Em Campinas, seiscentos jovens revelaram que a crise climática deixou de ser uma abstração distante para se tornar uma força que remodela escolhas íntimas — incluindo o desejo de ter filhos. O estudo, parte do projeto Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas, expõe como apagões, enchentes e calor extremo corroem o cotidiano de quem já vive em territórios frágeis, tornando a desigualdade não apenas social, mas climática. A pergunta que emerge não é se o planeta está mudando, mas quem arcará com o peso dessa mudança — e a resposta, como sempre, aponta para os mesmos.
Crise climática leva 34% dos jovens de Campinas a repensar desejo de ter filhos
A crise climática se tornou um obstáculo ao desenvolvimento nas periferias
Por que você acha que 34% dos jovens estão repensando a ideia de ter filhos? Isso é medo do futuro ou algo mais concreto?
É os dois. Mas não é abstrato. Quando você está sem energia três vezes por semana, quando a internet cai durante uma tempestade e você perde um dia de aula ou trabalho, quando vê que a cidade não consegue lidar com chuva forte — isso não é uma preocupação distante. É agora.
E por que a desigualdade aparece tão forte nesta pesquisa? O clima não deveria afetar a todos?
Deveria, mas não afeta. Quem tem dinheiro tem gerador, tem ar-condicionado, tem carro para não depender de ônibus em dia de chuva. Quem não tem fica preso em casa ou chega atrasado no trabalho. A periferia não tem as mesmas estruturas para absorver esses impactos.
Os dados mostram diferenças entre regiões. O que explica por que a região Norte sofre mais com saúde mental?
Provavelmente é uma combinação de fatores. Infraestrutura mais frágil, menos investimento público, mais isolamento. Quando tudo falha ao mesmo tempo — energia, transporte, internet — a pressão psicológica é diferente.
Você acha que isso vai mudar algo? Que as cidades vão fazer diferente?
Os dados existem agora. Estão nas mãos de quem toma decisão. A pergunta é se vão usar para agir ou se vão ficar como números em um relatório.
El Pulso
- Trinta e quatro por cento dos jovens entrevistados já repensam se querem ter filhos — não por ideologia, mas porque o futuro parece cada vez menos habitável.
- Apagões, internet cortada e ônibus paralisados pela chuva se repetem com frequência suficiente para prejudicar estudos e trabalho de quase sete em cada dez jovens.
- A desigualdade climática é sentida na pele: 68% reconhecem que pobres e ricos não vivem a mesma crise, e nas periferias a infraestrutura já precária entra em colapso primeiro.
- Cada região da cidade carrega sua própria ferida — no Norte, a saúde mental sangra; no Noroeste, as ruas somem sob a água das enchentes.
- Pesquisadoras e organizações sociais apostam que mapear esses dados com precisão é o primeiro passo para transformar sofrimento em política pública eficaz.
Em Campinas, seiscentos jovens revelaram que a crise climática deixou de ser uma abstração distante para se tornar uma força que remodela escolhas íntimas — incluindo o desejo de ter filhos. O estudo, parte do projeto Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas, expõe como apagões, enchentes e calor extremo corroem o cotidiano de quem já vive em territórios frágeis, tornando a desigualdade não apenas social, mas climática. A pergunta que emerge não é se o planeta está mudando, mas quem arcará com o peso dessa mudança — e a resposta, como sempre, aponta para os mesmos.
Quando seiscentos jovens de Campinas foram perguntados sobre como o clima está mudando suas vidas, as respostas foram além da preocupação ambiental genérica. Para 58% deles, as mudanças climáticas já moldam suas expectativas de futuro. Para 34%, o cenário se tornou tão pesado que começaram a repensar o desejo de ter filhos — não como exercício filosófico, mas como resposta ao que vivem semana após semana.
Os impactos são rotineiros e acumulativos. Três em cada quatro jovens sofrem apagões durante ventanias. Setenta e três por cento enfrentam dificuldades de transporte quando chove forte. A internet cai para 70% durante eventos climáticos. O resultado é que 69% veem seus estudos ou desempenho profissional prejudicados, e a mesma proporção falta ou chega atrasada a compromissos por causa de tempestades ou calor extremo.
A pesquisa, parte do projeto Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas em Campinas, também evidencia que a crise não distribui seus fardos de forma igualitária. Sessenta e oito por cento dos jovens acreditam que pobres e ricos vivem essa crise de maneiras completamente distintas. Iasmim Vieira, da organização Em Movimento, aponta que escolas sem climatização, quedas constantes de energia e internet precária amplificam as desvantagens de quem já vive nas regiões mais vulneráveis da cidade.
Os dados revelam geografias do sofrimento: na região Norte, os maiores índices de impacto recaem sobre a saúde mental e as expectativas de futuro; no Noroeste, são as enchentes que interditam vias com frequência alarmante. Lina Pimentel, da Fundação Feac, enxerga nos números uma oportunidade — a de que cidades usem esse mapeamento para construir políticas que protejam quem mais precisa, antes que o próximo temporal decida por elas.
Seiscentos jovens de Campinas responderam a perguntas sobre como o clima está mudando suas vidas, e as respostas revelam algo que vai além de preocupação abstrata com o planeta. Para mais de um terço deles, a crise climática se tornou tão real que está reescrevendo decisões fundamentais — incluindo se querem ou não ter filhos.
O estudo, parte do projeto Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas em Campinas, mostra que 58% dos entrevistados dizem que as alterações no clima já estão moldando suas expectativas para o futuro. Mas o número que mais chama atenção é o dos 34% que começaram a repensar o desejo de ter filhos por causa deste cenário. Não é uma questão teórica para eles. É algo que está acontecendo agora, na rotina diária, de formas que ninguém deveria ter que gerenciar.
Os impactos são concretos e frequentes. Três em cada quatro jovens entrevistados sofrem com apagões durante ventanias. Quase a mesma proporção — 73% — enfrenta dificuldades para se locomover de ônibus quando chove forte. Setenta por cento relatam que a internet cai durante eventos climáticos. E quando você soma tudo isso, o resultado é que 69% veem seus estudos ou desempenho profissional prejudicados, e outros 69% frequentemente faltam ou chegam atrasados para compromissos por causa de tempestades ou calor extremo. A infraestrutura da cidade não aguenta. E quem sofre mais com isso não é distribuído de forma aleatória.
A pesquisa deixa claro que a crise climática não afeta a todos igualmente. Sessenta e oito por cento dos jovens entrevistados acreditam que pessoas pobres e ricas experimentam os efeitos das mudanças climáticas de maneiras completamente diferentes. Nas periferias, onde a infraestrutura já é frágil, o clima se torna um obstáculo adicional ao desenvolvimento. Iasmim Vieira, coordenadora de projetos da organização Em Movimento, explica que a falta de estrutura básica amplifica o problema: escolas sem climatização, quedas constantes de energia e internet — tudo isso compromete quem tenta estudar ou trabalhar nas regiões mais vulneráveis da metrópole.
Os dados variam conforme o bairro. Na região Norte, que inclui distritos como Barão Geraldo, os jovens registram os maiores índices de impacto na saúde mental, nos estudos e nas expectativas de futuro. Já na região Noroeste, o problema mais grave são as interdições de vias causadas por enchentes e alagamentos frequentes. Lina Pimentel, diretora socioeducativa da Fundação Feac, vê nestes dados uma oportunidade. Para ela, o levantamento é essencial para que as cidades possam pensar e propor ações que evitem que as regiões mais vulneráveis sejam as mais afetadas pelos eventos climáticos. O desafio agora é transformar estes números em políticas que funcionem.
Citas Notables
A ausência de climatização nas escolas e as constantes quedas de serviços básicos como energia e internet comprometem o rendimento de quem tenta estudar ou trabalhar nas periferias— Iasmim Vieira, coordenadora de projetos da organização Em Movimento
Esse levantamento é essencial para que possamos pensar e propor ações para que as regiões mais vulneráveis não sejam as mais afetadas pelos eventos climáticos— Lina Pimentel, diretora socioeducativa da Fundação Feac