De 1,3 milhão a 5 mil votos: Tiririca sofre primeira derrota ao trocar São Paulo pelo Ceará

Aqui no Ceará a gente estuda e pesquisa antes de dar um voto
Reação de eleitor cearense nas redes sociais após a derrota de Tiririca nas urnas.
Mark

Como um deputado que foi o mais votado do Brasil consegue cair de 1,3 milhão para 5 mil votos?

Mimi

Não foi uma queda de um dia para o outro. Começou em 2014, depois 2018, depois 2022. Mas o que importa é que ele mudou de estado. Em São Paulo, mesmo com votação caindo, ele tinha raízes, tinha máquina, tinha história. No Ceará, era um estranho.

Luke

Mas espera — ele é cearense, nasceu lá. Por que isso não contou?

Mimi

Nasceu, mas saiu. Fez carreira em São Paulo por 16 anos. Os cearenses viram um cara que vinha de fora, que tinha ficado rico e famoso em outro lugar, querendo voltar agora.

Mark

E a mudança de partido? O PSD era mais fraco que o PL no Ceará?

Mimi

Pode ser, mas o maior problema foi mesmo a mudança de estado. Bases eleitorais são territoriais. Você constrói voto no lugar onde você vive, onde as pessoas te conhecem.

Luke

Mas ele tem 7 milhões de seguidores no TikTok. Isso não deveria contar para nada?

Mimi

Aparentemente não. Redes sociais não são voto. Engajamento não é voto. Presença territorial é.

Mark

Então qual é a lição aqui?

Luke

Que carreiras políticas são frágeis quando dependem de um só lugar. E que mudar de base é arriscado demais.

Mimi

E que o Ceará, pelo menos nesta eleição, decidiu que não queria um deputado que tinha abandonado o estado.

  • O que era declínio gradual em São Paulo — de 1,3 milhão de votos em 2010 para 71 mil em 2022 — tornou-se colapso total no Ceará, onde Tiririca recebeu apenas 5.536 votos e ficou fora das 22 vagas disputadas.
  • A mudança de partido, do PL para o PSD, e a transferência do domicílio eleitoral para o interior cearense foram apostas arriscadas que ignoraram a natureza territorial do vínculo entre eleitor e candidato.
  • Nas redes sociais, cearenses reagiram à derrota com orgulho regional, sugerindo que o eleitorado local não se deixou seduzir pela fama construída em outro estado.
  • Mesmo com 7 milhões de seguidores no TikTok e alto engajamento digital, Tiririca não conseguiu converter presença online em votos fora de sua base histórica.
  • O caso ecoa em outros nomes que tentaram migrar de estado — como Jean Wyllys, derrotado em São Paulo após três mandatos pelo Rio — revelando um padrão: capital político não viaja bem.

Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, encerra um ciclo político singular: o homem que em 2010 mobilizou mais de um milhão de paulistanos com a força do riso tentou, em 2026, reconquistar raízes em sua terra natal cearense — e descobriu que pertencimento eleitoral não se transfere como domicílio. A derrota, com apenas 5,5 mil votos no Ceará, é menos uma queda individual do que um lembrete de que bases políticas crescem devagar e desaparecem depressa. Ele deixará a Câmara em janeiro de 2027, após 14 anos, carregando a ironia de ter sido o deputado mais votado do Brasil e, ao fim, não ter votos suficientes nem em casa.

Em 4 de outubro de 2026, Tiririca enfrentou sua primeira derrota nas urnas. O humorista que em 2010 havia conquistado mais de 1,3 milhão de votos por São Paulo — a segunda maior votação da história para deputado federal — recebeu apenas 5.536 votos no Ceará, insuficientes para uma das 22 vagas em disputa.

O declínio vinha de longe. De 2014 a 2022, sua votação paulista despencou progressivamente, até que em 2022 ele só se elegeu pelas sobras do partido. Ele atribuiu parte da queda à decisão do PL de transferir seu número de urna histórico, o 2222, para Eduardo Bolsonaro. Em novembro de 2025, migrou para o PSD e transferiu seu domicílio eleitoral para o Ceará, sua terra natal, anunciando a mudança com entusiasmo.

Natural de Itapipoca, Tiririca construiu fama nos anos 1990 com o humor circense e televisivo antes de entrar na política com uma campanha que ironizava os próprios políticos. Na Câmara, foi assíduo nas votações, mas discreto no plenário — fez apenas seis discursos em 14 anos. Seu projeto mais ambicioso, que reconhecia o circo como manifestação cultural nacional, foi aprovado na Câmara em 2017, mas arquivado pelo Senado em 2024.

A derrota no Ceará gerou reações nas redes sociais marcadas por orgulho regional. Usuários que se identificavam como cearenses celebraram o resultado, alguns sugerindo que o eleitorado local pesquisa antes de votar. Com 7 milhões de seguidores no TikTok, Tiririca provou que visibilidade digital não substitui enraizamento territorial. Ele deixará a Câmara em 31 de janeiro de 2027, encerrando uma trajetória que começou no circo, passou pelo recorde de votos e terminou com uma lição sobre os limites da fama política.

Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como Tiririca, chegou ao domingo 4 de outubro de 2026 como um homem que havia vencido em política de um jeito que poucos conseguem. Dezesseis anos antes, em 2010, o humorista cearense havia recebido 1.353.820 votos para deputado federal por São Paulo — a segunda maior votação na história do cargo, atrás apenas de Enéas Carneiro em 2002. Ele era o deputado mais votado do Brasil. Naquele ano, sua votação foi tão expressiva que ajudou a eleger outros candidatos da coligação que individualmente tiveram números pequenos, um fenômeno conhecido como efeito puxador. Mas na noite de 4 de outubro, quando os cearenses foram às urnas, Tiririca recebeu 5.536 votos — insuficientes para conquistar uma das 22 cadeiras que o Ceará elegeria para a Câmara dos Deputados. Era sua primeira derrota nas urnas.

O declínio havia começado anos antes. Em 2014, sua votação caiu para 1.016.796 votos. Em 2018, para 453.855. Em 2022, para 71.754 — tão baixa que ele conquistou a vaga apenas nas sobras, graças ao desempenho geral do partido. Tiririca atribuiu parte dessa queda a uma decisão do PL em 2022: o partido transferiu para Eduardo Bolsonaro o número de urna 2222, que o humorista usava desde 2010. "Isso é como transferir boa parte dos meus votos para Eduardo Bolsonaro", afirmou na época. Em novembro de 2025, ele deixou o PL, se filiou ao PSD e transferiu seu domicílio eleitoral para o Ceará, sua terra natal. "É uma felicidade imensa estar de volta ao meu Ceará e, se Deus quiser, vamos fazer um mandato sensacional agora com o apoio do PSD", declarou em nota divulgada pelo partido.

Natural de Itapipoca, no interior cearense, Tiririca começou a carreira no circo ainda criança e ficou famoso nos anos 1990 com a música "Florentina" e com programas de humor na televisão. Quando chegou à política em 2010, sua campanha ironizava os próprios políticos. Antes de tomar posse, porém, o Ministério Público Eleitoral o acusou de apresentar uma declaração falsa de alfabetização e o obrigou a passar por um teste de leitura e ditado no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Ele foi absolvido. Na Câmara, ficou conhecido pela assiduidade — não faltou a nenhuma sessão de votação no primeiro mandato — mas pela atuação discreta. Fez apenas seis discursos em plenário desde 2011. A maior parte de seus projetos tratava do circo. O de maior destaque foi aquele que alterava a Lei Rouanet para reconhecer a atividade circense como manifestação cultural nacional. Foi aprovado pelas comissões da Câmara em 2017, mas acabou arquivado pelo Senado em 2024. Em 2017, ele próprio anunciou que estava decepcionado com a política e que não disputaria outra eleição — voltou atrás no ano seguinte.

Fora do plenário, Tiririca ganhou outra vitrine. Segundo um levantamento da Nexus divulgado em julho, ele tem cerca de 7 milhões de seguidores no TikTok, onde publica vídeos de humor sem conteúdo político. É o quarto parlamentar com mais engajamento na plataforma. Mas nenhuma presença digital conseguiu compensar a perda de enraizamento territorial. Nas redes sociais, a derrota virou motivo de comentário entre usuários que se identificavam como cearenses, e boa parte das mensagens tinha tom de orgulho regional. "Aqui no Ceará tiririca não ganha", escreveu um. "Tiririca pensa que se cria aqui no Ceará", publicou outro. Alguns associaram o resultado ao comportamento do eleitor local. "Tiririca veio se candidatar no Ceará, acho que ele não sabe que aqui a gente estuda e pesquisa antes de dar um voto", afirmou um deles. Tiririca não foi o único nome conhecido a buscar votos longe de sua base de origem nesta eleição. O ex-deputado Jean Wyllys, que teve três mandatos pelo Rio de Janeiro quando era filiado ao PSOL, disputou uma vaga na Câmara por São Paulo e recebeu 18.073 votos, também insuficientes para se eleger. Tiririca deixará o cargo ao fim da atual legislatura, em 31 de janeiro de 2027.

É uma felicidade imensa estar de volta ao meu Ceará e, se Deus quiser, vamos fazer um mandato sensacional agora com o apoio do PSD
— Tiririca, em nota divulgada pelo PSD em novembro de 2025
Isso é como transferir boa parte dos meus votos para Eduardo Bolsonaro
— Tiririca, sobre a transferência do número de urna 2222 em 2022
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