Desinformação sobre HIV aumenta mortes evitáveis e reforça estigma no Brasil

Projeção de 440 mil mortes evitáveis nesta década caso o estigma social em torno do HIV não seja combatido adequadamente.
Testar positivo não é mais uma sentença de morte
Gareth Thomas sobre a importância de desconstruir o medo que afasta pessoas da testagem e do tratamento.
Mark

Por que a desinformação sobre HIV continua tão prevalente, mesmo com décadas de pesquisa científica disponível?

Mimi

Porque o medo é mais rápido que os fatos. As pessoas ouvem histórias de morte, de discriminação, de isolamento — e essas narrativas ficam. A informação correta é abstrata. Um diagnóstico positivo é concreto e assustador. O estigma alimenta o silêncio, e o silêncio alimenta mais desinformação.

Mark

A pesquisa mostra que 36% dos brasileiros acreditam que homens héteros não correm risco. Como isso ainda é possível?

Mimi

Porque o HIV foi marcado como doença de certos grupos. Quando você ouve falar de HIV principalmente em contextos de comunidades LGBTQIA+ ou usuários de drogas, a mente cria uma categoria mental: "isso não é para mim". A realidade biológica — que o vírus não discrimina — fica invisível.

Mark

Apenas 29% sabem que carga viral indetectável não transmite. Isso é um fracasso da comunicação de saúde pública?

Mimi

É um fracasso de múltiplas camadas. Falta investimento em campanhas públicas. Falta confiança nas instituições. E falta também uma narrativa positiva — as pessoas ouvem mais sobre morte do que sobre as vidas normais e saudáveis que as pessoas com HIV vivem hoje.

Mark

Se 440 mil mortes são evitáveis, por que não há mais urgência política?

Mimi

Há urgência, mas ela compete com outras prioridades. E há também uma inércia: se o estigma mantém as pessoas longe dos testes, os números oficiais parecem menores do que realmente são. O problema fica invisível.

Mark

O Brasil alcançou duas das três metas 95-95-95. O que falta?

Mimi

A segunda meta — garantir que 95% das pessoas que sabem que vivem com HIV estejam em tratamento. Mas isso depende da primeira: as pessoas precisam saber seu status. E para isso, precisam superar o medo de fazer o teste. Volta ao estigma.

Mark

Qual é a esperança aqui?

Mimi

A esperança é que a ciência finalmente venceu. Uma pessoa com HIV sob tratamento vive uma vida normal. Isso não é promessa — é realidade. O trabalho agora é fazer essa realidade chegar às pessoas antes que o medo as alcance.

  • A projeção de 440 mil mortes evitáveis nesta década transforma o estigma em uma emergência de saúde pública tão urgente quanto o próprio vírus.
  • No Brasil, 36% das pessoas acreditam que homens heterossexuais não correm risco de infecção — uma crença que afasta exatamente quem mais precisa buscar testagem.
  • Apenas 29% dos brasileiros sabem que carga viral indetectável não transmite o HIV, revelando um abismo entre o conhecimento científico e o que chega à população.
  • O ex-jogador de rugby Gareth Thomas trouxe ao Rio de Janeiro sua trajetória pessoal como ferramenta de combate ao preconceito, defendendo que um diagnóstico positivo não é mais uma sentença de morte.
  • O Brasil avançou em duas das três metas 95-95-95 da ONU e estuda incluir a PrEP injetável no SUS, mas os dados de desinformação mostram que o progresso técnico ainda não alcançou corações e mentes.

Décadas após os primeiros avanços científicos contra o HIV, a medicina já oferece tratamentos que suprimem o vírus e impedem sua transmissão — mas o medo e a desinformação continuam a matar. Uma pesquisa internacional apresentada na 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro, revela que o estigma social em torno do HIV pode custar 440 mil vidas evitáveis nesta década, enquanto no Brasil apenas metade da população já realizou o teste. O que separa a cura do silêncio, hoje, não é a ciência: é a vergonha.

A ciência já resolveu boa parte do problema. Uma pessoa com HIV em tratamento adequado não transmite o vírus, e os medicamentos disponíveis permitem uma vida plena, sem limitações físicas ou mentais. Mesmo assim, uma pesquisa internacional da campanha Tackle HIV projeta que o estigma social pode causar cerca de 440 mil mortes evitáveis nesta década — não por falta de remédio, mas por falta de informação e coragem para buscar o diagnóstico.

A pesquisa foi apresentada durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada pela primeira vez no Brasil, no Rio de Janeiro. Um dos rostos da campanha é Gareth Thomas, ex-jogador galês de rugby que em 2019 revelou publicamente ser HIV positivo. Para ele, o medo gerado pelo preconceito é tão prejudicial quanto o próprio vírus: afasta as pessoas da testagem, do tratamento e do convívio saudável com quem vive com HIV.

No Brasil, os números da pesquisa — realizada com 2.006 adultos — revelam um cenário preocupante. Apenas 48% já fizeram o teste de HIV. Entre os que cogitaram fazê-lo e desistiram, a maioria alegou não se considerar em risco. Essa percepção distorcida tem base em crenças equivocadas: 36% acreditam que homens heterossexuais não correm risco de infecção, e 19% ainda pensam que pessoas com HIV não podem ter vida sexual ativa. Apenas 29% conhecem o princípio científico de que carga viral indetectável significa não transmissão — um fato estabelecido há anos.

O país registrou 39.216 novos casos de infecção pelo HIV em 2024 e figura entre os 21 países onde os casos aumentaram, apesar da queda global. Ainda assim, o Brasil avançou: atingiu a primeira meta 95 da ONU em 2020 — 95% das pessoas com HIV conhecendo seu status — e a terceira em 2024, com 95% dos que estão em tratamento apresentando carga viral suprimida. O governo federal também estuda incluir a PrEP injetável no SUS, um método preventivo com duração de até seis meses.

Mas Thomas resume o desafio que permanece: fazer chegar às comunidades a mensagem de que um resultado positivo, hoje, não é uma sentença. É o começo de um tratamento. E o começo de uma vida normal.

A ciência avançou. Os medicamentos funcionam. Uma pessoa com HIV sob tratamento adequado não transmite o vírus. E ainda assim, centenas de milhares de pessoas morrerão nesta década por causa do medo.

Essa é a conclusão de uma pesquisa internacional de opinião pública conduzida pela Tackle HIV, uma campanha global de conscientização que trabalha para combater o estigma, o preconceito e a desinformação em torno do vírus. Segundo a iniciativa, a falha em enfrentar o estigma social pode resultar em aproximadamente 440 mil mortes evitáveis nos próximos dez anos. O número é assustador não porque represente uma nova onda de infecções, mas porque essas mortes seriam inteiramente preveníveis se as pessoas tivessem acesso à informação correta e se sentissem seguras o suficiente para buscar testagem e tratamento.

Gareth Thomas, ex-jogador de rugby galês e um dos idealizadores do projeto, desembarcou no Rio de Janeiro para a 26ª Conferência Internacional de Aids, o maior evento global sobre a doença, sediado pela primeira vez no Brasil. Thomas foi o primeiro jogador profissional de rugby em atividade a se declarar homossexual, em 2009, e dez anos depois compartilhou publicamente seu diagnóstico de HIV positivo. Desde então, tornou-se uma voz ativa no combate à discriminação. "Esse estigma traz impactos enormes para a sociedade em geral: seja o medo de fazer o teste, o medo de tomar os medicamentos ou o medo criado pelo preconceito de conviver com pessoas que vivem com HIV", explica.

O Brasil é um dos 21 países em três regiões onde o número de casos aumentou, apesar dos avanços científicos históricos e da redução global de novas infecções e mortes relacionadas à Aids em 2025. De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, foram notificados 39.216 casos de infecção pelo HIV no país no ano anterior, com a maioria, 38,4%, concentrada na região sudeste. A pesquisa da Tackle HIV entrevistou 2.006 adultos brasileiros online e revelou um quadro preocupante de desinformação. Para 36% dos entrevistados, homens heterossexuais não correm risco de contrair HIV. A mesma crença persiste para 37% em relação a mulheres heterossexuais. Apenas 48% dos respondentes já haviam feito o teste de HIV, e entre os 40% que cogitaram fazer, a maioria rejeitou a ideia alegando não se considerar em risco.

A desinformação vai além. Dezenove por cento ainda acreditam que pessoas vivendo com HIV não podem manter uma vida sexual ativa. Apenas 29% sabem que pessoas sob tratamento eficaz com carga viral indetectável não transmitem o HIV em relações sexuais — um fato científico estabelecido há anos, resumido na frase "indetectável é intransmissível". Essas lacunas de conhecimento não são meras curiosidades estatísticas; elas representam barreiras concretas que afastam as pessoas da testagem e do tratamento, perpetuando ciclos de transmissão e morte.

O Brasil tem feito progressos nas metas 95-95-95 estabelecidas pelo Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids, alinhadas à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Essas metas significam que 95% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu status sorológico; 95% das pessoas que sabem que vivem com HIV estão em tratamento antirretroviral; e 95% das pessoas em tratamento têm a carga viral suprimida. O Brasil alcançou a primeira meta 95 em 2020 e atingiu a terceira meta 95 em 2024. Países como Botsuana, Ruanda, República Unida da Tanzânia e Zimbábue já alcançaram todas as três metas.

Na última terça-feira, o Governo Federal demonstrou interesse na profilaxia pré-exposição injetável, um método que pode prevenir a infecção em pessoas saudáveis por até seis meses, e estuda a possibilidade de incluir essa opção no Sistema Único de Saúde. Mas enquanto as ferramentas científicas avançam, o trabalho de combater o medo e a desinformação permanece urgente. Thomas acredita que a pesquisa é fundamental para entender como diferentes lugares respondem a uma situação semelhante e, a partir disso, pensar soluções para demandas locais. "Toda vez que vamos a um novo país ou a uma nova região, fazemos uma pesquisa com os moradores locais para entender o trabalho que precisamos realizar ali, seja focado em uma determinada característica ou em um grupo específico", conta ele.

Para Thomas, a mensagem é clara e urgente: "É fundamental passar a mensagem importante de que receber um teste positivo, com todos os avanços da ciência e da medicina, não é mais uma sentença de morte. Testar positivo significa que você pode começar o tratamento assim que receber o diagnóstico e viver uma vida normal, feliz e saudável, sem limitações mentais ou físicas causadas pelo vírus." O desafio agora é fazer essa mensagem chegar onde mais importa: nas comunidades onde o medo ainda impede as pessoas de conhecer seu status e acessar o tratamento que poderia salvar suas vidas.

Esse estigma traz impactos enormes para a sociedade em geral: seja o medo de fazer o teste, o medo de tomar os medicamentos ou o medo criado pelo preconceito de conviver com pessoas que vivem com HIV
— Gareth Thomas, idealizador da Tackle HIV
É fundamental passar a mensagem importante de que receber um teste positivo, com todos os avanços da ciência e da medicina, não é mais uma sentença de morte
— Gareth Thomas
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