16% dos eleitores negam caráter democrático do Brasil; 50% reconhecem democracia com grandes problemas; apenas 7% a veem como plena. Eleitores de Flávio Bolsonaro mostram maior desconfiança: 23% não veem democracia, contra 8% entre apoiadores de Lula.
Datafolha: 16% dos eleitores não veem Brasil como democracia
Dezesseis por cento rejeitam completamente o rótulo democrático
Como você lê esses números? Dezesseis por cento é muito ou pouco para um país negar sua própria democracia?
Depende do ponto de comparação. Em 2014, era 9%. Então dobrou. Mas em 2024, já estava em 16%, então não é uma queda recente — é uma estabilização em um patamar mais alto.
Mas qual é a pergunta exata que o Datafolha fez? "O Brasil é uma democracia?" Porque "democracia" é uma palavra que significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Alguém pode dizer não porque acha que falta liberdade de imprensa, outro porque acha que o Supremo tem muito poder. Não sabemos.
Verdade. E há também a questão de como a pergunta é enquadrada. Se você pergunta "o Brasil é uma democracia plena?", muita gente vai dizer não. Se pergunta "o Brasil tem eleições livres?", a resposta muda.
Mas o que mais chama atenção é a divisão entre eleitores de Flávio e Lula. Vinte e três por cento versus oito por cento. Por que os apoiadores de Flávio são tão mais desconfiados?
Bem, Flávio está dizendo que o Brasil não é democrático. Então seus eleitores podem estar respondendo à mensagem que ele está transmitindo. Não sabemos se eles já pensavam assim antes ou se estão sendo influenciados pela campanha.
Mas também é verdade que Flávio ganhou no primeiro turno. Então há um grupo real de pessoas que o apoiam, e elas têm uma visão diferente do país. A pergunta é: essa visão vem de onde?
E quanto aos críticos que dizem que o Estado de Direito está intacto desde 1985? Eles têm razão?
Tecnicamente, sim. As eleições acontecem regularmente, há separação de poderes, há Judiciário independente. Mas "Estado de Direito intacto" é uma afirmação que também depende de como você a define. Alguém pode dizer que o Supremo violou o Estado de Direito ao condenar Bolsonaro, outro que o Estado de Direito foi violado quando Bolsonaro tentou um golpe.
Exatamente. Então quando 16% dizem que o Brasil não é democracia, eles podem estar certos ou errados dependendo de qual definição de democracia você usa. O que a pesquisa realmente mostra é que há uma desconexão entre a realidade institucional e a percepção das pessoas.
O Pulso
- 16% dos eleitores negam caráter democrático do Brasil
- 50% reconhecem democracia com grandes defeitos
- 23% dos eleitores de Flávio Bolsonaro não veem democracia, contra 8% entre apoiadores de Lula
- Pesquisa realizada em 13 e 14 de outubro de 2026, com 2.520 eleitores
16% dos eleitores negam caráter democrático do Brasil; 50% reconhecem democracia com grandes problemas; apenas 7% a veem como plena. Eleitores de Flávio Bolsonaro mostram maior desconfiança: 23% não veem democracia, contra 8% entre apoiadores de Lula.
Pesquisa Datafolha mostra que 16% dos eleitores brasileiros não consideram o Brasil uma democracia, enquanto 50% veem o regime com grandes defeitos. Resultado reflete polarização política em ano eleitoral.
Uma em cada seis pessoas que votam no Brasil não acredita que o país seja uma democracia. Essa é a conclusão de uma pesquisa do Datafolha realizada nos dias 13 e 14 de outubro, que ouviu 2.520 eleitores e apresenta uma fotografia da confiança institucional brasileira em pleno ano eleitoral. Os números revelam um país dividido em sua própria avaliação: enquanto 16% rejeitam completamente o rótulo democrático, metade dos entrevistados reconhece a existência de um regime democrático, mas carregado de defeitos graves. Apenas 23% enxergam problemas menores no funcionamento das instituições, e apenas 7% descrevem a democracia brasileira como plena. A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais.
Esse retrato não surge do nada. Três anos antes, em março de 2024, quando o Datafolha fez essa mesma pergunta pela última vez, os números eram ligeiramente diferentes mas apontavam na mesma direção. Naquela ocasião, em meio aos episódios de tensão golpista do governo Jair Bolsonaro, 16% também negavam o caráter democrático do Brasil — exatamente o mesmo percentual de agora. Mas a distribuição dos demais respondentes era distinta: 46% viam grandes problemas, 28% pequenos, e 6% consideravam a democracia plena. Uma década antes, em fevereiro de 2014, quando o país se preparava para reeleger Dilma Rousseff sob o impacto dos protestos de 2013, apenas 9% rejeitavam a democracia, enquanto 61% apontavam grandes problemas, 21% pequenos, e 3% a viam como plena.
A trajetória desses números sugere que a percepção sobre a qualidade democrática brasileira se cristalizou em um padrão de desconfiança que persiste independentemente do governo em exercício. Mas a questão ganhou novo peso político neste ano eleitoral. Flávio Bolsonaro, senador pelo PL e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por tentar um golpe de Estado após perder a eleição de 2022 para Lula — trouxe o tema para o centro da campanha. Dois dias após superar Lula por 1,87 ponto percentual no primeiro turno, em 6 de outubro, Flávio declarou sua intenção de propor mudanças constitucionais para o que chamou de "redemocratizar o Brasil". "Vocês acham que o Brasil está numa democracia plena hoje?", perguntou o senador aos apoiadores. "Não."
Os números da pesquisa revelam que essa mensagem encontra solo fértil entre seus eleitores. Entre os 46% dos entrevistados que votam em Flávio, 23% dizem que o Brasil não é uma democracia — quase uma em cada quatro pessoas. Apenas 2% desse grupo veem a democracia como plena. Em contraste, entre os 44% que votam em Lula, em empate técnico com Flávio segundo a mesma pesquisa, apenas 8% negam o caráter democrático do país, enquanto 12% o veem como plenamente democrático. A polarização eleitoral, portanto, não apenas divide os brasileiros sobre quem deve governar, mas também sobre a própria natureza do regime em que vivem.
Críticos da narrativa de Flávio argumentam que o questionamento carece de fundamento. Apontam que, apesar de todos os problemas que afetam o funcionamento dos três poderes, o Estado de Direito estabelecido após o fim da ditadura militar em 1985 permanece de pé. O indicador mais visível dessa continuidade é a regularidade das eleições presidenciais livres desde 1989 — um registro que nenhum governo, independentemente de sua orientação política, conseguiu interromper. A pesquisa foi encomendada pela Folha de S.Paulo e está registrada na Justiça Eleitoral sob o código BR-0466/2026.
Citações Notáveis
Vocês acham que o Brasil está numa democracia plena hoje? Não— Flávio Bolsonaro, senador pelo PL