Décadas após os primeiros avanços científicos contra o HIV, a medicina já oferece tratamentos que suprimem o vírus e impedem sua transmissão — mas o medo e a desinformação continuam a matar. Uma pesquisa internacional apresentada na 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro, revela que o estigma social em torno do HIV pode custar 440 mil vidas evitáveis nesta década, enquanto no Brasil apenas metade da população já realizou o teste. O que separa a cura do silêncio, hoje, não é a ciência: é a vergonha.
Desinformação sobre HIV aumenta mortes evitáveis e reforça estigma no Brasil
Testar positivo não é mais uma sentença de morte
Por que a desinformação sobre HIV continua tão prevalente, mesmo com décadas de pesquisa científica disponível?
Porque o medo é mais rápido que os fatos. As pessoas ouvem histórias de morte, de discriminação, de isolamento — e essas narrativas ficam. A informação correta é abstrata. Um diagnóstico positivo é concreto e assustador. O estigma alimenta o silêncio, e o silêncio alimenta mais desinformação.
A pesquisa mostra que 36% dos brasileiros acreditam que homens héteros não correm risco. Como isso ainda é possível?
Porque o HIV foi marcado como doença de certos grupos. Quando você ouve falar de HIV principalmente em contextos de comunidades LGBTQIA+ ou usuários de drogas, a mente cria uma categoria mental: "isso não é para mim". A realidade biológica — que o vírus não discrimina — fica invisível.
Apenas 29% sabem que carga viral indetectável não transmite. Isso é um fracasso da comunicação de saúde pública?
É um fracasso de múltiplas camadas. Falta investimento em campanhas públicas. Falta confiança nas instituições. E falta também uma narrativa positiva — as pessoas ouvem mais sobre morte do que sobre as vidas normais e saudáveis que as pessoas com HIV vivem hoje.
Se 440 mil mortes são evitáveis, por que não há mais urgência política?
Há urgência, mas ela compete com outras prioridades. E há também uma inércia: se o estigma mantém as pessoas longe dos testes, os números oficiais parecem menores do que realmente são. O problema fica invisível.
O Brasil alcançou duas das três metas 95-95-95. O que falta?
A segunda meta — garantir que 95% das pessoas que sabem que vivem com HIV estejam em tratamento. Mas isso depende da primeira: as pessoas precisam saber seu status. E para isso, precisam superar o medo de fazer o teste. Volta ao estigma.
Qual é a esperança aqui?
A esperança é que a ciência finalmente venceu. Uma pessoa com HIV sob tratamento vive uma vida normal. Isso não é promessa — é realidade. O trabalho agora é fazer essa realidade chegar às pessoas antes que o medo as alcance.
The Pulse
- A projeção de 440 mil mortes evitáveis nesta década transforma o estigma em uma emergência de saúde pública tão urgente quanto o próprio vírus.
- No Brasil, 36% das pessoas acreditam que homens heterossexuais não correm risco de infecção — uma crença que afasta exatamente quem mais precisa buscar testagem.
- Apenas 29% dos brasileiros sabem que carga viral indetectável não transmite o HIV, revelando um abismo entre o conhecimento científico e o que chega à população.
- O ex-jogador de rugby Gareth Thomas trouxe ao Rio de Janeiro sua trajetória pessoal como ferramenta de combate ao preconceito, defendendo que um diagnóstico positivo não é mais uma sentença de morte.
- O Brasil avançou em duas das três metas 95-95-95 da ONU e estuda incluir a PrEP injetável no SUS, mas os dados de desinformação mostram que o progresso técnico ainda não alcançou corações e mentes.
Décadas após os primeiros avanços científicos contra o HIV, a medicina já oferece tratamentos que suprimem o vírus e impedem sua transmissão — mas o medo e a desinformação continuam a matar. Uma pesquisa internacional apresentada na 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro, revela que o estigma social em torno do HIV pode custar 440 mil vidas evitáveis nesta década, enquanto no Brasil apenas metade da população já realizou o teste. O que separa a cura do silêncio, hoje, não é a ciência: é a vergonha.
A ciência já resolveu boa parte do problema. Uma pessoa com HIV em tratamento adequado não transmite o vírus, e os medicamentos disponíveis permitem uma vida plena, sem limitações físicas ou mentais. Mesmo assim, uma pesquisa internacional da campanha Tackle HIV projeta que o estigma social pode causar cerca de 440 mil mortes evitáveis nesta década — não por falta de remédio, mas por falta de informação e coragem para buscar o diagnóstico.
A pesquisa foi apresentada durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada pela primeira vez no Brasil, no Rio de Janeiro. Um dos rostos da campanha é Gareth Thomas, ex-jogador galês de rugby que em 2019 revelou publicamente ser HIV positivo. Para ele, o medo gerado pelo preconceito é tão prejudicial quanto o próprio vírus: afasta as pessoas da testagem, do tratamento e do convívio saudável com quem vive com HIV.
No Brasil, os números da pesquisa — realizada com 2.006 adultos — revelam um cenário preocupante. Apenas 48% já fizeram o teste de HIV. Entre os que cogitaram fazê-lo e desistiram, a maioria alegou não se considerar em risco. Essa percepção distorcida tem base em crenças equivocadas: 36% acreditam que homens heterossexuais não correm risco de infecção, e 19% ainda pensam que pessoas com HIV não podem ter vida sexual ativa. Apenas 29% conhecem o princípio científico de que carga viral indetectável significa não transmissão — um fato estabelecido há anos.
O país registrou 39.216 novos casos de infecção pelo HIV em 2024 e figura entre os 21 países onde os casos aumentaram, apesar da queda global. Ainda assim, o Brasil avançou: atingiu a primeira meta 95 da ONU em 2020 — 95% das pessoas com HIV conhecendo seu status — e a terceira em 2024, com 95% dos que estão em tratamento apresentando carga viral suprimida. O governo federal também estuda incluir a PrEP injetável no SUS, um método preventivo com duração de até seis meses.
Mas Thomas resume o desafio que permanece: fazer chegar às comunidades a mensagem de que um resultado positivo, hoje, não é uma sentença. É o começo de um tratamento. E o começo de uma vida normal.
A ciência avançou. Os medicamentos funcionam. Uma pessoa com HIV sob tratamento adequado não transmite o vírus. E ainda assim, centenas de milhares de pessoas morrerão nesta década por causa do medo.
Essa é a conclusão de uma pesquisa internacional de opinião pública conduzida pela Tackle HIV, uma campanha global de conscientização que trabalha para combater o estigma, o preconceito e a desinformação em torno do vírus. Segundo a iniciativa, a falha em enfrentar o estigma social pode resultar em aproximadamente 440 mil mortes evitáveis nos próximos dez anos. O número é assustador não porque represente uma nova onda de infecções, mas porque essas mortes seriam inteiramente preveníveis se as pessoas tivessem acesso à informação correta e se sentissem seguras o suficiente para buscar testagem e tratamento.
Gareth Thomas, ex-jogador de rugby galês e um dos idealizadores do projeto, desembarcou no Rio de Janeiro para a 26ª Conferência Internacional de Aids, o maior evento global sobre a doença, sediado pela primeira vez no Brasil. Thomas foi o primeiro jogador profissional de rugby em atividade a se declarar homossexual, em 2009, e dez anos depois compartilhou publicamente seu diagnóstico de HIV positivo. Desde então, tornou-se uma voz ativa no combate à discriminação. "Esse estigma traz impactos enormes para a sociedade em geral: seja o medo de fazer o teste, o medo de tomar os medicamentos ou o medo criado pelo preconceito de conviver com pessoas que vivem com HIV", explica.
O Brasil é um dos 21 países em três regiões onde o número de casos aumentou, apesar dos avanços científicos históricos e da redução global de novas infecções e mortes relacionadas à Aids em 2025. De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, foram notificados 39.216 casos de infecção pelo HIV no país no ano anterior, com a maioria, 38,4%, concentrada na região sudeste. A pesquisa da Tackle HIV entrevistou 2.006 adultos brasileiros online e revelou um quadro preocupante de desinformação. Para 36% dos entrevistados, homens heterossexuais não correm risco de contrair HIV. A mesma crença persiste para 37% em relação a mulheres heterossexuais. Apenas 48% dos respondentes já haviam feito o teste de HIV, e entre os 40% que cogitaram fazer, a maioria rejeitou a ideia alegando não se considerar em risco.
A desinformação vai além. Dezenove por cento ainda acreditam que pessoas vivendo com HIV não podem manter uma vida sexual ativa. Apenas 29% sabem que pessoas sob tratamento eficaz com carga viral indetectável não transmitem o HIV em relações sexuais — um fato científico estabelecido há anos, resumido na frase "indetectável é intransmissível". Essas lacunas de conhecimento não são meras curiosidades estatísticas; elas representam barreiras concretas que afastam as pessoas da testagem e do tratamento, perpetuando ciclos de transmissão e morte.
O Brasil tem feito progressos nas metas 95-95-95 estabelecidas pelo Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids, alinhadas à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Essas metas significam que 95% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu status sorológico; 95% das pessoas que sabem que vivem com HIV estão em tratamento antirretroviral; e 95% das pessoas em tratamento têm a carga viral suprimida. O Brasil alcançou a primeira meta 95 em 2020 e atingiu a terceira meta 95 em 2024. Países como Botsuana, Ruanda, República Unida da Tanzânia e Zimbábue já alcançaram todas as três metas.
Na última terça-feira, o Governo Federal demonstrou interesse na profilaxia pré-exposição injetável, um método que pode prevenir a infecção em pessoas saudáveis por até seis meses, e estuda a possibilidade de incluir essa opção no Sistema Único de Saúde. Mas enquanto as ferramentas científicas avançam, o trabalho de combater o medo e a desinformação permanece urgente. Thomas acredita que a pesquisa é fundamental para entender como diferentes lugares respondem a uma situação semelhante e, a partir disso, pensar soluções para demandas locais. "Toda vez que vamos a um novo país ou a uma nova região, fazemos uma pesquisa com os moradores locais para entender o trabalho que precisamos realizar ali, seja focado em uma determinada característica ou em um grupo específico", conta ele.
Para Thomas, a mensagem é clara e urgente: "É fundamental passar a mensagem importante de que receber um teste positivo, com todos os avanços da ciência e da medicina, não é mais uma sentença de morte. Testar positivo significa que você pode começar o tratamento assim que receber o diagnóstico e viver uma vida normal, feliz e saudável, sem limitações mentais ou físicas causadas pelo vírus." O desafio agora é fazer essa mensagem chegar onde mais importa: nas comunidades onde o medo ainda impede as pessoas de conhecer seu status e acessar o tratamento que poderia salvar suas vidas.
Notable Quotes
Esse estigma traz impactos enormes para a sociedade em geral: seja o medo de fazer o teste, o medo de tomar os medicamentos ou o medo criado pelo preconceito de conviver com pessoas que vivem com HIV— Gareth Thomas, idealizador da Tackle HIV
É fundamental passar a mensagem importante de que receber um teste positivo, com todos os avanços da ciência e da medicina, não é mais uma sentença de morte— Gareth Thomas