Moro criticou a decisão do CNJ nas redes sociais, afirmando que recuperar dinheiro roubado não deveria ser crime. O corregedor Luis Felipe Salomão aponta que os repasses ocorreram antes do trânsito em julgado das ações penais e sem participação de réus e investigados.
CNJ investiga Moro por repasse de R$ 2,1 bi à Petrobras sem critérios objetivos
O combate à corrupção não pode servir de biombo para praticar as mesmas condutas que se busca reprimir
Por que essa investigação importa agora, anos depois que Moro deixou a magistratura?
Porque o CNJ está questionando se a Lava Jato, que foi apresentada como o maior combate à corrupção do país, foi ela mesma corrupta. Se Moro violou princípios básicos da magistratura, toda a operação fica sob suspeita.
Mas precisamos ser claros: o corregedor está apontando violações de transparência e prudência, não necessariamente crime. A diferença entre má conduta administrativa e crime é importante.
Qual é a acusação específica contra Moro?
Que ele e a juíza Gabriela Hardt repassaram 2,1 bilhões à Petrobras sem critérios objetivos, antes mesmo das ações penais transitarem em julgado, e sem ouvir os réus e investigados.
O relatório diz que isso violou deveres de transparência e prudência. Mas o corregedor também sugere que Moro agiu em sintonia com os interesses de procuradores e da Petrobras, o que é uma acusação mais grave de parcialidade.
Moro respondeu que recuperar dinheiro roubado não deveria ser crime. Ele tem um ponto?
Ele tem um ponto sobre o objetivo, mas não sobre o método. O corregedor não está dizendo que devolver dinheiro à Petrobras foi errado. Está dizendo que a forma como foi feito violou o devido processo legal.
Exatamente. E há um detalhe importante: a Petrobras estava sob investigação por autoridades americanas na mesma época. Designá-la como "vítima para todos os fins" sem apurar seus próprios prejuízos é questionável.
O que significa se Moro for punido?
Ele pode virar ficha suja e se tornar inelegível. Mas primeiro precisa ser investigado pela Polícia Federal para saber se houve crime.
E aqui está o ponto: a investigação administrativa do CNJ é uma coisa. A investigação criminal é outra. O corregedor está abrindo a porta para a segunda, mas ainda não há acusação formal de crime.
Moro saiu da magistratura enquanto respondia a 20 procedimentos administrativos. Isso é suspeito?
O corregedor acha que sim. Sugere que Moro tentou burlar a lei ao pedir exoneração em meio aos processos, como uma forma de se preparar para a vida política.
Mas o corregedor está interpretando a intenção de Moro. Não sabemos se ele deixou a magistratura por causa dos procedimentos ou apesar deles. A cronologia importa aqui, e o relatório não deixa claro quando os procedimentos foram abertos.
O Pulso
- 2,1 bilhões de reais repassados à Petrobras entre 2015 e 2019 sem critérios objetivos
- Repasses ocorreram antes do trânsito em julgado das ações penais e sem participação de réus
- Moro respondia a cerca de 20 procedimentos administrativos quando deixou a magistratura
- Petrobras estava sob investigação por autoridades americanas desde novembro de 2014
Moro criticou a decisão do CNJ nas redes sociais, afirmando que recuperar dinheiro roubado não deveria ser crime. O corregedor Luis Felipe Salomão aponta que os repasses ocorreram antes do trânsito em julgado das ações penais e sem participação de réus e investigados.
O corregedor Nacional de Justiça instaurou investigação contra o senador Sergio Moro e a juíza Gabriela Hardt por violações de transparência e prudência ao destinarem R$ 2,1 bilhões à Petrobras entre 2015 e 2019, sem critérios objetivos.
O corregedor Nacional de Justiça, Luis Felipe Salomão, abriu investigação contra o senador Sergio Moro e a juíza federal Gabriela Hardt por condutas que teriam violado princípios fundamentais da magistratura. A acusação é grave: entre 2015 e 2019, os dois magistrados teriam coordenado o repasse de 2,1 bilhões de reais à Petrobras sem estabelecer critérios objetivos para a decisão, em um processo que não incluiu a participação dos réus e investigados envolvidos.
Moro, que deixou a magistratura para se tornar ministro da Justiça no governo Bolsonaro e agora é senador pelo União-PR, reagiu imediatamente nas redes sociais. Descreveu a investigação como absurda, afirmando que no "fantástico mundo da Corregedoria do CNJ, recuperar dinheiro roubado dos bandidos e devolver à vítima é crime. Só mesmo no governo Lula". A resposta revela o tom da disputa: Moro enquadra sua atuação como combate à corrupção, enquanto o corregedor a caracteriza como abuso de poder judicial.
O relatório preliminar que fundamenta a investigação, resultado de uma correição realizada pelo CNJ nas cortes que julgavam casos da Operação Lava Jato em Curitiba, apresenta uma narrativa diferente. Segundo Salomão, Moro e Hardt promoveram os repasses antes mesmo do trânsito em julgado de parte das ações penais. O corregedor aponta ainda que a Petrobras foi designada como "vítima para todos os fins" da operação, apesar de a própria empresa estar sob investigação por autoridades americanas desde novembro de 2014 por condutas ilícitas nos Estados Unidos. Os repasses ocorreram, segundo o relatório, em um "vácuo informativo", sem que se apurasse os prejuízos efetivamente sofridos pela estatal.
O corregedor vai além das questões procedimentais. Na decisão, Salomão cita um trecho da correição que afirma: "O alegado combate à corrupção não pode servir de biombo para se praticar, no processo e na atividade judicante, as mesmas condutas que se busca reprimir". A crítica toca em algo central: a ideia de que o fim não justifica os meios, de que a luta contra a corrupção não autoriza violações dos deveres de transparência, prudência, imparcialidade e diligência que definem a função judicial.
O corregedor também questiona a forma como a força-tarefa da Lava Jato estabeleceu critérios para a destinação de valores decorrentes de acordos de colaboração e leniência. Segundo Salomão, esses critérios estavam "absolutamente distante do critério legal de decretação de perda", e a anuência do juizado à execução imediata dos acordos "terminava por consolidar verdadeira dispensa do devido processo legal". A investigação sugere que Moro e Hardt atuaram em sintonia com os interesses do procurador Deltan Dallagnol e de representantes da Petrobras, em vez de manter a imparcialidade exigida pela função.
Um aspecto particularmente delicado é o timing da saída de Moro da magistratura. O corregedor aponta que o senador respondia a cerca de 20 procedimentos administrativos quando deixou a carreira. Salomão sugere que Moro pode ter tentado burlar a lei ao pedir exoneração em meio aos processos, uma manobra que a jurisprudência do CNJ busca impedir. O corregedor afirma que os atos censuráveis sugerem "efetiva preparação ao ingresso na vida política, mediante a prática de condutas infracionais como meio de autopromoção, em confronto evidente aos deveres da magistratura e à imagem do Poder Judiciário".
Se punido, Moro pode virar ficha suja e se tornar inelegível. Eventuais crimes serão investigados por um grupo da Polícia Federal que o corregedor está criando em parceria com o ministro Flávio Dino, do Ministério da Justiça. Esta é a primeira vez que a conduta de Moro é investigada com maior profundidade, e a investigação toca em questões que vão além do procedimento: a própria legitimidade do Poder Judiciário e a confiança que a sociedade deposita nele. Como afirma Salomão em sua decisão, a integridade de conduta do magistrado e seu distanciamento de paixões e projetos pessoais são fundamentais para que os cidadãos confiem na judicatura. A investigação agora dirá se essa confiança foi violada.
Citações Notáveis
No fantástico mundo da Corregedoria do CNJ, recuperar dinheiro roubado dos bandidos e devolver à vítima é crime. Só mesmo no governo Lula— Sergio Moro, em resposta nas redes sociais
O alegado combate à corrupção não pode servir de biombo para se praticar, no processo e na atividade judicante, as mesmas condutas que se busca reprimir— Luis Felipe Salomão, corregedor Nacional de Justiça