Diabetes tipo 2, antes associado a idosos, agora cresce principalmente entre mulheres brancas, asiáticas e negras com menos de 40 anos na Inglaterra. Estilo de vida sedentário e consumo excessivo de alimentos açucarados elevam obesidade juvenil, aumentando significativamente o risco de diabetes tipo 2 precoce.
Diabetes tipo 2 avança entre jovens, especialmente entre mulheres
A doença pode ser mais agressiva em pessoas jovens, aumentando o risco de complicações devastadoras
Por que o diabetes tipo 2 está crescendo especificamente entre mulheres jovens, e não igualmente entre homens?
Os dados mostram que está crescendo mais entre mulheres, mas a pesquisa não explica completamente o porquê. Há fatores biológicos — mulheres têm padrões diferentes de glicemia em jejum — e fatores sociais. Uma especialista aponta que mulheres enfrentam barreiras de segurança que limitam sua atividade física: medo de assédio, de humilhação. Isso reduz a chance de se exercitarem regularmente.
Então o problema não é apenas biológico ou de estilo de vida?
Não. É uma combinação. Sim, há sedentarismo e má alimentação — isso afeta todos. Mas há também uma camada de desigualdade de gênero que torna mais difícil para mulheres jovens se moverem com segurança. E há ainda o problema do diagnóstico tardio: mulheres recebem o diagnóstico mais tarde porque os testes usados rotineiramente não capturam bem o diabetes em mulheres.
Os testes não funcionam bem em mulheres?
O teste mais comum, a glicemia em jejum, oferece apenas um retrato de um momento. E a glicemia em jejum tende a ser mais baixa em mulheres do que em homens, então pode não detectar o problema. Testes mais precisos existem, mas custam mais e não são cobertos rotineiramente pelos seguros em muitos países.
Isso significa que os números que temos subestimam o real tamanho do problema?
Muito provavelmente. Se mulheres estão sendo diagnosticadas mais tarde, e alguns casos não são detectados, o número real de mulheres jovens com diabetes tipo 2 é provavelmente maior do que mostram os dados atuais.
Há algo que possa ser feito para reverter isso?
Sim. Quando detectado cedo, antes de virar diabetes completo, mudanças de vida — alimentação melhor, mais movimento — conseguem parar a progressão. Por isso os especialistas insistem em intervenções precoces. Mas isso exige diagnóstico melhor, ambientes mais seguros para mulheres se exercitarem, e políticas públicas que tornem alimentos saudáveis mais acessíveis.
E se não fizer nada?
Se deixar passar, a doença é mais agressiva em jovens. Aumenta o risco de complicações graves e reduz a expectativa de vida. É por isso que essa mudança de padrão — diabetes tipo 2 em jovens, especialmente mulheres — é tão preocupante.
O Pulso
- Diabetes tipo 2 cresce entre mulheres com menos de 40 anos na Inglaterra, invertendo padrão histórico
- Na Alemanha, casos de diabetes tipo 2 cresceram 5,8% ao ano entre adolescentes de 11 a 17 anos entre 2014 e 2023
- Mulheres recebem diagnóstico de diabetes tipo 2 mais tarde que homens, e testes rotineiros podem não detectar a doença em mulheres
Diabetes tipo 2, antes associado a idosos, agora cresce principalmente entre mulheres brancas, asiáticas e negras com menos de 40 anos na Inglaterra. Estilo de vida sedentário e consumo excessivo de alimentos açucarados elevam obesidade juvenil, aumentando significativamente o risco de diabetes tipo 2 precoce.
Estudo britânico revela aumento significativo de diabetes tipo 2 em mulheres menores de 40 anos, invertendo padrão histórico da doença. Especialistas apontam sedentarismo e má alimentação como principais causas.
Há uma geração, o diabetes tipo 2 tinha um rosto previsível: era a doença dos idosos, aquela que chegava aos 50, aos 60 anos, carregada no rastro de décadas de hábitos pouco saudáveis. O tipo 1, por sua vez, era coisa de jovem — uma doença autoimune, genética, que não tinha nada a ver com escolhas de vida. A linha entre elas era clara. Hoje essa linha desapareceu.
Pesquisadores do Imperial College London analisaram registros da Auditoria Nacional de Diabetes da Inglaterra entre 2011 e 2024 e encontraram algo que desafia a sabedoria convencional: enquanto o diabetes tipo 2 diminui entre adultos de 60 a 79 anos, ele cresce acelerado entre pessoas com menos de 40. E o crescimento não é uniforme. Os números mais alarmantes aparecem entre mulheres — brancas, asiáticas e negras na faixa dos 20 anos, e brancas na dos 30. Os resultados, publicados na revista The Lancet Regional Health Europe, revelam um padrão que surpreendeu até os especialistas. Shivani Misra, autora principal do estudo e professora associada de diabetes no Imperial College London, observa que a conversa sobre diabetes tipo 2 em jovens costumava focar em grupos étnicos minoritários. Mas agora a doença está avançando também entre a população branca, sinalizando que o problema deixou de ser uma questão de alguns grupos e virou um desafio de saúde pública para toda uma geração.
Na Alemanha, o cenário é igualmente preocupante. Baptist Gallwitz, endocrinologista e porta-voz da Sociedade Alemã de Diabetes, descreve a situação como uma pandemia em desenvolvimento. Entre 2014 e 2023, os casos de diabetes tipo 2 cresceram em média 5,8% ao ano entre adolescentes de 11 a 17 anos. A causa não é mistério: vivemos em um mundo onde nos movemos pouco e consumimos alimentos carregados de açúcar e calorias em excesso. Isso alimenta a obesidade juvenil, que por sua vez eleva dramaticamente o risco de diabetes tipo 2. No tipo 2, o pâncreas reduz a produção de insulina ou o corpo deixa de responder adequadamente ao hormônio, causando acúmulo de glicose no sangue. É diferente do tipo 1, onde as células produtoras de insulina são destruídas.
O que torna esse avanço particularmente grave é que a doença tende a ser mais agressiva quando surge cedo. Helen Kirrane, da organização Diabetes UK, no Reino Unido, é clara: qualquer diagnóstico de diabetes tipo 2 é sério, mas em pessoas jovens o risco de complicações devastadoras aumenta, assim como a possibilidade de redução da expectativa de vida. Por isso especialistas defendem intervenções precoces. Gallwitz reconhece que a Alemanha avançou ao introduzir um imposto sobre refrigerantes açucarados, mas considera a medida insuficiente. A Sociedade Alemã de Diabetes propõe um sistema de impostos escalonado — frutas e verduras isentas, taxas mais altas para produtos ricos em gorduras saturadas e açúcar — além de refeições mais saudáveis em creches e escolas e uma hora diária obrigatória de atividade física nos currículos.
Mas há um obstáculo que os números não capturam completamente. Alexandra Kautzky-Willer, chefe da divisão de endocrinologia e metabolismo da Universidade Médica de Viena e especialista em medicina de gênero, aponta que incentivar exercício físico não é suficiente. Mulheres que temem assédio nas ruas, humilhações relacionadas ao peso ou agressões físicas têm menos probabilidade de correr ao ar livre ou frequentar academias. O medo limita o movimento.
Há ainda outro problema invisível: o diabetes tipo 2 em mulheres é frequentemente subdiagnosticado. Kautzky-Willer e uma colega publicaram um artigo em 2025 na revista médica alemã Deutsches Ärzteblatt argumentando que mulheres recebem o diagnóstico mais tarde e já apresentam taxas maiores de obesidade, hipertensão e ganho de peso — fatores que também aumentam o risco de infarto e acidente vascular cerebral. O método de diagnóstico contribui para o problema. O teste mais usado é a medição da glicemia em jejum, que avalia o nível de açúcar após oito horas sem comer. Mas oferece apenas um retrato momentâneo e pode perder picos de glicose após as refeições. Além disso, a glicemia em jejum costuma ser mais baixa nas mulheres do que nos homens, o que pode levar a diagnósticos perdidos. Um teste de tolerância à glicose, que requer várias coletas de sangue ao longo de duas horas, seria mais preciso. Também seria útil medir HbA1c, um indicador que mostra a média da glicose sanguínea nos últimos dois ou três meses. Mas ambos os testes exigem mais recursos laboratoriais e custam mais caro. Na Alemanha e na Áustria, não são cobertos rotineiramente pelos seguros de saúde para rastreamento, ao contrário da glicemia em jejum. No Brasil, ambos fazem parte das diretrizes nacionais e são amplamente utilizados, embora a disponibilidade varie conforme o serviço e a região.
A boa notícia é que quando detectado cedo, o pré-diabetes pode ser interrompido. Mudanças na alimentação e no estilo de vida conseguem frear a progressão em alguns casos, reduzindo a necessidade futura de medicamentos e o risco de complicações graves. O desafio agora é identificar essas pessoas antes que seja tarde demais.
Citações Notáveis
Esse desafio de saúde pública está se ampliando para toda a geração, não apenas para grupos étnicos minoritários— Shivani Misra, Imperial College London
Vivemos em um mundo em que nos movimentamos pouco e consumimos alimentos com açúcar e calorias em excesso, o que leva ao aumento da obesidade entre os jovens— Baptist Gallwitz, Sociedade Alemã de Diabetes