Tecnologia Lidar descobriu estruturas geométricas e caminhos retos de uma civilização complexa que ocupava 183 mil km² no sudoeste amazônico. Estimativas indicam até 3 milhões de habitantes locais e potencialmente dezenas de milhões em toda a Amazônia, muito acima de cálculos anteriores.
Civilização Aquiry na Amazônia reuniu até 3 milhões de habitantes, revela mapeamento a laser
Uma rede formada por muitas comunidades diferentes, cada uma deixando sua marca
Como exatamente a tecnologia laser consegue penetrar uma floresta tão densa quanto a Amazônia?
O Lidar funciona enviando pulsos de laser que atravessam as frestas entre as árvores e rebate no solo. Isso cria um mapa tridimensional da paisagem que existe sob a vegetação. É como tirar uma radiografia da floresta.
E esses geoglifos — essas figuras geométricas — tinham alguma função prática além da ritual?
Provavelmente serviam múltiplos propósitos. Eram centros políticos e rituais, pontos de encontro para decisões coletivas, mas também demonstrações de poder e generosidade dos líderes. As dimensões variáveis sugerem que cada comunidade adaptava essas estruturas às suas necessidades específicas.
Por que desapareceram? Há alguma teoria?
Ainda não há resposta clara. O que intriga os pesquisadores é que isso aconteceu por volta de 850 d.C., exatamente quando a civilização maia clássica também entrou em colapso. Pode haver fatores climáticos, sociais ou políticos envolvidos, mas as causas permanecem um mistério.
Você mencionou que não havia ruínas de pedra. Como isso afeta o que sabemos sobre eles?
Limita bastante. Sem estruturas líticas, perdemos muitas informações que normalmente preservam detalhes sobre linguagem, escrita e organização política. Os geoglifos nos dizem como viviam espacialmente, mas não nos contam suas histórias pessoais.
E quanto ao impacto ambiental? Eles realmente transformaram a Amazônia?
Sim, de forma significativa. Queimaram florestas de bambu para agricultura, manejaram espécies de árvores, alteraram o balanço de carbono. Isso muda como pensamos sobre a Amazônia — não como uma floresta intocada, mas como uma paisagem profundamente moldada por civilizações humanas.
O Pulso
- Mais de 400 sítios cerimoniais mapeados via tecnologia Lidar no sudoeste amazônico
- População estimada entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes entre 600 a.C. e 850 d.C.
- Território de 183 mil quilômetros quadrados ocupado pela civilização Aquiry
- Estimativa de até 20 mil centros cerimoniais que podem ter existido na região
- Desaparecimento da civilização por volta de 850 d.C. permanece sem explicação clara
Tecnologia Lidar descobriu estruturas geométricas e caminhos retos de uma civilização complexa que ocupava 183 mil km² no sudoeste amazônico. Estimativas indicam até 3 milhões de habitantes locais e potencialmente dezenas de milhões em toda a Amazônia, muito acima de cálculos anteriores.
Mapeamento a laser revelou mais de 400 sítios cerimoniais da civilização Aquiry na Amazônia, sugerindo população de até 3 milhões entre 600 a.C. e 850 d.C., desafiando conhecimento anterior sobre densidade populacional regional.
Sob a densa cobertura florestal do sudoeste amazônico, onde os estados do Acre e Amazonas se encontram, existe um arquivo de terra que permaneceu invisível até muito recentemente. Mapeamento aéreo com tecnologia laser revelou mais de 400 sítios cerimoniais deixados pela civilização Aquiry, uma sociedade complexa que floresceu entre 600 a.C. e 850 d.C. e que, segundo pesquisadores, pode ter reunido entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes. A descoberta, publicada na revista Nature e co-autorada por cientistas brasileiros, reescreve o que se sabia sobre a densidade populacional e sofisticação cultural da região amazônica.
Os vestígios dessa civilização aparecem como figuras geométricas enigmáticas no solo: espaços delimitados por valas de vários metros de profundidade, conectados entre si por caminhos retos que atravessam a paisagem. O maior dos sítios ocupa 50 hectares, equivalente a 70 campos de futebol. Esses centros ocupavam um território de aproximadamente 183 mil quilômetros quadrados, quase do tamanho do estado do Paraná. O nome Aquiry vem do termo indígena para o rio Acre, e esses locais funcionavam como centros políticos e rituais que fortaleciam as relações entre comunidades, servindo como pontos de encontro para decisões coletivas e demonstrações de generosidade dos caciques.
O que torna essa descoberta particularmente significativa é a escala. Os arqueólogos identificaram mais de 400 sítios bem preservados, mas estimam que possam ter existido mais de 20 mil antigos centros cerimoniais na região. Isso supera em muito as estimativas anteriores de 10 mil para toda a Amazônia. Martti Pärssinen, arqueoantropólogo da Universidade de Helsinque e autor principal do estudo, expressou surpresa com o número extraordinariamente elevado de geoglifos e construções de terra encontradas em uma área que representa menos de 3% da Grande Amazônia. Essas descobertas sugerem que a população total da Amazônia pode ter alcançado dezenas de milhões de pessoas, desafiando estimativas anteriores que oscilavam entre 1 e 10 milhões.
Os Aquiry eram agricultores e construtores que deixaram marcas profundas na paisagem. Queimaram florestas de bambu para abrir áreas destinadas ao cultivo de milho, abóbora e mandioca. Além de construir seus centros cerimoniais e os largos caminhos que os conectavam, também manejavam espécies de árvores de alto valor cultural, promovendo sua propagação em detrimento de outras. Segundo Pärssinen, o impacto humano sobre o meio ambiente amazônico foi muito maior do que se acreditava, e essa civilização alterou a produção e o balanço de carbono da antiga Amazônia — algo que deveria ser considerado em futuros modelos climáticos.
A revelação dessas estruturas foi possível graças ao Lidar, uma tecnologia de mapeamento aéreo a laser que atravessa as frestas da vegetação e rebate no solo, permitindo reconstruir mapas tridimensionais da paisagem. Os pesquisadores voaram em trechos retos de cerca de 450 quilômetros, mapeando uma faixa de aproximadamente um quilômetro de largura a cada dez quilômetros, cobrindo uma área contínua tão extensa quanto possível. Essa metodologia revelou estruturas que permaneceriam ocultas sob a floresta por séculos.
O que exatamente ocorria nesses locais? As cerimônias incluíam danças rituais, música, banquetes, competições atléticas e jogos com bola. Francisco Apurinã, antropólogo brasileiro e indígena que participou do estudo, reconhece os geoglifos como um tipo de "kymyrury" — espaços que funcionam como "casas para os espíritos" na tradição de seu povo no Acre. As estruturas variavam em dimensões, formas e métodos de construção, refletindo características geográficas e culturais distintas da região. Não se tratava de um único reino centralizado, mas de uma rede formada por muitas comunidades diferentes, cada uma deixando sua marca particular na paisagem.
O que se sabe sobre os Aquiry permanece limitado em muitos aspectos. Desconhece-se quais línguas eram faladas nessas comunidades ou como seus habitantes se autodenominavam. A região carecia de pedra, por isso não restaram ruínas líticas que pudessem fornecer informações adicionais. Os geoglifos amazônicos, porém, ajudam a compreender como viviam e se organizavam socialmente.
O maior mistério continua sendo o desaparecimento dessa civilização. Por volta de 850 d.C., a Aquiry desapareceu do registro arqueológico. Pärssinen questiona o que aconteceu entre aproximadamente 850 e 1000 d.C. e por que essa civilização complexa e densamente povoada desapareceu. Essa pergunta ganha ainda mais peso quando se considera o contexto global: na mesma época, a civilização maia clássica na América Central também entrou em colapso gradualmente. As causas de ambos os colapsos continuam sendo objeto de debate entre pesquisadores, deixando em aberto uma das questões mais intrigantes da história das civilizações americanas.
Citações Notáveis
O que mais nos surpreendeu foi o número extraordinariamente elevado de geoglifos e outras construções de terra encontradas em uma área que representa menos de 3% da Grande Amazônia— Martti Pärssinen, arqueoantropólogo da Universidade de Helsinque
Nossas descobertas provocam uma reviravolta no que sabíamos sobre o passado da região amazônica. Muitas outras regiões da Amazônia podem ter sido muito mais densamente povoadas e ter passado por uma transformação muito mais intensa do que se supunha até agora— Martti Pärssinen