o desempenho cognitivo—estudar por mais tempo, aumentar concentração e produtividade, diminuir fadiga ou manter o desempenho durante períodos prolongados de trabalho. Esse comportamento abre uma discussão diferente daquela relacionada ao tratamento do transtorno. As pesquisadoras levantam questões sobre segurança, eficácia e desigualdade, além da possibilidade de surgir pressão social para que pessoas saudáveis recorram a medicamentos na tentativa de produzir ou render mais.
Interpretar o crescimento dos diagnósticos exige cautela. Maior conscientização sobre o transtorno, identificação de pessoas que passaram anos sem diagnóstico, mudanças nas práticas clínicas, questões sociais e educacionais e possíveis influências do ambiente digital aparecem entre os fatores discutidos. Mais do que indicar uma causa isolada, os dados revelam uma transformação na maneira como o TDAH é reconhecido e compreendido—especialmente entre adultos que, durante muito tempo, ficaram fora do perfil tradicionalmente associado ao transtorno.
Citas Notables
Houve avanços reais no reconhecimento de um transtorno que historicamente era negligenciado, principalmente em homens e mulheres adultos, uma maior conscientização clínica e talvez também um certo grau de superidentificação em alguns contextos— Barbara J. Sahakian e Christelle Langley, pesquisadoras da Universidade de Cambridge