No coração das instituições que deveriam guardar a justiça, o Superior Tribunal de Justiça se debruçou sobre acusações que tocam numa das tensões mais antigas da vida pública: o abuso de poder sobre corpos vulneráveis. O ministro Marco Buzzi, acusado por duas mulheres de assédio e importunação sexual, viu sua carreira colocada na balança enquanto argumentos médicos e narrativas humanas disputavam o peso da verdade. O que o tribunal enfrentava não era apenas um processo administrativo, mas a pergunta perene sobre quem é acreditado quando o poder e a vulnerabilidade se encontram.
Defesa de Buzzi usa laudo de disfunção erétil, mas vítima não confirmou excitação
tinha muitas camadas de roupa entre eu e ele
Por que a defesa acreditava que um laudo de disfunção erétil seria relevante para provar inocência?
Porque estavam tentando criar uma impossibilidade física. Se o ministro tinha disfunção erétil, o argumento era que ele não poderia ter cometido o ato específico descrito. Mas a vítima destruiu essa lógica imediatamente ao dizer que tinha roupas demais entre eles para confirmar qualquer coisa.
A vítima estava sendo cuidadosa com o que podia afirmar?
Sim. Ela descreveu exatamente o que sentiu — a pressão das mãos dele — mas recusou especular sobre algo que não podia saber. Isso é precisão, não fraqueza de testemunho.
E a segunda acusação, da funcionária? Isso muda a dinâmica do caso?
Completamente. Não é mais uma situação isolada em uma praia. É um padrão ao longo de três anos, em múltiplos locais, com outras pessoas que ouviram os relatos dela. Isso sugere comportamento sistemático.
A defesa argumentou que faltavam provas autônomas. Testemunhas de apoio contam como prova autônoma?
Tecnicamente, não. Provas autônomas seriam evidências materiais ou documentação. Mas testemunhas que ouviram os relatos da vítima quando aconteceram têm valor — elas corroboram a consistência da narrativa dela.
O que o tribunal tinha que decidir, no fim?
Se acreditava nas mulheres ou no ministro. Não havia câmeras, não havia registros. Havia apenas credibilidade, coerência e padrão. E um laudo médico que não provou nada.
The Pulse
- Duas mulheres descrevem anos de contato físico não consentido — uma em uma praia de Santa Catarina, outra dentro do próprio tribunal onde Buzzi exercia autoridade.
- A defesa aposta num laudo urológico como escudo, mas a vítima desfaz o argumento com uma observação simples: havia roupas demais entre ela e o ministro para que qualquer conclusão médica fosse relevante.
- O MPF pede aposentadoria compulsória, enquanto os advogados de Buzzi insistem em contradições nos depoimentos e na ausência de provas autônomas — o julgamento se transforma num embate de narrativas sem árbitro neutro.
- O tribunal se vê diante de um conflito irredutível: de um lado, relatos detalhados e corroborados por colegas; do outro, uma negação categórica amparada em documentação médica que não responde à acusação central.
No coração das instituições que deveriam guardar a justiça, o Superior Tribunal de Justiça se debruçou sobre acusações que tocam numa das tensões mais antigas da vida pública: o abuso de poder sobre corpos vulneráveis. O ministro Marco Buzzi, acusado por duas mulheres de assédio e importunação sexual, viu sua carreira colocada na balança enquanto argumentos médicos e narrativas humanas disputavam o peso da verdade. O que o tribunal enfrentava não era apenas um processo administrativo, mas a pergunta perene sobre quem é acreditado quando o poder e a vulnerabilidade se encontram.
O Superior Tribunal de Justiça reuniu-se em plenário para decidir o destino do ministro Marco Buzzi, acusado de assédio sexual e importunação por duas mulheres. Em jogo estava sua permanência no cargo ou a aposentadoria compulsória pedida pelo Ministério Público Federal.
A defesa apresentou um laudo urológico como prova de inocência, argumentando que um homem com disfunção erétil não poderia ter cometido o assédio descrito. A advogada Maria Fernanda Ávila foi direta ao invocar o documento. Mas a vítima — uma jovem de 18 anos que descreveu o incidente numa praia de Santa Catarina em janeiro — respondeu com igual clareza: Buzzi a agarrou durante um banho de mar e passou a mão em suas nádegas, mas ela não tinha como confirmar seu estado de excitação. Havia muitas camadas de roupa entre os dois. O laudo, portanto, não resolvia a questão central. O próprio MPF acrescentou que o relatório indicava apenas disfunção moderada — não uma impossibilidade.
A segunda acusação vinha de uma funcionária terceirizada que afirmou ter sofrido assédio ao longo de três anos, em múltiplos espaços do tribunal. Colegas de trabalho confirmaram que ela havia relatado os episódios a eles na época.
A defesa manteve negação categórica, apontando contradições nos depoimentos e ausência de provas autônomas. O tribunal ficou diante de um conflito de narrativas: duas mulheres descrevendo contato físico não consentido e assédio prolongado, contra um ministro cujos advogados insistiam na insuficiência das provas. O argumento médico, que deveria ser o ponto decisivo da defesa, revelou-se incapaz de responder ao que a vítima simplesmente não podia confirmar nem negar.
O Superior Tribunal de Justiça se reuniu em plenário na quinta-feira para julgar um processo administrativo que pode encerrar a carreira do ministro Marco Buzzi. Duas mulheres o acusam de assédio sexual e importunação. O que estava em jogo era simples: sua permanência no cargo ou sua aposentadoria compulsória.
A defesa de Buzzi apresentou um laudo urológico. O documento, segundo sua advogada Maria Fernanda Ávila, seria prova de inocência. O argumento era direto: um homem com disfunção erétil não poderia ter cometido o assédio descrito por uma das vítimas. "Ninguém pode ter sentido um pênis ereto de alguém que tem disfunção erétil", disse Ávila em entrevista.
Mas a vítima em questão tinha uma resposta simples para isso. Em depoimento à Corregedoria Nacional de Justiça, a jovem de 18 anos descreveu o que aconteceu em janeiro daquele ano, em uma praia de Santa Catarina. Buzzi a agarrou durante um banho de mar e passou a mão em suas nádegas. Quando perguntada se ele estava excitado, ela foi clara: não tinha como saber. "Tinha muitas camadas de roupa entre eu e ele", explicou. Ele usava shorts e sunga. Ela conseguia sentir a pressão de suas mãos, mas não conseguia determinar seu estado de excitação. O laudo, portanto, não resolvia nada.
O Ministério Público Federal, que pedia a aposentadoria compulsória do ministro, apontou que o relatório urológico indicava apenas uma disfunção moderada. Isso não tornava impossível a prática de assédio sexual. A vítima também relatou que Buzzi tentou mais de uma vez tocar suas nádegas durante o incidente.
Havia uma segunda acusação. Uma funcionária terceirizada que trabalhava para o ministro afirmou que sofreu assédio ao longo de três anos. Os episódios teriam ocorrido em vários lugares: na sala do próprio magistrado, em um espaço de depósito, no corredor, na biblioteca. Outros funcionários do tribunal apoiaram sua versão, dizendo que ela havia compartilhado com eles relatos de importunação sexual.
A defesa mantinha sua posição. Os advogados de Buzzi pediam absolvição. Segundo eles, as acusações eram falsas. Os depoimentos das vítimas continham contradições e careciam de provas autônomas que os corroborassem. Era uma negação categórica.
O que o tribunal tinha diante de si era um conflito de narrativas. De um lado, duas mulheres descrevendo situações de contato físico não consentido e assédio prolongado. Do outro, um ministro representado por advogados que argumentavam que as provas eram insuficientes e que a defesa médica do cliente eliminava a possibilidade de culpa. O laudo urológico, no entanto, havia se mostrado inútil para o propósito a que se destinava. A vítima simplesmente não podia confirmar o que a defesa tentava negar.
Notable Quotes
Ninguém pode ter sentido um pênis ereto de alguém que tem disfunção erétil— Maria Fernanda Ávila, advogada da defesa de Buzzi
Tinha muitas camadas de roupa entre eu e ele. Eu conseguia sentir porque ele pressionou muito forte, mas eu não sei falar se ele ficou excitado ou não— Vítima de 18 anos em depoimento à Corregedoria Nacional de Justiça