Deputados em fuga custam R$ 460 mil por mês à Câmara sem estar no país

Quando um ministro pode blindar a si mesmo, a democracia fica frágil
A decisão de Gilmar Mendes expõe uma tensão profunda entre os poderes e o enfraquecimento das instituições de controle.
Mark

Por que três deputados fugindo do país custa R$ 460 mil por mês à Câmara? Eles não deveriam ter seus salários suspensos?

Mimi

A Câmara não suspendeu nada. Os gabinetes continuam funcionando, os servidores continuam sendo pagos, as cotas parlamentares continuam sendo gastas. É como se a instituição operasse em piloto automático, independente de quem está ou não presente.

Mark

E quanto à decisão de Gilmar Mendes sobre impeachment? Por que um ministro pode simplesmente anular uma lei de 75 anos?

Mimi

Porque o Supremo opera em um vácuo de accountability. Gilmar tomou uma decisão monocrática — sozinho — que afeta toda a estrutura de pesos e contrapesos da democracia. Ninguém pode questioná-lo formalmente agora.

Mark

Mas a OAB não deveria ter se manifestado?

Mimi

Deveria, sim. Mas a OAB nacional ficou silenciosa. Alguns chamaram de covardia, outros de alinhamento político. O fato é que a entidade que deveria defender o Estado de Direito não fez barulho.

Mark

Alcolumbre está realmente tentando derrotar Messias, ou é apenas teatro político?

Mimi

Alcolumbre está genuinamente tentando derrotar. Ele adiou a sabatina, ameaça fazer a votação só depois das eleições, está jogando junto com aliados. É uma disputa real de poder entre ele e Lula.

Mark

O que Lula poderia ter feito diferente?

Mimi

Talvez não ter indicado alguém que Alcolumbre vê como ameaça. Ou ter negociado melhor antes. Mas no fundo, o problema é estrutural: o Supremo ganhou tanto poder que ninguém consegue mais negociar com igualdade.

Mark

Então a democracia está em risco?

Mimi

Está em risco quando um ministro pode blindar a si mesmo, quando um presidente do Senado precisa pedir respeito às suas próprias funções, quando cidadãos perdem direitos que tinham há décadas. Não é uma ameaça externa. É interna, institucional.

  • Três deputados em fuga custaram R$ 460 mil em outubro à Câmara dos Deputados
  • Gilmar Mendes anulou prerrogativa legal de 75 anos que permitia cidadãos pedir impeachment de ministros
  • Jorge Messias pode ser primeira indicação rejeitada ao STF em 131 anos se Alcolumbre conseguir derrotá-la
  • Decisão de Gilmar permite impeachment de presidente eleito mas não de ministros nomeados

Decisão monocrática de Gilmar Mendes anula prerrogativa legal de 75 anos, blindando ministros da Corte contra pedidos de impeachment de cidadãos. Reação política imediata inclui propostas de PECs para constitucionalizar direito de impeachment e denúncias de 'golpe de Estado' por líderes da oposição.

Gilmar Mendes proíbe cidadãos de pedir impeachment de ministros do STF, criando situação onde é possível pedir impeachment de presidente eleito mas não de ministros nomeados, gerando indignação política geral.

Três deputados federais brasileiros — Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, todos do PL — fugiram do país para escapar de processos judiciais. Enquanto estão ausentes, a Câmara dos Deputados continua pagando suas contas. Em outubro, quando nenhum deles estava no Brasil, os três custaram aproximadamente R$ 460 mil aos cofres públicos em um único mês. Esse valor inclui salários, cotas parlamentares e remunerações de servidores. A cifra revela uma realidade incômoda: mesmo com a ausência física dos parlamentares, a instituição não cortou os custos de seus mandatos. Os gabinetes seguem funcionando, as máquinas públicas continuam girando, e o dinheiro flui como se estivessem aqui.

Em Brasília, enquanto isso, outra batalha se desenrola nos corredores do poder. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, quer derrubar a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, escolha do presidente Lula. Se conseguir, Messias entraria para a história como a primeira indicação rejeitada em 131 anos — desde 1894, quando Candido Barata Ribeiro foi recusado. Alcolumbre adiou a sabatina de Messias na Comissão de Constituição e Justiça e ameaça fazer a votação só depois das eleições do ano que vem. A manobra deixou claro que o senador está disposto a usar toda sua artilharia contra o Executivo.

Mas o verdadeiro terremoto político veio de outra direção. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo, tomou uma decisão que deixou até aliados do governo atordoados: proibiu cidadãos de pedir impeachment de ministros da Corte. A decisão anula uma prerrogativa legal que existia há 75 anos. Criou-se assim uma situação absurda: um brasileiro pode pedir o impeachment do presidente da República, eleito pelo povo, mas não pode pedir o de um ministro nomeado. A blindagem foi tão abusiva que o próprio Alcolumbre, presidente do Senado, saiu em defesa das prerrogativas da Casa, embora sem deixar claro como pretende enfrentar a situação.

A reação política foi imediata e quase unânime. Deputados e senadores da oposição começaram a falar em golpe de Estado. Propostas de emenda constitucional surgiram para tentar restaurar o direito que Gilmar acabara de tirar. Rogério Marinho, líder da oposição no Senado, resumiu o sentimento em uma frase que circulou rapidamente: "Depois de enfrentar a Covid, o Brasil precisa enfrentar o Supremo Tribunal Federal". Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, desabafou que se sentia no "Brazuela" — uma referência à Venezuela, sugerindo que o país estava caminhando para uma ditadura.

O que chama atenção é a omissão da OAB nacional diante de tema tão relevante. A entidade, que em outros tempos teria saído em defesa da democracia, permaneceu silenciosa. Alguns observadores chamaram isso de covardia militante. Enquanto isso, a esquerda política tratava os ministros do Supremo como aliados de Lula, sem questionar a decisão de Gilmar.

Em paralelo, Lula tentava salvar a indicação de Messias. Procurou Otto Alencar, presidente da CCJ, tentando convencê-lo a não pautar a sabatina. Mas ouviu uma recusa inesperada. Otto, embora reafirmasse apoio a Lula para o próximo ano, deixou claro que no "caso Messias" estava fora. Tinha razões para isso: seu filho havia sido indicado para conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, e Otto não queria se indispor com Alcolumbre, que controlava essas nomeações.

A situação expõe uma tensão profunda entre os poderes. O Senado, enfraquecido, vê suas prerrogativas serem constantemente questionadas pelo Supremo. O Executivo, dividido entre suas próprias ambições e as realidades políticas, tenta negociar em um tabuleiro cada vez mais complexo. E a democracia, aquela que deveria ser o piso mínimo de qualquer disputa política, fica cada vez mais frágil. Quando um ministro pode blindar a si mesmo e aos colegas contra o escrutínio público, quando um presidente do Senado precisa pedir respeito às suas próprias funções, quando cidadãos perdem direitos que tinham há três quartos de século, algo fundamental está se quebrando.

Depois de enfrentar a Covid, o Brasil precisa enfrentar o Supremo Tribunal Federal
— Rogério Marinho, líder da oposição no Senado
A cada dia que acompanho notícias me sinto no Brazuela
— Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara
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