Carlos Nobre, climatologista de renome mundial, oferece um diagnóstico sóbrio sobre o que aguarda o Brasil: um El Niño muito forte se aproxima, amplificado por oceanos que não estiveram tão quentes em mais de cem milhões de anos. São Paulo, com suas ilhas urbanas de calor cobrindo três quartos da cidade sem vegetação, transforma fenômenos climáticos tradicionais em recordes de destruição. Por trás dos números e das previsões, há um silêncio perturbador — o de políticas públicas ausentes diante de 14 mil mortes anuais pelo calor, mortes que recaem sobre os mais frágeis.
Climatologista alerta: eventos extremos aumentam em SP por ilhas de calor urbano
Os eventos extremos estão aumentando muito em São Paulo
O senhor mencionou que o El Niño moderado de 2023 causou mais danos que os muito fortes anteriores. Como isso é possível?
Porque o aquecimento global não apenas cria fenômenos climáticos isolados. Ele amplifica tudo. Naquele El Niño, as águas do Atlântico também estavam anormalmente quentes. Essa combinação foi o que gerou os impactos maiores.
E o vendaval de São Paulo — o senhor está dizendo que não é novo, mas que algo mudou?
Frentes frias sempre geraram rajadas de vento. Isso é tradicional. Mas 124 quilômetros por hora em uma cidade é recorde. Estamos estudando a relação entre o Atlântico mais quente e essa intensidade.
As ilhas urbanas de calor — como exatamente elas amplificam esses eventos?
Setenta a setenta e cinco por cento de São Paulo não tem vegetação. Isso faz o clima ficar muito quente. Essa energia extra vai para a atmosfera, o ar sobe rápido, formam-se nuvens cumulonimbus. Daí vêm as chuvas fortes e os vendavais.
E as mortes por calor — por que isso não está na agenda política?
Quase 500 mil pessoas morrem por ano no mundo relacionadas ao calor. No Brasil, 14 mil. Afeta principalmente idosos, pessoas doentes, crianças pequenas. A maior parte das casas não tem ar-condicionado. Quando a temperatura mínima não cai abaixo de 27 graus, o corpo não consegue se recuperar à noite. Mas são milhões de brasileiros nessa condição. É difícil de resolver.
O senhor mencionou que alertou sobre a seca da Amazônia em 2023 e foi ignorado.
Sim. Alertamos com antecedência. Mas o agronegócio nos ignorou. Quando tiveram a pior safra de soja dos últimos anos, foram ao Congresso tentar se indenizar pelas perdas. É um contrassenso total.
El Pulso
- Um El Niño muito forte se aproxima para 2024, com temperaturas do Pacífico Equatorial acima de 2ºC — o topo da escala — e o aquecimento global age como amplificador, tornando cada fenômeno mais destrutivo do que os precedentes históricos.
- O vendaval de 124 km/h que sacudiu São Paulo não foi uma anomalia isolada: é parte de um padrão crescente em que ilhas urbanas de calor injetam energia extra na atmosfera, transformando frentes frias comuns em eventos extremos.
- A Amazônia caminha para uma seca severa, enquanto o Sudeste se prepara para ondas de calor com máximas de 40ºC no Rio e mínimas noturnas que não caem abaixo de 27ºC — impedindo que corpos vulneráveis se recuperem.
- Cerca de 14 mil brasileiros morrem por ano em decorrência do calor, sobretudo idosos, doentes e crianças em residências sem ar-condicionado — e Nobre não identifica nenhuma política pública à altura desse risco.
Carlos Nobre, climatologista de renome mundial, oferece um diagnóstico sóbrio sobre o que aguarda o Brasil: um El Niño muito forte se aproxima, amplificado por oceanos que não estiveram tão quentes em mais de cem milhões de anos. São Paulo, com suas ilhas urbanas de calor cobrindo três quartos da cidade sem vegetação, transforma fenômenos climáticos tradicionais em recordes de destruição. Por trás dos números e das previsões, há um silêncio perturbador — o de políticas públicas ausentes diante de 14 mil mortes anuais pelo calor, mortes que recaem sobre os mais frágeis.
Carlos Nobre começou a conversa com uma correção: não é 'super El Niño'. O termo científico correto é El Niño muito forte — e é exatamente isso que se aproxima. Quando as águas do Pacífico Equatorial superam 2ºC acima da média, o fenômeno atinge seu grau máximo e seus efeitos se espalham pelo planeta inteiro.
Os precedentes são reveladores. Os El Niños muito fortes de 1992-1993 e 2015-2016 deixaram marcas profundas. Mas o evento moderado de 2023-2024 causou danos ainda maiores — chuvas devastadoras no sul e uma das piores secas da Amazônia. A razão é o aquecimento global, que não cria os fenômenos, mas os amplifica. Os oceanos estão tão quentes quanto há 120 a 130 milhões de anos, e essa energia extra transforma eventos comuns em recordes.
O vendaval de 124 km/h que atingiu São Paulo é um exemplo desse mecanismo. Frentes frias vindas do sul sempre geraram rajadas na cidade — isso é tradicional. O que mudou é a intensidade. Nobre investiga a relação entre o Atlântico mais quente e esses picos de violência, mas aponta um fator já estabelecido: as ilhas urbanas de calor. Com 70 a 75% da cidade sem vegetação, São Paulo aquece o ar, forma nuvens cumulonimbus e transforma chuvas e ventos em eventos extremos. No verão, certas áreas registram temperaturas até 11ºC acima da média — e a maior parte delas fica dentro das comunidades mais pobres.
O horizonte imediato é exigente: seca severa na Amazônia, ondas de calor no Sudeste com máximas de 40ºC e mínimas noturnas que não caem abaixo de 27ºC. É nesse ponto que Nobre revela sua maior preocupação. Quando as noites não refrescam por sete, oito, dez dias seguidos, o corpo dos idosos não consegue se recuperar. São cerca de 14 mil mortes anuais pelo calor no Brasil — idosos, doentes, crianças pequenas em casas sem ar-condicionado. E Nobre não viu, até agora, nenhuma política pública à altura desse risco.
Carlos Nobre, um dos maiores climatologistas do mundo, sentou-se para falar sobre o que está acontecendo no céu de São Paulo — e a conversa começou com uma correção científica. Não é um "super El Niño", explicou. O termo preciso é El Niño muito forte. As categorias existem: fraco, moderado, forte, muito forte. A tendência para este ano é que chegue ao topo da escala.
Essa classificação depende de números simples mas consequentes. Quando a temperatura média das águas do Pacífico Equatorial sobe 1,5 a 2 graus Celsius acima da média, o fenômeno é forte. Acima de 2 graus, é muito forte. E quando é muito forte, o efeito não fica confinado ao oceano. Ele se espalha globalmente — pela América do Sul, pelo Brasil, pelos padrões de chuva e seca que definem safras e vidas.
Nobre apontou para os precedentes. Em 1992-1993 e novamente em 2015-2016, El Niños muito fortes deixaram marcas profundas. Mas o mais recente, em 2023-2024, foi apenas moderado — e ainda assim causou impactos maiores que aqueles anteriores. Chuvas intensíssimas no sul do país. Uma das piores secas já registradas na Amazônia. A razão é que o aquecimento global não apenas cria fenômenos climáticos; ele os amplifica. Naquele El Niño moderado, as águas do Atlântico Norte e Sul também estavam anormalmente quentes. Essa combinação foi o que gerou os danos.
Mas há uma boa notícia embutida nos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O Atlântico está mais quente na costa do Nordeste — e isso significa mais chuva para a região, amenizando a seca que poderia vir. Nobre torce para que isso se concretize. O aquecimento das águas do Atlântico, ele ressaltou, está totalmente ligado ao aquecimento global. A última vez que os oceanos estiveram tão quentes foi há 120 a 130 milhões de anos, durante o último período interglacial.
O vendaval que atingiu São Paulo na quarta-feira anterior — aquele que alcançou 124 quilômetros por hora — é um fenômeno que sempre existiu. Frentes frias subindo do sul, do norte de Santa Catarina e parte do Paraná, geram rajadas de vento. Isso é tradicional. A questão que Nobre coloca é diferente: por que foi tão forte desta vez? Ele está estudando a relação entre o Atlântico mais quente e a intensidade desses ventos. Ainda não há conclusão, mas a suspeita está ali.
O que está claro é que os eventos extremos estão aumentando muito em São Paulo e, em menor medida, no Rio. Fenômenos que sempre ocorreram — frentes frias, ciclones extratropicais, rajadas — agora batem recordes nas grandes cidades. A culpa, disse Nobre, é das ilhas urbanas de calor. Em São Paulo, 70 a 75 por cento da cidade não tem vegetação. Isso faz o clima ficar muito quente. No verão, as temperaturas ficam 6 a 11 graus mais altas nessas áreas. A maior parte delas fica dentro das comunidades. Essas ilhas urbanas de calor levam mais energia para a atmosfera, fazem o ar subir rápido, formam nuvens cumulonimbus e geram chuvas fortes e vendavais.
Os impactos já estão sendo sentidos. As chuvas dos últimos dias no sul estão relacionadas ao fenômeno. Nobre prevê uma seca muito forte na Amazônia. No Sudeste e Centro-Oeste, espera-se ondas de calor e pancadas de chuva — não chuvas contínuas como no sul, mas fortes e abruptas. De setembro a janeiro, as temperaturas máximas devem chegar facilmente a 40 graus Celsius no Rio e ultrapassar 35 graus em São Paulo.
Mas há um custo humano que Nobre não vê sendo adequadamente enfrentado. Ele não viu políticas para proteger as populações vulneráveis das ondas de calor — que é o que mais mata em qualquer evento climático extremo. No mundo inteiro, nos últimos anos, quase 500 mil pessoas morrem por ano relacionadas ao calor. No Brasil, são cerca de 14 mil. O calor afeta principalmente idosos, pessoas doentes e crianças pequenas. A maior parte das residências brasileiras não tem ar-condicionado. Quando há sete, oito, dez dias seguidos de temperaturas máximas perto de 40 graus e, pior ainda, mínimas que não caem abaixo de 27 graus, o corpo dos idosos não consegue se recuperar durante a noite. Nobre diz que não viu nenhuma política governamental para isso — embora reconheça que é difícil, porque são milhões de brasileiros nessa condição.
Citas Notables
Não chama de super El Niño. Cientificamente o termo correto é El Niño muito forte.— Carlos Nobre, climatologista
Essas ilhas urbanas de calor levam mais energia para a atmosfera, fazem o ar subir rápido, formando nuvens cumulonimbus e gerando chuvas fortes e vendavais.— Carlos Nobre